Princesa Turandot desce sobre o palco do CCM, numa produção despida de excesso que busca a substância do texto

Acontece com Turandot, de Giacomo Puccini, a grande abertura do XXX Festival Internacional de Música de Macau. Ópera e festival estreiam-se às 20 horas deste sábado no grande auditório do Centro Cultural de Macau. A imprensa espreitou ontem os bastidores de uma produção monumental, que promove o encontro de nomes incontornáveis do teatro lírico com a Orquestra de Macau e o Coro Nacional da Coreia.

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Fotografia: Eduardo Martins

Sílvia Gonçalves

“Ma il mio mistero è chiuso in me, il nome mio nessun saprà!”. Poucas árias arrancam lágrimas e colocam em suspenso a audiência como ‘Nessum Dorma’, na Turandot de Giacomo Puccini. A voz do príncipe, outrora assumida por Luciano Pavarotti, soa num nocturno terceiro acto, quando a princesa Turandot ordena aos guardas que corram a cidade para descobrir o nome do príncipe que era, afinal, Calaf, a quem ela viria a chamar, simplesmente, “Amor”. A história da princesa chinesa que impõe aos pretendentes a resolução de três duríssimos enigmas, assentindo em casar com aquele que os desvendar, sobe ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau entre sábado e terça-feira. Num encontro entre o maestro Lü Jia, director musical da Orquestra de Macau, o encenador Giancarlo del Monaco e o cenógrafo William Orlandi. Numa passagem pelos bastidores de Turandot, ontem concedida à imprensa, Giancarlo del Monaco descreveu uma versão despojada da última obra de Puccini, desprovida do excesso visual de ‘chinoiserie’ a que habitualmente está associada.

“A ideia desta Turandot foi não pôr em palco um restaurante chinês. Quando entras num restaurante chinês vês pequenas coisas aqui, um dragão ali. Geralmente as pessoas pensam que Turandot é toda a velha China junta numa só performance. E o resultado de Turandot é sempre demasiadas coisas em palco, demasiada ‘chinoiserie’, e não consegues ver os artistas, eles desaparecem. A nossa ideia foi ir à substância da peça”, revelou Giancarlo del Monaco, para quem esta produção da ópera de Puccini deverá colocar no centro da cenografia os artistas e não uma profusão de elementos cénicos. “Não precisas de pôr no palco toda a época Ming para fazer o Turandot. Podes fazer o Turandot com alguns elementos fortes. Decidimos fazer algo novo, para limpar o exagero de Turandot”, conta o encenador italiano.

William Orlandi, cenógrafo e figurinista de uma Turandot que abre a 30ª edição do Festival Internacional de Música, descreve um cenário contemporâneo, onde ressalta o negro pontuado a dourado: “A inspiração veio da Cidade Proibida, dá-te uma atmosfera chinesa sem ter todos os mil elementos. Temos o trono do imperador, o resto são os figurinos”.

Numa cenografia que privilegia a interpretação dos cantores, são eles quem traduz os contrastes contidos no libreto: “Calaf é um mongol. Por isso pomos em palco o Calaf enquanto mongol. E confronta-se com a beleza que é representada por Turandot. Turandot não é só Turandot, é um símbolo de toda a linda e decadente China. A ideia foi ir pela psicologia de Turandot e não fazer uma pintura Ming”, complementa Del Monaco, sobre uma narrativa sombria que cruza sangue, amor e sacrifício. “É uma peça nocturna. O primeiro acto é a lua, ela aparece numa visão. O terceiro acto também se desenrola de noite. É uma peça escura e nocturna”, sublinha.

Um registo de negrume pontuado por três personagens que emprestam cor e comicidade a uma trama densa, que cruza drama e comédia: “Toda a gente tem máscaras, os guardas têm máscaras. As personagens Ping, Pang e Pong são figuras da commedia dell’arte. Eles são como três máscaras da commedia dell’arte. Movem-se assim [exemplifica], são muito físicos. E este é o belo contraponto da peça, temos situações trágico-cómicas. Eles perguntam a Calaf porque quer ele a princesa: ‘Ela não serve para comer, é perigosa, é difícil, não é algo que possas comer’. Há muito texto engraçado dentro de Turandot”, lembra Giancarlo.

NA CENOGRAFIA E NOS FIGURINOS REPOUSAM OS SEGREDOS DA ÓPERA

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Fotografia: Eduardo Martins

Abre-se a porta lateral sobre a plateia, de onde se avista o palco e se revela a monumentalidade de uma cenografia contrastada a negro e azul, com encaixes dourados que recriam as portas da cidade. Ao centro, a escadaria imensa: “Com a luz cria-se um ambiente misterioso. São as cores do imperador. A luz também é cenografia, transforma-se em cenografia”, explica William Orlandi, italiano de Modena, com os braços em arco e o gesto a acompanhar a palavra. Com o ânimo de quem revela coisa sua, Orlandi prossegue numa descrição que ajuda a visualizar um coro imaginário. “As cores das máscaras, com o fundo negro, sobressaem. Os fatos do coro e dos figurantes são pretos e são neutros, para valorizar as máscaras. As luvas são da mesma cor das máscaras, para que se veja o gesto das mãos”.

Entre os três homens que se movem pelo palco, está a assistente de encenação Elena Sacconaghi, que há 35 anos percorre com Giancarlo del Monaco o repertório operático: “O meu pai era vietnamita, de Hanoi”, conta a italiana, com a alegria de quem por aqui se sente mais perto de um lugar de pertença. “Ele é um grande encenador, é um prazer trabalhar com ele. É como um vulcão, tem temperamento italiano. Mas, tal como um vulcão, depois há fertilidade. O seu trabalho cresceu, abana toda a gente, e o resultado é lindo”, sopra Elena ao PONTO FINAL, sobre Giancarlo, num registo de devoção que esticou a parceria ao longo do tempo.

William Orlandi segue depois pelos corredores rumo aos camarins, lugares secretos e intransponíveis do teatro, onde estão já os figurinos de que cada cantor se irá apropriar. “Quando faço a cenografia, imagino os figurinos dentro. Neste caso a Turandot aparece na lua, é como se fosse um cenário, ela é muito parte do cenário, na primeira cena ela não canta, só aparece numa lua. Este é o fato da aparição, tem uma capa que é cenografia, que está no palco. O fato tem pelo menos trinta metros. É seda branca, ela move-se como se estivesse no vento, como se estivesse no ar”, descreve Orlandi, com a emoção cravada na voz e um encantamento que não se desmancha em quem entregou a vida ao teatro.

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