Livros: Acervo em língua portuguesa continua a crescer

O espólio do Instituto Cultural no que diz respeito a livros em português aumentou em cerca de dez mil exemplares desde a transferência de administração entre Lisboa e Pequim. As autoridades do território possuem um acervo de cerca de 160 mil livros em línguas que não a língua chinesa; 85 mil são em português.

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Desde que Macau regressou à soberania chinesa, a 20 de Dezembro de 1999, as autoridades do território adquiriram cerca de dez mil obras em língua portuguesa, disse à agência Lusa a chefe da Divisão de Recursos Bibliográficos do Instituto Cultural, Fanny Vong.

Apesar de possuírem o maior acervo de livros em língua portuguesa do continente asiático, o Governo não sabe o que fazer com eles: na semana passada Ophelia Tang, chefe do Departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas, reconheceu que boa parte dos livros em português estão armazenados num edifício industrial por falta de espaço. A situação arrasta-se desde os tempos da administração portuguesa e que as autoridades querem resolver o problema com a construção, na zona da Avenida da Praia Grande, de uma nova biblioteca central: “Macau é o local onde existem mais livros em língua portuguesa na Ásia. Chegámos a esta conclusão a partir da nossa colaboração com outras bibliotecas da região”, disse na altura Ophelia Tang. “Estes livros estão em zonas diferentes porque temos falta de espaço. Não são apenas em língua portuguesa, também são livros em língua chinesa. Isto deve-se à falta de espaço das bibliotecas”, referiu.

Entre os cerca de 160 mil livros em línguas estrangeiras que integram o acervo bibliográfico do Instituto Cultural, 85 mil livros são em língua portuguesa, o que representa um aumento de cerca de dez mil obras desde o fim da administração portuguesa.

Estes 85 mil livros estão divididos pelas várias bibliotecas e também estão armazenados num edifício industrial, onde são realizados vários trabalhos, incluindo catalogação, desinfeção e microfilmagem.

Do acervo total em português, cerca de cinco mil estão na biblioteca do antigo Leal Senado e incluem obras raras, algumas dos quais do século XVII: “Nem todos os livros vêm de Portugal, porque cá [em Macau] também publicamos livros em língua portuguesa. E às vezes também fazemos trocas [com bibliotecas internacionais]”, afirmou a investigadora Stella Lee, ao destacar que algumas coleções antigas foram doadas por particulares, nomeadamente de famílias macaenses.

Por vezes é difícil traçar a origem dos livros, acrescentou a também técnica da divisão de desenvolvimento de recursos bibliográficos: “Só sabemos através do carimbo. Quando vimos o carimbo do Liceu de Macau sabemos que pertenceu ao liceu ou que pertenceu à família Nolasco quando [o livro tem este carimbo]”.

Na biblioteca do antigo Leal Senado encontram-se, por exemplo, o livro “Primazia monárquica do pay commun dos monges N.P.S. Bento”, de Bernardo de Braga, de 1662 e impresso em França pela família Berthelin, uma obra que Stella Lee destaca entre outras ainda mais antigas, em latim, espanhol e inglês:  “Este deve ser o frei Bernardo de Braga que foi para o Brasil fazer a propaganda da religião (católica)”, afirmou a investigadora.

Já sem a capa original, e com o carimbo da biblioteca do Liceu de Macau, este livro do século XVII apresenta um “bom estado” de conservação e as suas 117 páginas não estão tão amarelecidas graças à qualidade do papel, avaliou Francisco Chan, um dos dois funcionários que se dedica a tempo inteiro à conservação e restauro dos livros, numa equipa também composta por voluntários:“Naquele período do século XVII, como a maior parte do papel era produzido de forma mais tradicional, tem melhor qualidade e não é tão frágil”, observou.

À agência Lusa, Stella Lee acrescentou que é dada prioridade à microfilmagem dos jornais em língua portuguesa, porque estes “representam a história de Macau”. Segundo Francisco Chan, um quarto dos cinco mil livros em língua portuguesa que integram a biblioteca do antigo Leal Senado precisam de ser restaurados: “Como os funcionários não são suficientes para tratar este tipo de livros, o que podemos fazer é melhorar o ambiente para obter uma melhor qualidade de armazenamento, e depois passar ao restauro dos livros, um a um”, afirmou.

Mas mais do que directamente relacionada com a idade dos livros, a necessidade de restauro advém da matéria-prima utilizada, o que faz com que, segundo estes especialistas, alguns livros do século XVII estejam em melhores condições do que outros do século XIX ou XX:  “Só os ricos é que conseguiam imprimir livros. Ao contrário da produção em massa de hoje em dia, antigamente o papel era produzido com métodos tradicionais e não se estragava tão facilmente”, complementa Stella Lee.

O objectivo das autoridades de Macau é juntarem o acervo de livros em português na posse da região na nova biblioteca central de Macau, que deverá ocupar dois edifícios, onde funcionavam o antigo tribunal e a Polícia Judiciária (PJ), no centro da cidade, com um total de 11 pisos, uma área de 33.000 metros quadrados e uma altura máxima de 53 metros, como foi anunciado pelo Governo na semana passada.

O projecto – recorde-se – começou a ser discutido há cerca de dez anos, foi suspenso depois de uma investigação do Comissariado Contra a Corrupção (CCAC), tendo sido mais tarde assumido pelo Instituto Cultural, em conjunto com as Obras Públicas.

Este Verão, o empreendimento esteve na origem de uma nova polémica com a divulgação do custo estimado da obra  – 900 milhões de patacas – um orçamento que o presidente do Instituto Cultural disse poder vir a baixar para 700 milhões de patacas, consoante a inflação.

 

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