“[Macau] é como uma paródia em miniatura do resto do mundo”

São 34 peças, quase todas em grande escala, que entre 12 de Novembro e 28 de Maio ocupam o Museu de Arte de Macau (MAM), numa exposição a que o artista emprestou designação latina: “Ad Lib – Obras recentes de Konstantin Bessmertny”. O pintor russo estende ao espectador um exercício de provocação, que resulta de uma viagem satírica e caricatural pela sociedade que há 23 anos o envolve.

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Sílvia Gonçalves

Sobre o ringue, o corpo franzino e despido do Marquês de Sade aguarda o sinal para se bater com o adversário. Na saia subida acima dos joelhos, o confronto inesperado com as coxas da Rainha Vitória, a desmontar o arquétipo de uma Inglaterra de sexualidade contida, amordaçada pelo pudor. E a galeria de figuras adensa-se, numa tensão em crescendo onde os símbolos, infinitos, compõem uma teia de sarcasmo. Na parada de personagens – na bizarria que tolhe os sentidos e clama por descodificação – transporta-se a mente para os cenários lúgubres de Hieronymus Bosch, para a representação sórdida e caricatural da sociedade que oscila entre explosão de cor e negrume. “Ganância, estupidez, medo e preguiça”. A inscrição paira no topo da tela em meia-lua, e nela parece condensar-se a provocação lançada ao espectador pelo artista. Konstantin Bessmertny força o observador a abrandar, a interagir com uma peça composta de duas metades, um círculo imenso que suavemente se move numa rotação perpétua, e onde o mundo se condensa numa sátira, como que para contrariar o entorpecimento de quem o contempla.

A uma mostra que apresenta 34 peças concebidas em anos recentes, chamou-lhe Bessmertny “Ad Lib”, forma abreviada da expressão latina “Ad Libitum”, em cuja tradução recairá algo como ‘à vontade’ ou ‘a bel-prazer’. Um território de liberdade, portanto, que permite ao artista conjugar linguagens e meios, empurrando as fronteiras tantas vezes impostas na produção artística: “É como uma variação ilimitada pela interpretações, para o espectador e para mim também. Eu posso combinar coisas que usualmente não seriam vistas juntas. De certa forma queria fazê-lo porque nunca gostei do conceito de que o artista tenha um estilo. Acho que foi implantando como parte de uma campanha das galerias, marcar um artista, para o vender depois”, atira Bessmertny ao PONTO FINAL, enquanto conduz o olhar pela imensa sala onde as peças, ainda em montagem, se vão apropriando do espaço.

“A coisa mais importante para um artista, um criativo, um carpinteiro, é desafiar-se a si próprio para algo que nunca fez antes. O objectivo é conquistar a perfeição, a verdade, mas nunca a encontrando. De certa forma tento continuar sem me limitar, sem me restringir. Estou apenas a tentar alargar as fronteiras para o espectador e para mim”, assume.

Entre pintura, escultura, instalação e técnica mista, descobrem-se intervenções artísticas sobre violoncelos, num exercício de crítica à vulgaridade a que gradualmente se foi devotando a cultura clássica, com “a alta cultura a descer à cultura Pop”. Ou as telas onde o estafado discurso do encontro entre o Oriente e o Ocidente encontra representação mordaz ao colocar um samurai num cenário palaciano europeu. Numa composição de pintura flamenga, assume o artista, que à devoção por Bosch junta a identificação com Vermeer. Segue-se a inesperada representação do “Martírio de São Sebastião”, infinitas vezes reproduzida na história da pintura, aqui com o corpo medievo cravado de agulhas de acupunctura.

Hannah Arendt, Tomás de Aquino, Voltaire. A filosofia atravessa o fio condutor que une um conjunto pictórico onde a dúvida se avoluma e acrescenta camadas sobre as quais o espectador tem que ousar avançar: “Adorava influenciar a sociedade, acredito que esse é o dever do artista, fazer do mundo um lugar melhor, para nós, para os nossos filhos e netos. Nesta exposição tento tocar diferentes temas, a cultura Pop, o planeta terra, problemas como o aquecimento global, anti-aquecimento global, não interessa, apenas mostrar que há um problema. A diferença entre o clássico e o vulgar, Ocidente-Oriente, parodiar os ícones religiosos. Não quero ferir as crenças das pessoas, estou apenas a tentar colocar-me num ângulo de onde possamos ver as coisas de forma diferente”, revela.

No centro da sala, uma sucessão de esculturas e instalações, onde se impõe o porte de um leão em madeira, figura trazida da Índia, outrora carregada em procissões: “No leão tens este ‘statment’ de Tomás de Aquino: ‘Não confies num homem que só leu um livro’. Neste caso quero abrir os limites das pessoas, não podemos forçá-lo, mas sugerir, para abrirem as suas mentes, para que tentem ver de um ângulo diferente, mudar os seus pontos de vista”.

Para o pintor russo continua a fazer sentido avançar na produção artística tendo como chão o território que o acolheu há 23 anos: “É um lugar único, é como uma paródia em miniatura do resto do mundo. Podes ver tudo aqui, está concentrado num pequeno espaço, podes ver como todas as camadas da pirâmide social interagem, como o poder vertical funciona, como a corrupção se liga. Não estou a criticar, mas é tão transparente e óbvio em Macau, que não podes encontrar outro lugar no mundo similar a isto”, descreve o artista.

 

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