Compañía Nacional de Danza resgata “Carmen” para o ballet, numa adaptação que estilhaça o cânone

Esta quinta e sexta-feira o Grande Auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) recebe, às 20 horas, um bailado em dois actos que recupera do reportório operático a derradeira obra de Georges Bizet, estreada em 1875. A adaptação para ballet de “Carmen” – proposta pela Compañía Nacional de Danza –  transpõe para um tempo contemporâneo uma personagem que na cultura espanhola assume lugar de devoção.

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Sílvia Gonçalves

Sensualidade e vitalidade num corpo de mulher, altivo, que sacode o rótulo da norma e promiscuidade, e avança sobre o palco. No vestido tingido a vermelho-sangue, curto, que se abre sem pudor para se desdobrar em pele. Tensão, no confronto entre mulheres que travam ombro-a-ombro uma disputa suada que parece germinar na rua. Violência, na luta final entre amantes de onde já não sobra possibilidade e promessa, e que a inevitabilidade encaminha para a morte. A Compañía Nacional de Danza, de Espanha, traz ao território uma adaptação para ballet de “Carmen” – obra maior do compositor francês Georges Bizet. Na coreografia do sueco Johan Inger, mais do que uma interpretação contemporânea e despojada de um clássico da produção operática do século XIX – ressalta a afirmação de uma protagonista entranhada num tempo urbano e actual, apartada do estereótipo oitocentista da mulher cigana e marginal que carrega a mácula do pecado. Coisa arrojada, a ousadia com que uma companhia de bailado desmonta uma personagem que em Espanha se alça ao estatuto de instituição.

“Nós somos a companhia nacional de Espanha, mas os nossos bailarinos são bailarinos clássicos, neo-clássicos, contemporâneos. Portanto a ideia foi fazer uma versão contemporânea mas que fale realmente de Carmen, como Carmen é na realidade”, começou por enquadrar José Carlos Martinez, director artístico da companhia, ontem, na sessão de apresentação do espectáculo à imprensa. O antigo bailarino explicou o que o levou a estender o convite a um coreógrafo sueco que já havia trabalhado com a companhia: “Eu vi-os crescer muito rapidamente ao trabalhar com ele, por isso tive a ideia de o convidar a fazer a Carmen para nós. Para Johan Inger foi tão difícil, porque nunca tinha feito um bailado com uma história, portanto para ele o lado dramático foi importante.  Para nós foi importante ter, ao mesmo tempo, este vocabulário contemporâneo, para os nossos bailarinos foi poderoso, com muita energia, e juntar isso com esta história espanhola, com a história do nosso país, de certo modo”, assume.

José Carlos Martinez desvenda uma coreografia que vem acrescentar uma personagem à narrativa inicial e oitocentista, assinada pelo realista Prosper Mérimée: “A ideia do Johan foi introduzir uma nova personagem, a personagem do rapaz, a que ele chamou ‘O Rapaz’. É uma criança pura, imaculada. A audiência pode ser este rapaz, que pode ser o Don José quando ele era um rapaz, ou o rapaz que não nasceu, que Carmen e Don José podiam ter tido se a história fosse diferente. Desta forma ele pode mostrar esta mulher que é como ela quer ser, mesmo com a relação com o Don José. Porque nós estamos a vê-la através dos olhos de alguém puro. Este rapaz pode mesmo ser a audiência, cada um de nós que vê o ballet. Esta foi a maneira que ele encontrou de mostrar a violência no palco”, explica.

Na sensualidade e crueza que atravessam a coreografia, liberta-se a história do libreto que o tempo consagrou, o último que Bizet musicou: “Estamos a contar a história, mas fazendo-o com todos os elementos que temos hoje, com pessoas em palco em que cada uma tem uma diferente personalidade. Nesta peça cada uma delas coloca muita emoção que tem no seu interior. A soma de toda esta emoção faz com que seja algo de hoje”.

Também na concepção dos figurinos se faz a transposição para um tempo presente, que traduz a ousadia de transfigurar uma figura icónica, desde sempre vinculada ao imaginário tradicional do flamenco: “Os figurinos são do David Delfín, que é um designer de moda em Espanha. Ele trabalhou muito na ‘movida’, com o Pedro Almodóvar. É inspirado nos anos 60, no folclore espanhol, ele fá-lo mais curto, mas aberto. No início eu estava um pouco assustado, antes de fazer a Carmen em Espanha pela primeira vez, para mostrar esta versão, porque em Espanha a Carmen é muito tradicional. Aqui ela é forte, e mostra-o”, garante.

Nos altos muros de cimento, onde predomina o cinza, nos painéis que se deslocam e acompanham o movimento dos bailarinos, constrói-se uma cenografia (de Curt Allen Wilmer) concebida, como tantas vezes na produção contemporânea, para colocar no centro os artistas: “Mesmo que seja contemporâneo é realmente poderoso. A cenografia é muito simples, os bailarinos constroem os cenários. Não é uma peça minimalista, tem todas as emoções lá. Quando Don José mata Carmen, temos todos os bailarinos à sua volta, este momento é muito teatral”, adianta Martinez. “É a primeira vez que Johan Inger constrói cenas com elementos teatrais dentro do ballet. Isto mistura a coreografia contemporânea, muito suave, o lado poderoso, com os elementos teatrais, juntos. É uma coisa nova para ele, para nós. E é exactamente isso que eu queria quando imaginei fazer uma nova Carmen”, assume.

Num bailado que se apresenta com dois elencos, em que diferentes intérpretes assumem os papéis centrais, repete-se contudo a bailarina que empresta corpo e intuição à personagem do Rapaz, Leona Sivôs: “Ela tem uma presença teatral mas também dança, até com a Carmen e o Don José. Eles têm flashbacks, há momentos na peça em que podemos ver o casal com a criança, a partirem alguns anos depois. Há muitos flashbacks sobre os sentimentos do Don José em que podemos ver o rapaz. A peça começa com o rapaz, com ele a chegar ao palco e a abrir a cortina, e descobrimos esta Carmen através dos olhos do rapaz”.

Já a personagem de Carmen é assumida por duas bailarinas. Na noite de quinta-feira, será Kayoko Everhart a apropriar-se do palco do Grande Auditório do CCM. Na noite seguinte, a personagem é interpretada por Elisabet Biosca. O director artístico desvenda o que as distingue: “Kayoko parece fria de início, mas o poder está dentro e pode ver-se isso ao longo da peça. Ao início é apenas linda, depois vê-se a evolução da personagem. Elisabet é forte desde o início: ‘Sou a Carmen e vou fazer o que quiser’. São duas formas diferentes de abordar este papel. Kayoko é mais sensual, Elisabet é mais poderosa”. A personagem de Don José é interpretada, na primeira noite, pelo bailarino Daan Vervoort, e na segunda por Isaac Montlor. Já o toureiro Escamillo, que com Don José e Carmen forma um triângulo amoroso, é interpretado na quinta-feira por Isaac Montlor e na sexta-feira por António De Rosa.

 

A TRANSIÇÃO DE BAILARINO ‘ÉTOILE’ PARA A DEFINIÇÃO ARTÍSTICA DE UMA COMPANHIA

José Carlos Martinez assume a direcção da Compañía Nacional de Danza em 2011, depois de uma longa carreira como primeiro-bailarino do Ballet da Ópera de Paris, onde foi nomeado ‘étoile’, o mais alto escalão a que um bailarino pode aspirar. Martinez chega à companhia de ballet da Ópera de Paris escolhido pelo icónico Rudolf Nureyev, mas viria ainda a ser conduzido por alguns dos mais conceituados coreógrafos do século XX, como Maurice Bejart, Pina Bausch, Mats Ek ou William Forsythe.

“Há cinco anos propuseram-me ser director da Compañía Nacional de Danza, e foi uma forma de continuar a dançar através dos corpos dos meus bailarinos. Agora posso trabalhar com coreógrafos, posso escolhê-los, ver os bailarinos crescer é tão interessante. Ser director é um pouco diferente, foi algo inesperado para mim. Mas, finalmente, é uma junção, porque posso fazer coreografia, encontrar alguém para o fazer. Podemos desenvolver o nosso modo artístico para os outros. É um bom lugar”, assume Martinez, para quem agora o palco é o espaço de concretização de uma visão artística que a vida entregue ao ballet permitiu edificar.

 

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