Onde estão os livros?

A 31 de Agosto, a livraria Pin-to Livros & Música postou um artigo na sua página do Facebook em que anunciava o fim do seu contrato de arrendamento e esclarecia que tinha de mudar de localização. O post chocou os amantes de literatura de Macau e foi partilhado e lido mais de 200.000 vezes. A 30 de Setembro, depois da exibição de um documentário, a loja fechou portas depois de 13 anos de negócio no centro histórico da cidade.

Pin-To Bookshop

Fotografia: Eduardo Martins;

Wendi Song

Conhecida por uma selecção especial de livros, pela singularidade dos títulos musicais comercializados e por ser pioneira em organização de eventos culturais de grande interesse ao longo dos últimos 13 anos, a Pin-to Livros & Música é desde há muito tempo considerada como um marco cultural, quer pelos amantes de literatura locais, quer por quem visita o território. O significado cultural e social da loja vai muito além do seu espaço físico.

Uma livraria independente não é o  tipo de negócio que tenha propriamente  um grande retorno monetário, sobretudo numa altura em que a indústria editorial, em termos gerais, se depara com vários desafios. É necessário ser-se verdadeiramente determinado para apostar numa loja física.

Anson Ng, único proprietário da livraria Pin-to, não gosta que as pessoas olhem para a sua carreira como uma soma de opções trágicas. Garante que a razão pela qual decidiu administrar uma livraria foi, acima de tudo, por “ser divertido e por permitir um sentimento de realização.”

No ano de 2003, quando trabalhava na Eslite Music em Taiwan, decidiu voltar a Macau para trabalhar num projecto diferente. Na mesma altura conheceu três residentes locais com formas de pensar idênticas à sua que acabaram por se tornar seus amigos. Todos apresentavam um “background” na indústria cultural e concordavam que Macau não possuía uma livraria que conseguisse “satisfazer a compra de livros e as necessidades de leitura. Depois de algumas conversas, os quatro amigos decidiram investir, em conjunto, na abertura de uma loja que “dispusesse de todos os livros de que mais gostávamos”.

Devido à epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) naquela altura, os preços dos imóveis em Macau não eram tão elevados, pelo que a livraria Pin-to conseguiu encontrar um espaço no segundo andar de um edifício localizado no  Largo do Senado, com uma renda de aproximadamente HK$10.000: “Nenhum de nós era homem de negócios naquele tempo, por isso abrir a loja foi algo bastante aleatório”, diz Anson. “O investimento não foi muito, portanto achávamos que, mesmo que a loja entrasse em bancarrota, poderíamos ficar com os livros para nós.”

Contudo, para surpresa dos investidores, o negócio floresceu assim que foi inaugurado. Em Macau, existiam mais pessoas que apreciavam os mesmos livros que eles do que eles alguma vez imaginaram. Por mero acaso, calharam a tropeçar  num mercado inexplorado, o do bom gosto literário. Em parte, e ao longo de 13 anos,  foi o bom gosto literário do proprietário que foi chamando clientes à livraria.

Anson é quem faz a escolha dos livros a comercializar na livraria desde o primeiro dia da Pin-to Books. Devido ao seu anterior trabalho na Taiwan’s Eslite, 70 por cento dos livros comercializados pela livraria foram diretamente importados de Taiwan, fazendo da Pin-to a loja com a maior e mais rica selecção de publicações – maioritariamente focadas nas áreas das artes e humanidades – taiwanesas em Macau. Os livros foram dispostos de acordo com diferentes categorias, nomeadamente ciências humanas, literatura, lifestyle, artes performativas, artes visuais, construção e livros infantis. Ao longo dos anos, a livraria sempre reservou uma estante especial dedicada a livros publicados em Macau ou escritos por autores do território.

Anson Ng acredita que a livraria possuia características muito próprias que a tornam difícil de imitar. “Para além da compra e venda de livros, existem relações entre pessoas, livros, e pessoas e livros, que discretamente se observam na loja. Tais comunicações traduzem-se numa interconectividade que se estende por toda a loja”, explica o proprietário. “Temos seguido o nosso coração, e não o mercado, desde o começo, em relativamente àquilo que queremos fazer”.

Apesar de todo o sucesso alcançado com a sua marca e reputação, a Pin-to continua a deparar-se com testes cruciais do mercado. Anson brinca e avança que, sempre que conversa com donos de outras livrarias, em vez de perguntar quanto dinheiro arrecadam, pergunta “How can we survive?” (Como podemos sobreviver?)

Apesar das limitações, Anson nem se pode queixar. O bretorno monetário da loja foi sempre equilibrado: “Foi uma sorte que os custos que tivemos foram baixos, basicamente devido à razoável e estável renda cobrada pelo nosso último senhorio. Em Macau e em Hong Kong, a renda é o factor mais instável que pode influenciar o negócio de uma livraria”, explica.

Pin-To Bookshop

Fotografia: Eduardo Martins

Anson diz que, francamente, o seu salário é muito mais baixo do que o dos seus colegas e amigos de idade similar. Em Macau existe uma ideia generalizada de que é uma loucura gerir uma livraria: “Eu não estou louco, nem sou oriundo de uma família abastada. Se eu tivesse pensado melhor e feito cálculos, não teria começado este espaço. Honestamente, ninguém sentirá pena de si se começar um negócio de uma livraria e perder dinheiro. Portanto, o melhor é pensar bem no que se quer antes de entrar neste tipo de negócio. Se tiver a certeza daquilo que quer, não será influenciado pela opinião de terceiros”.

Anson estava ciente, desde o início, que não só seria difícil gerir uma livraria, como também o retorno monetário seria baixo. A razão que o fez continuar foi o facto de “administrar uma livraria é do meu interesse e é isso que faço bem. Quero trazer bons (arte e cultura) recursos de volta a Macau para ajudar ao desenvolvimento. É essa a principal razão que me fez regressar de Taiwan”.

 

A livraria e a sociedade

 

A Pin-to sempre tentou encorajar determinados valores e isso teve reflexo nas suas escolhas literárias. Por vezes, para lidar com os temas socialmente mais quentes, a loja dispõe os livros mais relevantes para os movimentos democráticos em Macau e em Hong Kong. Foi criticado muitas vezes por “não ser suficientemente positivo”.

Em relação a uma faceta mais crítica, Anson defende que o papel da livraria é ser uma plataforma e não uma autoridade que força os seus leitores a aceitar determinados valores.

No que respeita aos movimentos sociais, o proprietário da emblemática livraria sempre tentou manter alguma distância, no entanto sempre pensou “em como melhorar a sociedade”. Portanto, para lidar com momentos especiais, a Pin-to tentou dialogar com a sociedade através do livros ali vendidos: “ Esperávamos que a livraria pudesse disponibilizar, a alguns níveis, diferentes pensamentos para os cidadãos digerirem”.

Anson admite que a razão inicial para abrir a loja foi para criar uma plataforma para os seus livros seleccionados serem descobertos por determinados leitores, para que os mesmos pudessem ser, mais tarde, influenciados pelos livros a nível pessoal, ou mesmo promover algumas alterações na sua vida.

 

Pin-to 2.0

 

Com o fecho da antiga loja, Anson decidiu reabrir a Pin-to em Janeiro de 2017 na Rua de Coelho do Amaral, n.º 47, perto do Hospital Kiang Wu. O novo endereço permitirá que a loja fique situada ao nível da rua e as pessoas estão interessadas em perceber como irá interagir com o novo bairro, cheio de história e cultura local: “Estou entusiasmado com o novo começo”, garante Anson.

Com um sem fim de desejos para o Ano Novo, o empresário tenciona adicionar uma faceta ediorial ao projecto: “Espero conseguir focar-me na edição de livros que realmente quero. Penso em começar uma conta pública de  Wechat para a Pin-to pois notei que, na China continental, as vendas de livros no Wechat são mais elevadas do que em lojas físicas. Espero melhorar a minha escrita uma vez que tenho cada vez mais interesse em expressar-me através de palavras”.

Anson acredita que existem muitas possibilidades de gerir uma livraria de forma criativa e divertida: “Ainda assim”, conclui o empresário, “a minha primeira motivação enquanto dono de um espaço dedicado ao comércio de livros é geri-lo tal como os donos das lojas antigas. Gostamos de livros e de estar rodeados por eles, apreciamos uma leitura tranquila e, no entretanto, temos a possibilidade de travar amizade com pessoas que gostam de livro tanto quanto nós, de forma simples”.

 

 

 

 

 

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