Refugiados e ambiente regressam em força ao World Press Photo

Foi ontem inaugurada na Casa Garden a exposição anual da principal competição mundial de fotojornalismo, com mais de centena e meia de fotos de mais de quatro dezenas de autores premiados. Este ano, foram mais de seis mil, os trabalhos, publicados em jornais e revistas de todo o planeta, que se apresentaram a concurso.

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Rodrigo de Matos

De cigarro nos lábios, um homem de meia idade ajuda um amigo a empurrar um triciclo pelas ruas geladas de uma aldeia nos arredores de uma central termoeléctrica na província de Shanxi, no Norte da China. Ao fundo, o céu é preenchido pela fumaça densa de gigantescas chaminés, naquela que é a regiao que lidera a produção de carvão no país, com 300 milhões de toneladas anuais. Esta é apenas uma das 155 fotografias que vão estar em exposição na Casa Garden até ao dia 23 de Outubro, no âmbito da edição de 2016 do mostra do World Press Photo.
Pode não ter levado o prémio de Foto do Ano – esse foi para “Esperança por uma vida nova”, a foto do australiano Warren Richardson, que captou o momento em que um homem sírio passava um bebé por entre a cerca de arame farpado a um outro refugiado que já havia conseguido transpor a fronteira da Sérvia para a Hungria – mas a foto descrita foi a escolhida para abrir a exposição. Vencedora do primeiro prémio na categoria “Vida Quotidiana”, a foto “A dependência chinesa do carvão”, do canadiano Kevin Frayer, apresenta uma composição perfeita e mais parece uma pintura, mas é especial porque nos lembra que a poluição do ar contribui para 17 por cento dos óbitos na República Popular da China, onde as centrais eléctricas a carvão fazem do país responsável por um terço das emissões mundiais de dióxido de carbono: “Quando o nosso júri selecciona e classifica as fotos apresentadas a concurso, há duas coisas principais que tem em atenção: a estética e o valor noticioso das imagens”, explica Sanne Schim van der Loeff, directora do departamento de exposições da World Press Photo.
“Nesta edição, assistimos a um regresso em força de dois temas de peso: os refugiados (não só a foto vencedora do principal prémio, como um terço das que se encontram nesta exposição são à volta desse tema) e a relação do ser humano com o ambiente”, confirma a responsável.

As histórias que ninguém conheceria

Em exposição estão 155 fotos produzidas pelos 42 repórteres fotográficos distinguidos nesta edição do concurso e que foram seleccionadas, de entre um total de trabalhos apresentados que superou os seis mil, por um júri na sede da organização sem fins lucrativos, situada em Amesterdão, na Holanda. Os vencedores estão divididos por oito categorias – “Temas Contemporâneos”, “Vida Quotidiana”, “Notícias Gerais”, “Projectos de Longo Prazo”, “Natureza”, “Pessoas”, “Desporto” e “Notícias Locais” – sendo que em cada uma há três prémios para fotos individuais e outros três para foto-reportagens de várias peças.
“Nas fotos que apresentamos aqui este ano, vão notar que há várias que levantam a questão do acesso. Quero dizer com isto que, se não fosse o trabalho abnegado desses fotógrafos, que muitas vezes arriscam a pele para poder contar essas histórias, nós nunca saberíamos, não teríamos acesso a essa informação”, observa Sanne Schim van der Loeff, citando como exemplo, uma das suas foto-reportagens favoritas de entre as que fazem parte da exposição: “Talibés, Escravos dos Dias Modernos”, que o português Mário Cruz publicou na revista Newsweek, e que conta a história de um grupo de rapazes de cinco a 15 anos, recrutados por escolas islâmicas no Senegal sob o pretexto de receberem os ensinamentos do Corão, mas depois forçados a mendigar nas estradas. Os seus “protectores religiosos” ficam com os bens que as crianças conseguem reunir. “Graças a essa reportagem, as autoridades no país foram forçadas a fazer alguma coisa e crianças foram libertadas. Este trabalho, e outros do género que temos nesta exposição, restauram o poder da fotografia”, sublinha a responsável.

Uma janela para o mundo em Macau

Organizada anualmente, a exposição percorre mais de 100 cidades por ano em todo o globo. Macau é uma delas, desde o já longínquo ano de 2008: “Esta exposição vai passar também por Hong Kong, mas nós exibimos primeiro”, congratula-se Amélia António, presidente da Casa de Portugal em Macau (CPM), que se tem mantido como parceira da WPP ficando encarregada de garantir o espaço para a receber.
“Tentamos abrir janelas para o mundo a muitas pessoas. Trazer um pouco do que se passa no mundo para as pessoas de Macau poderem ver”, resume a responsável, deixando o compromisso: “Vamos fazer um esforço para manter o evento em Macau com uma regularidade anual. Continua a fazer sentido, apesar de ser um evento que não nos traz retorno financeiro”, afirma.

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