No território fragmentado de Conceição Júnior, desvenda-se uma infinidade de trajectos

 

A 20 de Outubro, às 18h30, é inaugurada no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, a exposição de fotografia “Territórios”, de António Conceição Júnior. A mostra é acompanhada do lançamento de um álbum: “um pequeno luxo para pensar retrospectivamente”, diz o artista.

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Sílvia Gonçalves

A designação “Territórios” estende ao leitor da imagem a ilusão de uma dimensão palpável, percepcionada, orgânica. Pontuada, talvez, por elementos captados num qualquer estrato da natureza, real ou idealizado. Das ramificações, curvas e nervuras ressalta uma densidade de linhas e matéria que ocultam mais do que intentam desvendar. Do confronto com apenas duas das imagens da série fotográfica que António Conceição Júnior expõe a partir deste mês em Lisboa, sobra a inquietude que resulta do embate com uma qualquer cartografia fragmentada, indefinida, imaginada.

“Territórios”. Colou-lhe o nome o autor “pela configuração do conteúdo, simples alusão topológica”. E a alusão estende-se à tentativa de compreensão de um corpo artístico que parece dispensar o vínculo narrativo. “A referência à analogia topológica que enunciei pode ser um princípio para a compreensão do título. Mas, ao inverso de Freud, direi que nem sempre um charuto é um charuto, a filosofia não tem de se casar necessariamente com as fotos, ainda que esta ajude a clarificar e só por isso há uma associação”, diz o artista que opta por se apartar de uma qualquer “interpretação verbal” do trabalho apresentado, que reúne “cerca de 25 a 30 fotografias”. A mostra materializa-se “em cooperação com o Instituto Internacional de Macau”.

“É que, na obra de António Conceição Júnior, a fotografia surge como um espaço de problematização do próprio acto artístico, do seu conteúdo técnico, metafísico e estético. Imagens produzidas por um olhar descentrado do quotidiano e avesso ao evento, propõem-se como índices, não como metáforas, de uma reflexão em forma de percurso por fímbrias do espaço, do tempo, do humano e do natural. Ali se inscreverão uma série interminável de trajectos, de possibilidades, diria mesmo de atentados ao senso comum e a uma percepção plana do real”, escreve Carlos Morais José, na introdução ao álbum fotográfico que acompanha a exposição.

Na leitura do jornalista e escritor “encontramo-nos aqui numa estranha fronteira entre percepção e imaginário, no sentido em que se tratam de imagens que, imediatamente, partindo de um distinto enquadramento do olhar, impelem a um percurso metonímico pela memória”. Lança-se o leitor da construção plástica que se lhe apresenta numa demanda de avanços e múltiplos recuos, na qual dificilmente se vislumbram articulações e respostas: “E há então esses abismos de solicitações, encadeamentos, ramificações, rizomas, nervuras, estranhas baías, fragmentos de velhos mapas, continentes ignorados, pelos quais deambulamos na expectativa de uma resposta interna, do tal milagre – Borges assegura – que não se produzirá, mas onde o jogo de aproximação/distanciamento constitui a condição do sublime e da produção de um acto estético”, escreve ainda Morais José.

Conceição Júnior assume a dificuldade em se alongar sobre o trabalho produzido “porque, entre outras razões, uma interpretação verbal não compete ao autor”. Por regra, à obra plástica apresentada é associado um volume que a enquadra e perpetua: “Acompanho normalmente de um álbum as minhas exposições fotográficas e esta não fugiu à regra. Um pequeno luxo para pensar retrospectivamente”. E sobre que outras construções paira por estes dias? “Neste momento, ando a escrever. Na pintura, ando atrasado, mas ainda me resta uma ligeira esperança de a retomar, e o mesmo se passa com a fotografia”, assume o designer e artista.

 

 

 

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