Um sonho dentro do sonho

O primeiro grupo de ópera de câmara de Macau comemora o 400º aniversário da morte do argumentista Tang Xianzu com um espectáculo que integra o Festival Internacional de Música de Macau. A iniciativa é também uma forma de assinalar os 30 anos do FIMM.

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Wendi Song

Apoiado pelo Instituto Cultural, um grupo de profissionais da arte e da cultura criaram o primeira espectáculo de ópera de câmara cem por cento made in Macau. “O Sonho de uma Fragrância””assinala o 400º aniversário da morte do ilustre compositor chinês Tang Xianzu. A estreia do espectáculo decorre já amanhã e prefigura-se como um dos pontos altos do 30º Festival Internacional de Música de Macau. Os bilhetes estão esgotados, inclusive para as duas apresentações extra sugeridas pelo Instituto Cultural

O libretto da primeira ópera de câmara de Macau (uma ópera composta para ser interpretada por uma orquestra de câmara e não por uma orquestra completa) baseia-se nas experiências literárias de Tang Xianzu quando viajou para Macau em 1591. Tang escreveu quatro poemas sobre Macau aquando da sua visita, descrevendo uma rapariga portuguesa. Sete anos mais tarde, quando começou a escrever o célebre “O Pavilhão das Peónias”, mencionou, mais uma vez, Macau em algumas cenas.

As ideias principais do roteiro da ópera foram discutidas detalhadamente e foram depois transmitidas ao argumentista Lawrence Lei, que trabalhou com afinco na versão final.

O enredo que amanhã sobe ao palco começa com um sonho de Tang sobre uma rapariga portuguesa, Maria, que ele encontra e com quem desenvolve uma relação amorosa enquanto passeiam por Macau, sete anos antes de terminar de escrever “O Pavilhão das Peónias”.

“Tang tinha 41 anos e foi a primeira vez que conheceu uma rapariga portuguesa com uma atitude tão forte e corajosa, totalmente diferente das raparigas chinesas, restringidas pelos códigos éticos tradicionais. Essa éticas feudal e rituais que lhe eram associados, sublimados pelos ensinamentos confucianos que circulavam na altura, ensinavam às pessoas a esconder os seus sentimentos, o que para Tang significava um ataque de natureza espiritual”, explica Lei.

“Na nossa história, assumimos racionalmente que Tang não conheceu apenas a rapariga portuguesa mas, por outro lado, experienciou alguns choques culturais. A visão ocidental do amor pode tê-lo levado a criar a ideia de que Du Liniang (a heroína de “O Pavilhão das Peónias”) poderia casar-se sem a permissão dos seus pais e seguir o seu amor, algo que é muito raro nas óperas chinesas tradicionais”, acrescenta Un Sio San, o libretista da ópera de câmara.

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Para Tang, “O Pavilhão das Peónias” era um trabalho ousado e subversivo. Não só porque desafiou os padrões das óperas tradicionais daquele tempo, mas também a história no geral, com Du Liniang à procura do amor, um impulso que se contrapõe aos ideiais Neo-Confucianos que defendiam a repressão dos desejos e da criatividade individual.

“A nossa ópera tem ideias que se aproximam das de Tang”, continua Lawrence. “O tema principal deste trabalho foi o amor e todos os sonhos relevantes, especialmente os imbuídos em “O Pavilhão das Peónias”. A história da nossa ópera é sobre como Tang se inspirou para criar partes desta sua obra-prima através das suas experiências em Macau. Combinámos quatro elementos básicos – sonhos, “O Pavilhão das Peónias”, Macau e amor – para criar esta história, incluindo conteúdo ficcional e verdadeiro”.

A equipa criativa de “O Sonho de uma Fragrância” é também composta pelo compositor Liu Chenchen, director Tam Chi Chun, pelo consultor Tong Mui Siu, bem como por um grupo de virtuosos cantores. Todos de Macau.

Apesar de da equipa ter muita experiência, não foi uma tarefa fácil criar uma ópera de câmara utilizando arte ocidental para contar uma história do Oriente. Como contar uma história com a duração de 7 anos em apenas 60 minutos? Como transformar uma história num registo musical que possa ser cantado e musicado? Como compor uma ópera de câmara ocidental para contar uma história de amor chinesa expressando emoções ricas numa história simples? Estes foram apenas alguns dos desafios com que a equipa se deparou ao escrever uma obra do género pela primeira vez: “Esta criação não só nos ajudou a promover a ópera de câmara enquanto forma de arte. Permitiu também criar oportunidades para que muitas pessoas participassem e fizessem coisas novas. Ultrapassar tantos desafios beneficiou-nos a nós, tal como ao coro, aos figurinistas, aos cenógrafos e até mesmo à gestão do projecto”, comenta Un Sio San, que se juntou ao projecto em Junho passado. “É uma criação interessante e estou ansioso para ver como será quando a apresentarmos à audiência.”

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