“Visita relâmpago”, sem espaço para a auscultação da comunidade

No dia em que António Costa cumpre agenda apertada em Macau, alguns dos que  tomarão contacto com o primeiro-ministro português lamentam a brevidade da visita e o pouco tempo concedido à comunidade portuguesa. O chefe do Executivo português visita o Consulado, a Escola Portuguesa, o Instituto Politécnico e vai marcar presença num Fórum de fomento empresarial.

PM, António Costa visita a República Popular da China

Sílvia Gonçalves

O primeiro-ministro de Portugal aterrou ontem em Macau, para uma visita que inclui a participação, esta manhã, na cerimónia de abertura da 5ª Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Excepção feita à participação, ao início da noite de ontem, no jantar de boas-vindas concedido pelo Fórum Macau, a agenda de António Costa no território centra-se por completo no dia de hoje, com o primeiro-ministro português a visitar o Consulado-Geral de Portugal, a Escola Portuguesa de Macau, o Instituto Politécnico de Macau e o Centro de Ciência e Tecnologia. O dia e a visita oficial de António Costa terminam com uma recepção, ao cair da noite, na residência oficial do cônsul-geral de Portugal. Entre os que hoje terão contacto com o chefe de Governo português, há quem lamente o tempo curto atribuído à estadia no território, que não chega, dizem, para auscultar as preocupações da comunidade portuguesa.

Às 15 horas de ontem, já José Pereira Coutinho e Rita Santos aguardavam na pista o avião em que viajava a comitiva do primeiro-ministro português. Conta o deputado que António Costa pisou o chão de Macau às 16 horas, e que foi mesmo ali, no aeroporto, que enquanto conselheiros das comunidades portuguesas, transmitiram ao governante a evolução registada no território na última década: “Eu e a Rita Santos, como conselheiros, recebemo-lo à porta do avião, e estivemos numa conversa cerca de meia-hora, no aeroporto. Transmitimos-lhe o desenvolvimento que Macau tem tido nos últimos 10 anos. O senhor primeiro-ministro esteve cá em 2006, na altura como presidente da Câmara de Lisboa”, recorda Coutinho.

António Costa transmitiu ao Conselheiro das Comunidades Portuguesas a intenção de se encontrar com o secretário para os Transportes e Obras Públicas, que conhece do tempo em que Raimundo do Rosário cumpriu funções em Lisboa: “Dissemos que o Governo da RAEM tem um novo plano quinquenal, e o senhor primeiro-ministro referiu o nome do secretário Raimundo do Rosário, que ele conhece muito bem. Disse que espera encontrar-se com ele cá”.

Pereira Coutinho deu ainda conta do que será transmitido hoje pelos conselheiros num encontro que terá lugar na residência oficial do cônsul-geral de Portugal antes da recepção à comunidade em que António Costa vai marcar presença: “Vamos dizer que a comunidade portuguesa está bem. Que Portugal pode apoiar-se mais nos recursos humanos de Macau, principalmente os macaenses e os portugueses, que têm muita experiência de Macau e que podem servir de ponte de ligação entre a China e os países de língua portuguesa, através de Portugal, como plataforma para a Europa”.

A conversa não se deve, no entanto, ficar por aí. Os conselheiros pretendem ainda assegurar-se que os “assuntos que mais preocupam os aposentados de Macau, através da Caixa Geral de Aposentações, têm sido recebidos da melhor forma. Nomeadamente as pensões de aposentação”. Coutinho assume desde logo: “Gostaríamos que, para o próximo ano, na medida do possível, as pensões de aposentação pudessem ser aumentadas”.

 

“NA COMUNIDADE PORTUGUESA NÃO ESPERAMOS MUITO DAS ALTAS FIGURAS”

“Em termos de comunidade e da nossa vivência aqui, penso que esta visita é relâmpago, não é uma visita virada nesse sentido, é uma visita com objectivos muito marcados. Acho que é muito importante a presença do primeiro-ministro neste fórum”, defende a presidente da Casa de Portugal.

Entende Amélia António que Portugal não teve, em edições anteriores, presença de fôlego no Fórum Macau: “Eu acho que durante alguns anos Portugal desleixou a sua presença no fórum. Foi uma coisa para a qual eu na altura chamei a atenção, critiquei. A partir de um determinado momento, houve uma reviravolta nessa maneira de olhar para as coisas e portanto só tenho que saudar que essa volta se tenha dado. Penso que a vinda do primeiro-ministro é de saudar, nessa perspectiva, porque nós devemos estar no fórum ao mais alto nível, como estão os outros países”.

A dirigente salienta, contudo, o facto da visita não estar direccionada para a comunidade portuguesa: “A visita é muito política e muito económica, porque o primeiro-ministro foi a Pequim, foi a Xangai, vem aqui, volta à China. Portanto isto é muito focado para esse objectivo. Não penso que esta visita se possa olhar como uma visita direccionada para a comunidade de Macau, só enquanto portugueses, e no interesse geral do país”. Ainda assim, entende a advogada – que prefere não revelar que preocupações gostaria de transmitir a António Costa –  que “há sempre alguma coisa que pode acrescentar ao conhecimento do que se passa em Macau e na comunidade portuguesa. Há sempre alguns dados que podem ajudar a que se tenha um outro olhar que tem faltado”.

Também Miguel de Senna Fernandes, enquanto presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), que participa na gestão da Escola Portuguesa de Macau (EPM), tomará hoje contacto com António Costa, na deslocação do chefe de Governo à instituição de ensino. As expectativas que nutre prendem-se, sobretudo, com as estratégias de promoção e divulgação da língua portuguesa: “Espero que ele se inteire da situação da comunidade portuguesa em Macau. Da importância que a comunidade aqui tem pela estratégia de divulgação da língua portuguesa. Da manutenção dessa cultura ímpar que é a da comunidade portuguesa em Macau. Espero que ele se inteire, que esta visita não se limite apenas a uma visita para cortesia”, assume o também presidente da Associação dos Macaenses.

Senna Fernandes lamenta o tempo curto da passagem de Costa por Macau, que diz não permitir um contacto efectivo com as preocupações que perpassam a comunidade: “Não há tempo porque a própria agenda já não vai permitir. A agenda não permite e essa agenda obviamente que é feita em Lisboa, e não permite isso. Mas nós, na comunidade portuguesa de Macau, já estamos habituados a isso, não esperamos muito das altas figuras. Não é uma crítica, é uma constatação de uma realidade”.

Tentará, ainda assim, o advogado transmitir algo ao Primeiro-Ministro? “A questão não é eu ter ou não uma oportunidade de falar com ele. Quem faz a agenda deve também pensar nisto, em dar oportunidade às associações locais de falarem com os dirigentes”. Ainda assim, se lhe for permitido o diálogo, Senna Fernandes transmitirá a Costa o seguinte: “A Escola Portuguesa de Macau é uma escola com currículo nacional, mas tem que ser também centrada com a realidade de Macau, não pode sair da realidade de Macau. Há muita coisa que nós podemos pensar, a instituição do cantonense, por exemplo. O cantonense ajuda as pessoas a integrarem-se na realidade de Macau. A Escola Portuguesa tem que continuar com uma língua de futuro, o mandarim, mas não pode menosprezar a língua de uso corrente e diário, que é o cantonense”, defende o dirigente.

 

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