Alberto Alecrim contou a última história na segunda-feira

Contava histórias no território como ninguém e interrompia os relatos do seu Sporting com dificuldades técnicas inventadas quando o resultado era desfavorável ao seu querido clube. Alberto Alecrim, o decano dos jornalistas do território, morreu na segunda-feira aos 84 anos.

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João Santos Filipe

 

Alberto Magalhães Alecrim morreu na passada segunda-feira de manhã, aos 84 anos, devido a doença prolongada. Na memória de quem conviveu de perto com o antigo radialista, fica a memória de uma pessoa bem-disposta, de um excelente contador de histórias e adepto ferrenho do Sporting.

‘O Alecrim’, como era conhecido, nasceu em Março de 1932, no Porto. Anos mais tarde mudou-se para Lisboa, tendo depois vivido durante dois períodos distintos em Goa, onde estava quando o território foi invadido pelas tropas da União Indiana. Finalmente em 1965 muda-se de Lisboa para Macau, terra onde viveu mais de 50 anos.

No território ocupou vários cargos relacionados com o jornalismo e a comunicação, nomeadamente o cargo de director da Rádio Macau, membro do Gabinete de Comunicação Social, plataforma de comunicação do Governo, e teve colaborações com as publicações O Clarim e Revista Macau. No entanto, é a sua boa-disposição que fica na memória de todos os que com ele conviveram.

“Conheci-o e tornei-me amigo dele quando fiquei a saber que havia um grupo de pessoas que se reuniam no antigo riquexó para jogar king. Um dia apareci lá, e ele era uma das presenças habituais nessas sessões, que aconteciam ao fim da tarde, após as horas de serviço”, recorda José Reis, Director Comercial, ao PONTO FINAL.

“Era uma pessoa que estava sempre bem-disposta e o convívio com ele fazia bem às pessoas. O dia até podia estar a correr pior, aliás aconteceu-me muitas vezes, depois ia jogar king e o Alecrim contava as suas histórias ou mandava as bocas jocosas, que não eram ofensivas, e isso acabava sempre por fazer uma pessoa bem-disposta”, acrescenta.

 

Boa-disposição contagiante

 

O espírito contagiante e a boa-disposição é também um dos traços de Alberto Alecrim destacado por Miguel Brandão, editor da Rádio Macau, que conviveu com ‘o Alecrim’, principalmente nos eventos do Sporting de Macau.

“Encontrei-o várias vezes em convívios. Era uma pessoa com muita piada, irradiava boa disposição e gargalhadas. Representa o espírito aventureiro português, que aqui chegou e se adaptou e soube muito bem conviver com a comunidade, sobretudo macaense e portuguesa”, lembrou Miguel Brandão, ao PONTO FINAL.

“Através das suas gargalhadas e histórias foi construindo o seu mundo e muita gente gostava dele, por ser franco, bem-disposto e bonacheirão. Uma pessoa ao pé dele sentia-se bem”, completou.

 

Ao longo da sua vida, a história de Alecrim cruzou-se com alguns dos principais acontecimentos históricos dos territórios por onde passou. Estava em Goa aquando da invasão por parte da União Indiana, tendo sido enviado para os campos de concentração, onde esteve à beira de ser fuzilado. E em Macau, onde assistiu às consequências do 1-2-3, em 1966, ocorrência que baptizou, num genial golpe de humor, de “Guerra do Chao Min”. Apesar das dificuldades e do dramatismo de muitos desses momentos, contava as histórias sempre com um tom de boa disposição.

“Eram histórias dramáticas e sérias, mas a forma como ele contava era muito fascinante e prendia as pessoas. E era tudo verosímil, tudo o que contava era autêntico”, afirmou José Reis.

 

Um coração verde-e-branco

 

Além da família, o grande amor de Alberto Alecrim era o Sporting, sendo o sócio número 4 do núcleo de Macau. Um amor que lhe fazia inventar “tempestades” para não ter de relatar mais os jogos em que o Sporting estava em desvantagem: “Ele era o Decano dos Sportinguistas [de Macau], o Leão-Mor. Quando tinha de fazer os relatos do Sporting estes acabavam logo, sempre que as coisas não estavam a correr bem ao Sporting devido à má propagação atmosférica, como ele dizia”, sublinhou Miguel Brandão.

Mesmo nos últimos anos da sua vida, Alberto Alecrim seguia os jogos do Sporting em directo, quando havia transmissão televisiva: “Era um sportinguista aguerrido. Com a idade que ele tinha, e mesmo tendo em conta a diferença horária entre Portugal e Macau, acordava para ver os jogos. É uma coisa que muitos jovens não fazem hoje”, destaca José Reis.

Nos seus relatos, ‘o Alecrim’ gostava igualmente de ter uma vertente mais humorística, um traço que é recordado por Francisco Manhão presidente da APOMAC, associação da qual o radialista era membro e onde passou muitas da suas tardes, nos anos mais recentes.

“Já o conhecia quando tinha 16 anos, nessa altura eu jogava futebol e ele era radialista. E os relatos dele tinham a sua graça porque ele não falava só do futebol, também para não ser tão monótono”, recorda Francisco Manhão, ao PONTO FINAL.

“Nos últimos anos como era sócio da APOMAC, aparecia quase todas as tardes para falar um bocado da situação política e de Macau. O mais importante para ele era o seu Sporting e gostava de conversar com a malta”, frisou.

Os pormenores sobre as cerimónias fúnebres apenas serão conhecidos durante o dia de hoje.

 

 

 

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