Hong Kong ponderou a construção de um Canídromo

A ideia era levar as corridas de cães para os Novos Territórios, mas não obteve o apoio nem do governo nem da população. O projecto foi chumbado em 1967, depois da abertura de casinos em Hong Kong ter também sido rejeitada no ano anterior.

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Ricardo Pinto

A iniciativa partiu de um órgão de consulta da Administração dos Novos Territórios. Dizia-se existir um grupo de investidores interessados enconstruir um Canídromo em Hong Kong e que, se os Novos Territórios não avançassem, outras regiões o fariam. Tratava-se, pois, de fazer regressar a prosperidade à zona mais economicamente mais desfavorecida da então colónia britânica, através da atracção de turistas e do fomento do comércio. Os proponentes comprometiam-se, no entanto, a retirar a proposta caso alguém se opusesse.

A favor da ideia manifestou-se, entre outros, Arnaldo de Oliveira Sales, vogal do Conselho Urbano e destacado membro da comunidade portuguesa de Hong Kong. Lembrando que na colónia já existiam corridas de cavalos, onde se apostavam fortunas, afirmou à imprensa ser “pura hipocrisia sugerir que as pessoas aqui não podem já jogar sempre que lhes apeteça”.

Mas a imprensa, em particular a chinesa, foi praticamente unânime na rejeição da proposta. Sucessivos editoriais puseram em dúvida os benefícios económicos do Canídromo e, em contrapartida, chamaram a atenção para o facto de um grupo de trabalho nomeado pelo governo já se ter pronunciado antes contra a existência de outras formas de jogo para além das promovidas pelo Jockey Clube (as corridas de cavalos em Happy Valley e as lotarias).

Sublinhando as razões morais da reprovação, o jornal New Life Evening Post escrevia que se as corridas de cães fossem autorizadas nos Novos Territórios “seria razoável também permitir estabelecimentos como bordéis, salões de dança obscenos ou opiários, bem como as operações de ‘tse fa”, uma lotaria ilegal.

A 9 de Maio, o Conselho de Estudos das associações de moradores dos Novos territórios considerou, por larga maioria, a proposta de realização de corridas de cães “prejudicial, absurda e injustificada”, e exigiu a sua retirada, o que veio a acontecer antes do final do mês, não mais se voltando a falar da construção de um Canídromo em Hong Kong.

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Empresários de Las Vegas interessados em Hong Kong

Em relação aos casinos, a rejeição acontecera um ano antes, em 1966, na sequência de um amplo debate público sobre o tema.

A questão conheceu especial relevância quando, em Março de 1965, um representante da Webb Corporation, com investimentos em Las Vegas, visitou Hong Kong e apresentou um projecto para a abertura de um casino em Kowloon, junto à estação de caminhos-de-ferro.

De imediato se especulou que os investidores de Las Vegas estavam em Hong Kong a convite da família de Fu Tak Iam, que em 1961 perdera o monopólio do jogo em Macau para um grupo de empresários liderado por Stanley Ho. Atrair os americanos a Hong Kong seria uma forma de desestabilizar a operação da nova concessionária em Macau, a STDM, e tentar um regresso a uma posição de poder no sector .

Mas havia também quem defendesse que a presença da Webb Corporation em Hong Kong teria sido arranjada pelo próprio Stanley Ho, para colocar pressão sobre o governo português na discussão dos planos e do ritmo de investimento no sector do jogo em Macau. Afinal, “um dos seus argumentos para não andarem mais rapidamente com os seus investimentos em Macau é o receio de ser autorizado o jogo em Hongkong”, sublinhava um relatório elaborado para o ministro português do Ultramar, Silva Cunha.

O mesmo relatório, assinado pelo inspector João Semedo e datado de 18 de Maio de 1965, punha em dúvida que a abertura de casinos viesse mesmo a ser autorizada em Hong Kong: “É necessário modificar a legislação e pedir o consentimento e o apoio de Londres, e como se sabe os ingleses não são dados a modificações desta natureza. Por outro lado há um chamado ‘sector moralista’ nos órgãos legiaslativos de Hongkong que se tem oposto a todas as tentativas de jogo. E sobretudo há os accionistas do Jockey Club que exploram o alto negócio das corridas de cavalos com a sua lotaria ‘cash sweep’, e a quem não convém concorrência seja de quem for”.

A previsão revelou-se acertada, mas a rejeição partiu da própria população de Hong Kong. Em Agosto de 1966, a pedido da publicação Asian Weekend, a Gallup levou a cabo uma sondagem à opinião pública que teve efeitos desastrosos para os apoiantes do jogo: 69 por cento dos consultados mostraram-se contra a abertura de um casino; 23 por cento responderam que não sabiam; 3 por cento não responderam; e só 5 por cento se disseram favoráveis à legalização dos casinos.

Com resultados tão claros, a Associação de Turismo de Hong Kong – o mais poderoso lóbi a favor dos casinos – retirou o seu apoio à ideia, mas não sem que antes o seu presidente, Major H.F. Stanley, mostrasse estranheza por, em face de tão expressiva votação contra o jogo, haver tanta gente a deslocar-se a Macau para jogar durante os fins-de-semana.

Tivessem sido outros os resultados da sondagem, muito provavelmente teria sido também bem diferente a história recente de Hong Kong – e mais ainda a de Macau, bem entendido.

 

Ricardo Pinto

 

 

 

 

 

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