Pecados que vêm de longe

Não são de agora as queixas contra o Canídromo. Há 50 anos já a Sociedade Internacional para Protecção dos Animais manifestava a sua preocupação pelo tratamento a que eram sujeitos os galgos de corrida em Macau.

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Ricardo Pinto

27 de Janeiro de 1965. Numa carta enviada à embaixada portuguesa no Reino Unido, Trevor H. Scott, administrador-chefe da Sociedade Internacional para a Protecção dos Animais, pedia esclarecimentos sobre a situação em que se encontravam os cães à guarda do Canídromo de Macau.

A carta fazia referência a uma notícia publicada dias antes no jornal australiano The Mirror sobre maus tratos infligidos aos animais no campo de corridas da então colónia portuguesa, dada à estampa com um título inequívoco quanto ao seu teor: “Crueldade mata cães em Macau”.

Noticiava o jornal que dos 450 galgos importados da Austrália dois anos antes, 100 estavam doentes e outros 50 tinham já sido “destruídos” pelo Canídromo, devido ao excesso de provas e ao generalizado recurso ao doping ­– por vezes, através de preparados de ópio que eram usados para cegar os animais. Segundo o The Mirror, casos tinham existido em que galgos se recusaram a correr ou em que sofreram mesmo colapsos antes ou durante as corridas, o que teria estado na origem de várias manifestações de protesto de um bom número de apostadores.

AUG 30 1967, 9-9-1967; Trevor H. Scott - London, chief administrator, International Society for,the

Na carta dirigida ao embaixador português em Londres, Scott pedia que, na eventual impossibilidade de um desmentido por serem as acusações fundamentadas, o diplomata fosse sensível “aos sentimentos que tais notícias despertam entre os amantes dos animais, tanto no seu próprio país como um pouco por todo o mundo”, fazendo chegar essas preocupações a quem de direito “na esperança de que as criaturas possam ser poupadas a uma grande dose de sofrimento que aquelas práticas certamente originam”.

Em meados de Março, depois de digerida pela lenta burocracia do Estado Novo, a carta do dirigente da Sociedade Internacional de Protecção dos Animais chegou ao conhecimento do Governador de Macau, António Lopes dos Santos, que mandou prontamente averiguar o assunto. A resposta, num relatório assinado pelo delegado do Governo junto do Canídromo, o intendente administrativo Alberto Eduardo da Silva, não tardou mais do que uns dias; e embora procurasse desmentir as acusações do jornal australiano, só o fazia parcialmente.

De facto, apesar de alegar que o número de corridas por semana e as distâncias percorridas em cada corrida eram inferiores aos de ‘qualquer organização similar da Austrália, de Inglaterra ou dos Estados Unidos”, rejeitando por isso a existência de uma sobrecarga de provas, não deixava de reconhecer que o número de animais era “insuficiente”. No entanto, acrescentava também que o Canídromo não se poupava a esforços para importar mais galgos.

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Por outro lado, admitia que “alguns” cães eram abatidos “por não satisfazerem o mínimo dos requisitos para as corridas dos galgos”, antes de garantir que “em todas as organizações do mundo” acontecia o mesmo. Elaborando sobre este ponto, o relatório afirmava: “No caso especial de Macau – completamente dependente da Austrália quanto à importação de galgos – não há possibilidade de se devolver à origem os cães que não servem para as corridas, devido às despesas enormes com o transporte dos mesmos para a Austrália”. Ou seja, os animais eram de facto “abatidos mas da maneira mais humana possível”, informava o documento.

O relatório reconhecia ainda que dezenas de galgos se encontravam doentes, mas colocava as estatísticas em “somente 56”, sensivelmente metade do número avançado pelo jornal australiano, ao mesmo tempo que assegurava que a média de 15 por cento de enfermidades podia ser considerada “excelente em relação a muitas outras organizações congéneres”.

Finalmente, também no capítulo do doping havia ambiguidade nas conclusões. O autor do documento dizia nunca lhe ter constado que algum galgo tivesse tido um colapso antes do início das corridas, ou que se recusasse a correr: “É pura fantasia do articulista”! Do mesmo modo, a alegada utilização de preparados de ópio para diminuir a capacidade de visão dos galgos nunca tinha aparecido “nem sequer como boato”, garantia.

Só que a existência de casos de doping, em si mesma, era indesmentível – e não era sequer novidade para o Governador de Macau, como se deduz do relatório: “É do conhecimento de V. Exa. que, de facto, alguns casos de cães drogados apareceram no início das corridas em 1963 e 1964. Todos os casos suspeitos têm sido entregues à Polícia Judiciária para averiguações”.

Num último comentário, o autor do relatório oferecia uma explicação pessoal para o que podia estar por detrás da publicação na imprensa australiana de uma notícia tão negativa para a imagem das corridas de cães em Macau: “O articulista procurou, não sabemos com que intuito, difamar a organização. Será porque todos os treinadores australianos saíram e foram substituídos por ingleses”?

 

Anos 30, o mesmo estigma

 

As corridas de cães exploradas pela Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd. – a mesma empresa que ainda hoje desenvolve esta actividade na RAEM –, tinham de facto tido início em 1963, com o apoio da indústria australiana do sector. Mas já antes se tinham realizado corridas de galgos precisamente no mesmo local, junto à ilha Verde.

Um Canídromo com instalações mais precárias, mas ainda assim com capacidade para 3 mil espectadores, começou por ser ali construído em 1932 e foi inaugurado a 26 de Dezembro desse ano, sendo descrito pela imprensa da época como “um grande melhoramento para a cidade”. Escrevia o jornal Voz de Macau, na edição do dia 29, que os seus canis passavam por ser “os mais perfeitos de todos os Campos de Corridas de Cães no Oriente”, onde os galgos eram tratados “com todos os preceitos da especialidade por pessoal adestrado e competente”.

Por sugestão do comerciante macaense Jack Maria Braga, a concessão para operar as corridas tinha começado por ser atribuída ao empresário do ramo W.L. Gerrard, um norte-americano estabelecido em Xangai, onde as corridas de galgos tinham sido introduzidas em 1928. Mas ainda antes do Canídromo ser inaugurado, a concessão foi adquirida por trespasse por um grupo de investidores de Macau, liderados pelo empresário Fan Che Pang. Tratava-se, segundo a imprensa local, de um grupo de entusiastas pelo futuro e prosperidade de Macau”, que tinham tido o mérito de colocar a então colónia portuguesa “num plano de superioridade, neste ponto, a todas as outras colónias e cidades portuguesas”.

Uma única objecção se levantava aquando do início das corridas: a falta de capacidade hoteleira para receber os turistas que não deixariam de ser atraídos pelo novo empreendimento, queixa apresentada pelo próprio encarregado do Governo, Pereira de Magalhães, na cerimónia de inauguração. O Hotel Riviera tinha um número de quartos reduzido e o Bela Vista estava fechado há já uns anos, inoperacional a menos que fossem realizadas grandes reparações; mas tinha sido posto em praça pública pelo Governo e não tinha havido concorrentes. Aparentemente, para a imprensa portuguesa da época o Hotel Central e todos os outros estabelecimentos hoteleiros então existentes eram “demasiado chineses” para poderem receber os turistas interessados nas corridas de galgos.

Mas bem depressa a falta de quartos deixou de estar entre as principais preocupações do clube que explorava as corridas. Pouco mais de um mês depois da abertura do Canídromo, já o jornal Echo Macaense denunciava irregularidades na classificação das provas, as quais conduziriam à demissão em massa dos comissários responsáveis pela gestão desportiva do projecto.

Sobre o tratamento a que eram sujeitos os galgos, o mesmo jornal fazia um comentário elucidativo: “Na presente quadra em que o calor é intenso e extenuante, achamos violento que, simplesmente no interesse da empresa, se obriguem os galgos a correr três noites seguidas, sendo absolutamente condenável que numa mesma noite se façam duas corridas com os mesmos cães, como sucedeu na semana passada, em que se repetiu a referida corrida que foi anulada sem razão para tal, porque o dinheiro das apostas tinha já sido devolvido. Se houvesse nesta Colónia uma sociedade protectora dos animais!…”

 

Canídromo citado em relatório de HK sobre crime organizado

 

Uma persistente organização deficiente das corridas, resultados financeiros muito abaixo das expectativas, um tufão com efeitos particularmente devastadores e o deflagrar da Guerra Sino-Japonesa acabaram por levar ao encerramento do Canídromo em 1938, ao fim de escassos seis anos de operação.

Quando a pista foi reaberta mais de 20 anos depois, a 28 de Setembro de 1963, a entidade oficial presente à cerimónia tinha novamente críticas a fazer à empresa concessionária. Desta vez, o encarregado do Governo, tenente-coronel Mota Cerveira, lamentava que o programa estivesse redigido apenas em inglês e chinês, o mesmo acontecendo com todos ou quase todos os letreiros espalhados pelas instalações. “De português pouco aparece bem visível, a não ser a inscrição, em letras garrafais, ‘Saída’”, queixava-se o representante do Governador Lopes dos Santos, ausente em Portugal.

A preocupação revelar-se-ia mais uma vez insignificante face aos problemas que se seguiriam.

Depois das acusações de maus tratos e uso de drogas lançadas pelo jornal The Mirror, o governo de Macau convidou o presidente da Associação de Criadores, Proprietários e Treinadores de Galgos da Nova Gales do Sul, Norm Smith, a visitar o território para ajudar a empresa concessionária do Canídromo a melhorar a operação. Dois anos antes, o mesmo dirigente associativo tinha trazido da Austrália para Macau 600 galgos, rações, um totalizador de apostas eléctrico e outro equipamento, num valor estimado de 135 mil libras esterlinas.

Finda a visita, Norm Smith só tinha palavras de elogio para a actividade da Macau (Yat Yuen) Canidrome Co., dizendo-se espantado com os progressos entretanto alcançados. As corridas tinham agora uma média de 8 mil a 10 mil espectadores por sessão e a concessionária, que começara a operação com um investimento de 350 mil libras, recuperara o dinheiro em apenas 10 meses, estando agora os seus activos extremamente valorizados.

Mas o raro momento de promoção de uma imagem positiva do Canídromo foi obscurecido, ainda em 1965, pela publicação em Hong Kong de um relatório sobre crime organizado.

No documento, elaborado por uma comissão oficial onde tinham assento influentes personalidades da então colónia britânica, abordava-se entre outros temas a questão das apostas ilegais, concentrando-se o estudo no efeito que as corridas de cães em Macau tinham no crime organizado em Hong Kong.

“Informação faz-nos acreditar que existem vários pequenos sindicatos”, explicava o relatório. “Os organizadores ficam com uma grande parte dos lucros líquidos, enquanto canalizam para pagamento de subornos quase 10 por cento das receitas brutas. Os responsáveis têm agentes ou intermediários em muitas companhias privadas e mesmo serviços públicos. Como muito disto é feito através dos correios, alguns funcionários dos correios terão seguramente de ser subornados”.

A publicação do relatório teve repercussões em Macau, levando a Gazeta Macaense a apelar ao Governo para que pelo menos proibisse aos trabalhadores da Administração Pública o acesso ao Canídromo: “Uma vez que os funcionários públicos encontram, e muito bem, as portas dos casinos vedadas, não vemos razão para que eles, duas vezes por semana, encontrem tanta liberdade nas corridas de galgos, havendo muitos que atiram nas apostas quantias que nos deixam os cabelos em pé. (…) Hoje, infelizmente, é considerado ‘chic’ um funcionário exibir bilhetes de apostas no valor de centenas de patacas, vangloriando-se de ter dado um ‘lindo tiro’, esquecendo o mesmo que os seus modestos vencimentos não poderiam, de maneira alguma, permitir que ele jogasse com tanto furor. A desculpa é sempre a mesma, tinha ganho muito dinheiro no dia anterior ou na última semana. Mas a realidade, aquela verdade nua e crua, é que apesar de haver por aí funcionários que ganharam tanto dinheiro, não vemos senão dívidas na Caixa Económica, quer oficiais quer particulares, empréstimos a juros fabulosos com agiotas e muitas famílias a passarem miséria porque todo o dinheiro é atirado para dentro do Canídromo”.

 

Suspeita de ligações das apostas ilegais ao atentado contra Ho Yin

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No dia 7 de Maio do ano seguinte, 1966, o Canídromo voltava a ser notícia pelas piores razões: uma granada de mão explodiu no parque de estacionamento da concessionária, ao ser arremessada contra o carro de Ho Yin – pai do primeiro Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho –, à data presidente da Associação Comercial de Macau e líder incontestado da comunidade chinesa do território. Ho Yin, a sua esposa, três outras senhoras que o acompanhavam, um turista de Hong Kong e um funcionário do Canídromo ficaram apenas ligeiramente feridos pelos estilhaços do engenho. Mais tarde, a polícia viria a concluir que o atentado tinha tido por objectivo assassinar Ho Yin, só não tendo sido mais graves os ferimentos devido ao deficiente funcionamento da granada defensiva de fabrico americano.

A análise de telegramas trocados entre os governos de Macau e de Lisboa nos dias que se seguiram ao atentado permite-nos hoje concluir que as investigações policiais foram conduzidas em torno de duas teses principais.

Uma, lembrava que Ho Yin tinha sido um dos dirigentes comunistas locais que mais tinha pressionado o Governador Lopes dos Santos para que encerrasse a representação de Taiwan em Macau, apesar de à data o governo português manter relações diplomáticas com o regime nacionalista da Formosa, e não com Pequim. Além disso, fora instrumental na deserção para a China Continental, em 1964, do General nacionalista Cheang Iat Meng, fuga ocorrida justamente a partir de Macau. O militar de Taiwan era o chefe dos serviços secretos nacionalistas no território e ao desertar terá levado consigo material de guerra, para além de ter denunciado às autoridades comunistas as actividades subversivas do Kuomintang na região. Conclusão: o atentado só podia ter sido planeado por agentes da Formosa, tese que era corroborada pelo próprio Ho Yin.

Mas a outra tese destacava o facto de Ho Yin ser então também o “sócio mais influente da concessionária das corridas de galgos”, numa altura em que investidores de Xangai detentores de grande parte das quotas do Canídromo e, simultaneamente, “donos de grandes grupos de bookies em Hongkong”, teriam por meios pacíficos tentado afastá-lo da posição de mando na empresa. “Falhados os meios pacíficos”, um relatório endereçado pela polícia de Macau ao director da PIDE (a polícia política portuguesa) em Lisboa sugeria que “o referido grupo teria ordenado a supressão pura e simples de Ho Yin, único elemento que impede os xangainenses de dominarem os destinos do Canídromo quer no campo directivo quer no campo financeiro”.

O mesmo relatório apresentava, ponto por ponto, as premissas da tese sob investigação:

“4.1.2 Existem em Hongkong cerca de 10 grandes grupos de bookies – apostas clandestinas – em que um dos principais é o Banco Hang Seng­ de que foi director geral até há pouco tempo Ho Tim, irmão de Ho Yin.

4.1.3 Neste banco o movimento de bookies nos dias de corridas de galgos é da ordem dos 8 milhões de patacas, dominando assim todos os outros grupos.

4.1.4 Parece haver ou ter havido entendimento entre o banco referido em 4.1.2 e o Canídromo na drogagem de cães.

4.1.5 Verificando-se a hipótese anterior Ho Yin, indirectamente por intermédio do seu irmão ou de outro indivíduo da sua confiança, apostaria fortemente nos outros grupos, enfraquecendo-os até à bancarrota.

4.1.6 O grupo (de xangainenses) referido em 4.1 não faz parte do Banco Hang Seng, mas sim de outros grupos de bookies e tem conhecimento de que Ho Yin indirectamente aposta nesses grupos”.

A esta tese chegou a ser conferida grande credibilidade pelo Governador Lopes dos Santos, como se depreende de uma informação que fez seguir para Lisboa: “Há toda a probabilidade de em breve se concretizar a pista que referi relativa às apostas clandestinas de galgos. Elementos da nossa Polícia estão na vizinha Hong-Kong trabalhando em cooperação com a Polícia daquela cidade, a qual está também interessada em desmascarar os criminosos visto a sede das apostas clandestinas ser na mesma cidade. Parece tratar-se dum denunciante, o qual receberá o prémio de 50,000 patacas que a nossa Polícia oferece ao denunciante com a minha autorização, dada a importância na vida e no futuro local que este atentado podia ter”.

No entanto, poucos dias depois, em telegrama datado de 24 de Maio de 1966, Lopes dos Santos informava o ministro do Ultramar, Joaquim Silva Cunha, que “não se confirmaram infelizmente as esperanças depositadas pela PSP local” na pista das apostas clandestinas nas corridas de galgos.

As investigações viriam ainda a incidir na hipótese de Ho Yin ter sido afinal vítima de extorsão por parte de elementos ligados ao crime organizado, recusando-se a pagar e sendo por isso um alvo a abater, e até mesmo numa outra pista relacionada com um alegado caso de “adultério na classe rica chinesa”, de acordo com a polícia de Macau.

Mas, como receavam as autoridades do território, o inquérito policial rodeava-se de enormes dificuldades, dado que os mentores do atentado não deveriam ser originários de Macau e os executantes, embora com ligações aqui, ter-se-ão apressado a fugir. Em função disso, as investigações – ainda mais dificultadas poucos meses depois com o impacto em Macau da Revolução Cultural – jamais produziriam resultados conclusivos.

Porém, apesar de nada ter ficado provado, o Canídromo não mais se livrou das suspeitas que desde os seus primórdios o acompanham: infiltração do crime organizado, viciação de resultados, maus tratos sobre os animais. E muito provavelmente assim será até um dia o governo de Macau o mandar encerrar.

 

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