Na cidade da abundância, os agentes culturais dizem esbarrar no silêncio do sector do jogo

Inserir a criatividade na equação do desenvolvimento urbano sustentável, num processo de onde não pode estar arredada a preservação da identidade local, são algumas das ideias ontem partilhadas numa palestra conduzida por Charles Landry. Alguns agentes culturais concordam com o especialista, para quem Macau pode fazer muito mais com os recursos financeiros de que dispõe e apontam o dedo ao sector do jogo, ainda apartado, dizem, dos criadores locais.

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Sílvia Gonçalves

Charles Landry passou ontem pelo território, onde conduziu, no Centro de Ciência, a palestra “Macau: O Efeito Catalisador da Ambição e da Criatividade no Desenvolvimento Urbano Sustentável”. O especialista britânico, que há décadas trabalha o conceito de Cidade Criativa, sugeriu uma melhor aplicação dos recursos financeiros locais para encaminhar Macau no sentido da criatividade, fulcral para o desenvolvimento sustentável da cidade. Alguns dos agentes culturais presentes concordam que o sector privado – nomeadamente o do jogo –  deveria exercer um papel mais efectivo na captação de criativos locais. Os casinos, dizem, estão demasiado focados na lógica do lucro e em soluções oriundas do exterior.

“Macau tem quarenta vezes mais dinheiro que qualquer cidade inglesa. Se eles podem fazer coisas criativas, vocês também podem”, atirou Charles Landry perante a plateia apinhada que ontem o ouvia no Centro de Ciência. Para o especialista “é a cultura que determina um lugar”, e “no planeamento urbano [esta] é ainda vista como algo acessório, quando é o fulcro”.

Na extensa intervenção a que ontem deu voz no Centro de Ciência, Landry sugeriu uma maior intervenção do sector do jogo para potenciar Macau enquanto cidade criativa. Entre os poucos agentes criativos locais presentes nas primeiras filas, há quem aponte dificuldades num processo lento que tem a criatividade como motor de transformação: “O próprio Governo e as associações têm uma maneira de pensar em que nem todos concorrem para as ideias fluírem. Porque há muitos senãos, há muitas preocupações. E o tradicional também choca com o moderno. É uma coisa que está a ser feita. Eventualmente daqui a 10 anos talvez a gente tenha algo de realmente novo aqui em Macau”, preconiza Lúcia Lemos.

A directora da Creative Macau fala da resistência com que muitas vezes as entidades e associações culturais locais esbarram no momento de abordar aqueles que apresentam maior capacidade de investimento: “Nós vamos aos casinos, pedimos dinheiro e é muito difícil. Dizem que sim, mas a burocracia é de tal maneira impossível”, sustenta.

Estão os casinos fechados ao universo de produção criativa local?, quis saber o PONTO FINAL? “Muito fechados, não é para a arte, mas para os residentes locais. O que é que eles fazem para a cidade, para os locais? Aquelas grandes produções, para as quais aqui em Macau não temos capacidade. Mas eles não vêm buscar, não dão formação aos locais”, sustenta Lúcia Lemos, para quem a aposta no talento local não existe “de uma maneira desinteressada”..

A coordenadora da Creative Macau sublinha a dificuldade de quem bate sempre de frente com a lógica do lucro: “É muito difícil, não se consegue fazer nada. A coisa é: tem lucro? O que é que a gente vai ganhar? Há pessoas que são generosas e estão sempre a pensar como contribuir para a comunidade local. Mas eles não pensam dessa maneira, qualquer coisa tem que ser sempre lucrativa. Isso é que é uma dor de alma. Desde que o primeiro casino foi implantado, em 2004, já se passaram muitos anos, acho que já é hora de se tomar uma atitude”.

Também José Luís Sales Marques entende que os recursos de Macau não estão a ser utilizados da melhor forma, de modo a que Macau seja enquadrada como cidade criativa: “Penso que os recursos de Macau, que são relativamente abundantes, podiam ser utilizados da melhor forma no sentido de se fazer de Macau uma cidade, uma região criativa. Os recursos existem, mas nem todas as pessoas estão de acordo que sejam utilizados de uma certa maneira, basta ouvirmos os debates na Assembleia Legislativa”, defende.

O economista e presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau aponta de seguida ao sector privado que deveria assumir – diz – “um papel empreendedor” e “ter uma visão mais a longo prazo”, onde se afiguram as concessionárias de jogo: “O próprio sector do jogo, como Charles Landry disse – aliás acho que muitas pessoas de Macau já o disseram – é um mercado muito importante para as indústrias criativas. E é um mercado que já existe”.

Sales Marques aponta exemplos em que o principal pilar da economia local parece estar a passar ao lado dos criadores locais: “Quantas vezes já se disse que se o dinheiro que se gasta em projectos de arquitectura e decoração para os casinos, se fossem pagos a entidades, a criativos e arquitectos de Macau, se calhar estaríamos hoje a ter uma conversa diferente”, sublinha.

Por outro lado, defende o economista, “deveria haver talvez uma maior preocupação até em dotarem as suas próprias unidades hoteleiras e outras de um sabor local maior”. O também presidente do Jazz Club de Macau entende que a solução passa pela perseverança: “É insistirmos sempre, continuar, enquanto agentes culturais, enquanto Governo. Alguns passos estão a ser dados”.

Um exercício, defende, transversal a toda a sociedade: “É preciso que os vários sectores da sociedade olhem para estas questões de forma mais séria, sem ser com aquele sentido, como aqui também foi dito, de: ‘Ah, a cultura é aquela coisa marginal, acessória’, e pôr a cultura no centro do palco”.

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