“Com a revolução digital, a fotografia tornou-se uma arte muito mais democrática”

Documentou a poluição no altiplano boliviano, foi testemunha privilegiada do estertor do chavismo, deu um rosto aos brasileiros que perderam o pouco que tinham em nome do sonho olímpico, fotografou as vítimas das FARC que competiram em meados do mês nos Jogos Paralímpicos e prepara-se para retratar a comunidade transexual do Equador, um país onde abundam centros de “desomossexualização” . Natural do Porto, Eduardo Leal descobriu na América Latina uma paixão que se foi transformando numa missão. Fotógrafo documental freelancer, esteve em Macau a convite da Universidade de São José e redescobriu no território o sentido de emaravilhamento que o levou a apaixonar-se pela América do Sul, continente que – diz – não tem nos media internacionais a projecção merecida. Eduardo Leal em discurso directo.

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Fotografia: Sophie Gost;

Marco Carvalho

Ponto Final: Vivemos numa época em que a imagem – e de uma forma muito particular a fotografia – é ubíqua. O processo de obtenção de um instantâneo fotográfico democratizou-se e o telemóvel, as máquinas compactas possibilitaram uma explosão dos conteúdos fotográficos. Tendo em conta o actual panorama, uma carreira como fotógrafo, como documentarista é uma aposta arriscado?

Eduardo Leal: Há um problema, efectiva. Há demasiadas imagens a serem produzidas hoje em dia esta tendência traduz-se por um aumento de competição para quem faz o que eu faço. É uma competição amadora, mas é uma competição que nos veio roubar um bocadinho de espaço porque, obviamente, muitos dos meios de comunicação social, hoje em dia, as primeiras fotografias que procuram – o que também faz sentido – são as captadas pelos “citizen journalists”. A imediatez favorece este  tipo de trabalho porque os repórteres nunca estão nos locais quando as notícias acontecem. Ao mesmo tempo, ainda assim, não considero que seja uma opção arriscada. E porque? Eles podem eventualmente colmatar o facto de que fotojornalista não pode estar em todo o lado ao mesmo tempo, mas acho que depois os jornais e o jornalismo precisam de fotógrafos que realmente sabem o que estão a fazer e que sabem contar uma história através de fotografias. Além do mais, como documentaristas, nós fazemos projectos de longo prazo e ninguém que tenha uma câmara ou um telefone vai dedicar, se for preciso, dias e semanas a contar uma história, que é algo que nós fazemos como modo de vida. Acho que, porventura, há mais imagens do que aquelas de que necessitamos. Há quase uma diarreia de imagens, passe a expressão e quem tira tais fotografias já não as aprecia, sequer. É um bocado o fotografar por fotografar, mais o vício de obter o instantâneo de viver atrás do ecrã do que realmente ver a imagem e apreciá-la. Não é uma ameaça também por causa disto: ninguém que tira fotografias com um telemóvel o faz com a intenção de estruturar e contar uma história a partir das imagens que obtém. Por outro lado, há também a questão da ética: quem tira uma fotografia com um telemóvel raramente se deixa consumir por questões éticas, ao passo que nós, os jornalistas credenciados, temos todo um código que temos de seguir. Outro problema com este excesso de imagem é o facto de as pessoas terem começado a ter muito mais noção do poder da imagem. Antigamente podia-se fotografar em qualquer sítio do mundo e quase ninguém se incomodava com o facto de lhe tirares uma ou outra fotografia e hoje já perguntam para quê…

 

Tem tido alguns problemas e percalços, de resto. Na Venezuela, por exemplo …

E.L: Sim, sim. Mas na Venezuela nem é tanto a questão de se tirar ou não fotografias. Tem muito mais a ver com a situação em que o país está mergulhado…

Os últimos anos, passou-os na América Latina. Está radicado na Colômbia, mas tem corrido a América do Sul toda. A América Latina, uma missão ou uma paixão?

E.L: Ambas. Acho que começou como uma paixão. Foi na América Latina que fiz a minha primeira grande viagem sozinho como mochileiro, era eu um jovenzinho. Tinha vinte e picos anos e fiz-me à estrada por curiosidade. O encanto pela América Latina foi crescendo em mim e depois, por motivos de trabalho, comecei a ir mais regularmente à América do Sul. É uma paixão, mas é uma paixão que virou missão. Quando se começa a trabalhar em histórias lá, há tanto para contar e tanto para fotografar que o trabalho nunca está completo. No caso da Venezuela, tornou-se uma espécie de missão porque falta  que se viva o último capítulo da história. Já não gosto de ir tanto à Venezuela como gostava, mas a história ainda não acabou e ainda entra o sentido de missão. Depois de lá ter ido tantas vezes, sinto que tenho de acabar esta história. Continua a ser uma paixão, mas o que me prende à América Latina é mais a missão de ter de fotografar certas histórias, principalmente em países como a Venezuela ou a Bolívia, que estão a passar por mudanças muito rápidas. Este últimos anos têm sido muito voláteis  nesses países.

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Fotografia: Eduardo Leal;

A volatilidade de que fala faz-se sentir a vários níveis: a nível politico, a nível ambiental.. A série fotográfica com a qual conquistou o terceiro lugar nos Sony Awards tem precisamente o ambiente como pano de fundo. É um continente com muitas histórias para contar, a América do Sul?

E.L: Demasiadas. Eu não tenho mãos a medir. Eu precisava de muitos Eduardos e acho que é um dos continentes que está menos explorado em termos jornalísticos. Não há muitas histórias a saírem de lá e é também o que suscita menos interesses junto dos meios de comunicação internacionais. Eu trabalho muito com media internacionais e devo dizer que o meu trabalho não é muito procurado. É curioso.

 

Porque é que isso acontece? Há um elemento político que explica esse desinteresse? O facto da América Latina ter sido durante as últimas décadas solo fértil à expansão das esquerdas explica um tal esquecimento? A preponderância da esquerda na América Latina afastou a América Latina das páginas dos jornais?

E.L: Por acaso acho que não. Nesse aspecto creio que aconteceu precisamente o contrário. Falar-se-ia da Venezuela de forma tão recorrente se não houvesse Chávez? Quando morreu o Chávez, colegas meus que trabalham exclusivamente na Venezuela – e muitos deles são venezuelanos – diziam-me: “Acabou a festa”. A verdade é que com o Chávez nós tínhamos notícias todos os dias e tínhamos sempre coisas para fazer. Agora acabou, já ninguém quer saber. Continua a falar-se da Venezuela porque o país está numa situação muito melindrosa, mas já se fala menos. O Chávez tinha a desfaçatez de irritar o rei de Espanha ou de dizer na ONU que cheirava a enxofre porque o Bush por ali andava. Havia sempre qualquer coisa que o Chávez fazia ou dizia que atraía a atenção dos meios de comunicação social. Essa onda socialista que varreu a América Latina colocou o continente no mapa. Era mais esquecido antes, de certa forma. Agora corre-se o risco desse esquecimento voltar a prevalecer, até porque acabaram os grandes eventos. Nos últimos quinze anos houve muito a acontecer na América do Sul: Chávez chegou ao poder e a partir daí começaram a mudar os Governos. O Evo Morales tornou-se o primeiro presidente indígena da Bolívia, o Rafael Correa, apesar de não ser indígena, adoptou a mesma retórica no Equador. No Brasil, o Lula finalmente ganhou as eleições depois de tantas tentativas. Estas mudanças trouxeram mais interesse. O Brasil como economia fazia parte dos BRIC, tínhamos os grandes eventos a ir para o Brasil, como os Jogos Olímpicos agora e há dois anos o mundial e até isso suscitou interesse. Terminada esta fase, temo que o mundo se volte a afastar da América Latina. Mesmo com este interesse todo, acho que ainda se fala muito menos da América do Sul do que se fala da China ou do Médio Oriente. Os Estados Unidos e a Europa são uma liga diferente, porque estão no centro dos acontecimentos. Apesar disso, acho que a questão politica a que se refere veio permitir com que se olhasse com maior interesse para a região. Neste momento, os ventos políticos na América Latina estão a mudar: no Brasil a mudança já se consumou e na Venezuela não digo que seja uma questão de meses, mas o chavismo está por um fio. Pelos vistos o referendo já não vai avançar, o que quer dizer que pelo menos até 2019, o chavismo vai andar moribundo, mas ainda vai lá estar. Depois disso, parece-me que a Venezuela vai voltar a página. No Equador, o Rafael Correa quer-se recandidatar nas eleições do próximo ano, mas também já não tem a força que tinha, até porque as pessoas estão cansadas. O único que se poderá aguentar por enquanto é o Evo Morales, ainda que na Bolívia esteja a ganhar força um movimento que o quer impedir de se recandidatar a um terceiro mandato. Se assim for, teremos como que o fim de um ciclo para a América Latina.

O facto da América do Sul permanecer, de grosso modo, esquecida constitui uma oportunidade para um fotografo como o Eduardo? Há muita gente a trabalhar a América Latina de uma forma mais documental?

E.L: Não. Há mais agora, porque a Internet e as novas tecnologias permitiram a ascensão de um maior número de fotógrafos locais. Há muitos jovens, na casa dos 20, 22, 23 e 25 anos, com muita qualidade. Quem está a fazer muito são sobretudo locais. As oportunidades são diferentes. Para aprender agora é muito mais fácil do que era há uma dúzia de anos atrás: agora até através da Internet se podem aprender técnicas e posturas. Por outro lado, também é mais barato. Quando a fotografia se resumia única e exclusivamente à película, a profissão não era para todos: havia que comprar rolos, que os revelar e tudo o resto. Isto são custos que muita gente nesses países não podia suportar. Agora qualquer máquina pequenina já tem muito boa pequenina, permitindo a estes fotógrafos uma outra abordagem ao meio. Com a revolução digital, a fotografia tornou-se uma arte muito mais democrática. Isso veio dar aos locais a possibilidade de mostrarem o seu mundo pelos seus próprios olhos, quando antigamente este trabalho era feito por fotógrafos que vinham de fora, como eu e como muitos dos meus colegas, que vínhamos dos Estados Unidos e da Europa e que vinham única e exclusivamente para fazer uma reportagem e que ao fim de uma semana ou duas se iam embora. Hoje em dia já se nota alguma diferença. A nível local há um crescimento da fotografia, mas ainda é muito negligenciado. Estrangeiros como eu, radicados na América Latina com o propósito de contarmos as histórias do Continente, somos muito poucos e conhecemo-nos todos uns aos outros, se não for pessoalmente, através das redes sociais.  Mas não há muita gente e há demasiado trabalho, é uma constatação. A América Latina é um continente enorme, constituída por países gigantescos e há, obviamente, muito para se fazer. Há demasiadas histórias para contar: eu tenho listas e listas de ideias para concretizar. Só não tenho é tempo, porque para materializar os projectos o tempo é essencial.

Estas ideias, depois de transformadas num produto jornalístico, são algo que se vende bem… É fácil, dadas as contingências, vender histórias sobre paralímpicos colombianos ou transexuais do Equador?

E.L: Não …

Quando investe num projecto e não o consegue vender, o que faz com ele?

E.L: Fica lá. Não faço nada. (risos). Se não o conseguir vender, que é algo que acontece por vezes, tento rentabilizá-lo de outra forma. Às vezes é um bocado mais a frustração do trabalho não ter sido publicado. Vender é importante porque é necessário pagar contas, mas o que incomoda, o mais das vezes, é não publicar as histórias que consideramos que têm valor e que depois acabam por ficar esquecidas. Felizmente nunca me aconteceu muito isso: a maior parte dos trabalhos que faço são bem sucedidos. Os outros ficam nos arquivos, um bocado esquecidos, mas depois há maneira de lhes dar uma segunda vida, por vezes. Basta que algo de relacionado aconteça e essas fotografias passam a ter um contexto interessante e podem ser vendidas para arquivos e para soluções do género.

O que é que distingue a fotografia documentarista do fotojornalismo propriamente dito? É a persistência? Do que falamos concretamente quando falamos de documentarismo em fotografia?

E.L: Normalmente identifico-me como fotojornalista porque é mais fácil para as pessoas entenderem, mas eu acho que sou mais fotógrafo documental. Trabalho com noticias, mas acho que faço muito menos notícias do que faço documentário. No meu entender, o fotojornalista é aquele profissional que faz a notícia do dia, da hora, que cobre o acidente que acontece em determinada zona da cidade e vai a correr para lá. Tem a tarefa e a tarimba diária de documentar o dia-a-dia e as notícias da hora, enquanto que um fotografo documental está à procura de histórias mais extensas: assume a função de criar uma linha, uma história e de trabalhar isto, não digo arduamente, porque os dois aspectos são muito árduos. Desse ponto de vista, o fotojornalista faz um trabalho porventura mais duro. O trabalho documental é melhor planeado: vamos passar tempo com os assuntos e os sujeitos que estamos a retratar e o trabalho também é fruto deste esforço. Por exemplo, estou agora a trabalhar no Equador sobre a comunidade transexual e eu passo horas, dias e semanas com eles. Não vou ter com eles, tiro três fotografias e vou-me embora porque tenho de mandar isto para o jornal. Não. Eu vou e fico uma semana, se puder dormir lá, durmo, se me derem a liberdade para os acompanhar é isso que faço. É o que digo. Se puder ser uma sombra durante duas semanas, eu faço isso, enquanto que um fotojornalista acho que trabalha com o tempo de outra forma. Mas esta é uma questão ambígua. Há, com certeza, quem lhe dê outras definições. Esta é a minha definição: acho que um fotojornalista é muito mais alguém que trabalha a notícia diária ou reportagens mais curtas, ao passo que um fotógrafo documental é alguém que trabalha num assunto e num tema por um longo período de tempo e que se pode dedicar a isso.

 

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Fotografia: Eduardo Leal;

Esse é o seu último projecto, mas a América Latina tem sido fértil em boas histórias, digamos assim. Para além de ter acompanhado o estertor do chavismo, um dos últimos projectos em que esteve envolvido reportou-se ao acompanhamento dos atletas paralímpicos colombianos que participaram, este mês, nas Paralímpiadas do Rio de Janeiro. Muitos destes atletas foram vítimas do conflito que opôs até recentemente as FARC e o exército colombiano. É uma outra forma de ilustrar um conflito? A fotografia oferece outro tipo de possibilidades que não a escrita para abordar ângulos diferentes de um certo problema?

E.L: Uma precisa da outra. É comum dizer-se que uma fotografia vale mais do que mil palavras. É verdade, mas temos que ter pelo menos a legenda. Nesse trabalho que referia, o dos paralímpicos que eram vítimas do conflito, se eu não tenho lá uma legenda ou um texto – e o trabalho até tem muito texto, porque eu conto a história de cada um dos atletas – as pessoas nem notam, nas fotografia, que lhes falta um braço ou uma perna, porque eu também não quis explorar isso. Se olharem com calma para a fotografia, acho que se vão aperceber disso. Pessoalmente, acho que precisamos de ambos os componentes. Nesse trabalho, por exemplo, usei muito texto para contar a história dessa pessoa, porque considerei importante ouvir a voz da vítima que se tornou um herói. O projecto chama-se “Victims and Heroes”.

A fotografia tem, ainda assim, um impacto mais duradouro?

E.L: Talvez. De uma coisa estou certo: conecta o leitor de outra forma. Na escrita, a arte de se agarrar o leitor depende muito de quem escreve, mas a fotografia  – que pode ser ou mais ou menos artística – mostra o que lá está. Nunca dá para extrapolar muito. Eu não digo que a fotografia sirva apenas para ilustrar o texto, porque nunca é apenas isso, mas acho que se complementam os dois. A fotografia pode contribuir com uma outra mirada, com um outro olhar sobre o assunto que se está a debater ou que está a ser explorado.

Não tem muito trabalho feito em Portugal e sobre Portugal. Há a série dos forcados e pouco mais …

E.L: Só há mesmo mais uma série para além dessa.

Porquê? Não há histórias para contar em Portugal? Portugal, a Europa Ocidental e os Estados Unidos estão numa fase pós-contemporânea em termos daquilo que interessa aos leitores …

E.L: Não. Eu acho que interesse em todo o lado. Portugal é um caso à parte e já lá chegarei. Mas se falamos dos Estados Unidos ou da Europa há sempre algo a acontecer. Na Europa, há de resto uma das maiores histórias do momento, com o acolhimento dos refugiados…

Mas também está toda a gente a cobrir os refugiados, digamos assim …

E.L: Passa um pouco por aí. Acabei por ficar na América do Sul porque a vida me direccionou para lá. Não faço muitos trabalhos sobre outras partes do planeta porque também não passo muito tempo lá, porque se passasse também estaria a fazer outro tipo de histórias. De Portugal tenho poucas, porque a verdade é que também não passo tempo em Portugal. Tento ir uma vez por ano a Portugal para ver a família e amigos e quando lá estou não trabalho. Já não vou a Portugal quase há quinze meses e Portugal é sinónimo de férias e de descanso, digamos assim. Ainda assim, acho que há histórias em todo o lado: há muito a sair e a ser publicado de África e do Médio Oriente, porque já muito interesse no que se passa lá e há muitas histórias para contar. Nesses sítios, normalmente é relativamente fácil lançar uma carreira, principalmente no Médio Oriente. Mas há muita gente a trabalhar a Europa e os Estados Unidos e este trabalho também é bastante solicitado porque entra na esfera do jornalismo de proximidade. É possível que os Estados Unidos, a Europa e o Médio Oriente sejam os locais mais retratados. África também, mas depende muito do que está lá a passar. Em relação a Portugal, há uma nuance: é difícil vender histórias de Portugal para o mundo. Portugal não é um país muito fácil de se vender, porque é um país muito pequenino e muito periférico. A crise contrariou esta tendência durante um breve período de tempo, mas depois o interesse voltou a desaparecer. Tenho um amigo que casou com uma portuguesa e que trabalhou em Portugal durante algum tempo, mas que se viu obrigado a rumar a outra parte do mundo porque era muito difícil colocar na imprensa internacional trabalhos feitos em Portugal. É curioso. O Mário Cruz, o fotógrafo português que ganhou este ano o World Press Photo, fez trabalhos incríveis ao serviço da agência Lusa e o grande trabalho que o distinguiu foi feito na Guiné e no Senegal, não foi feito em Portugal. Ele vive em Portugal, trabalha em Portugal o tempo todo, mas o trabalho que lhe trouxe reconhecimento, com muito mérito, porque ele é talvez o melhor fotógrafo português do momento, foi feito fora de Portugal. Por um lado é bom. É sinal que temos um país pacato e tranquilo, que não levanta ondas.

Falava do Médio Oriente … Um cenário de guerra é o desafio dos desafios para um fotógrafo? É algo que o tenta ou nem por isso?

E.L: Já tentou mais. Não sei se é da idade ou se por já ter passado por algumas situações complicadas. A verdade é que já meço as coisas de outra maneira. Mas sim, é um desafio: a adrenalina, a aventura e o sentido de missão também. Já me aliciou mais também porque já me apercebi que posso contar histórias igualmente importantes sem ter que ir para o meio dos tiros e das bombas e de tudo o mais. A acção do homem que está a metralhadora a disparar era algo que me atraía muito aos vinte e poucos anos. Agora atrai-me menos. Prefiro focar-me nas vítimas ou em algo que me permita falar do conflito, mas de uma perspectiva que vai além das bombas e da acção e do sangue derramado. Dizia esta semana numa palestra que nunca fui ao Iraque e ao Afeganistão, que gostava de ter essa experiência, mas fazer vida disso acho que não. Acho que se passa um preço muito grande.

Dizia há pouco que já passou por situações complicadas. A Venezuela, com certeza, foi uma delas. Que outras?

E.L: Praticamente foram todas na Venezuela. Na Colômbia tive alguns problemazitos, mas nada de preocupante. O mesmo no Brasil, mas nada que se compare com a Venezuela. Tenho colegas que já trabalharam no Iraque e em cenários de guerra e falo com eles e eles dizem-me que nunca estiveram num sítio onde fosse tão difícil de trabalhar como na Venezuela. Mesmo num cenário de guerra, há períodos de calmaria e na Venezuela nada é calmo. A qualquer altura do dia, onde e quando menos se espera, alguém pode se lembrar de sacar de uma arma e começar aos tiros. Não há regras. Até na guerra há regras e lá  já não há regra alguma: não se pode confiar na polícia, não se pode confiar em ninguém. É um país inseguro seja de dia, seja de noite. A Venezuela foi mesmo o pior sítio onde trabalhei.

Apesar das más experiências na Venezuela, a América Latina vai continuar a ser o pouso predilecto? Ou um continente como a Ásia, com uma dinâmica muito própria, alicia-o?

E.L: Sim, alicia-me. É muito curioso porque no início da minha carreira eu supostamente ia para o Médio Oriente. Quando estudei jornalismo, estudei árabe, fiz estudos islâmicos  e preparei-me para isso. Depois a vida deu algumas voltas, fiz a tal viagem de mochileiro pela América Latina e a América do Sul começou a estar muito mais presente, também por motivos de trabalho. Um dos meus mentores sempre me disse: “Eduardo, eu não percebo porque é que vais para o Médio Oriente. Aquilo está cheio de gente e ninguém cobre a América Latina, tu falas as línguas, pareces-te com eles. Parece-me perfeito. No Médio Oriente, mesmo falando a língua iria precisar muito mais de intermediários, de tradutor e de outro tipo de logística. Na América Latina não preciso de nada disso: de facto é a minha grande paixão, mas eu não quero ficar só na América Latina. Mais uns anos sim. Não posso quantificar quantos: talvez mais uns três, quatro, cinco ou seis …. Mas vejo no futuro querer sair de lá e começar a trabalhar em outra área, até porque eu já conheço a maior parte dos países e chego a uma altura em que quero conhecer outras coisas. Ao vir cá agora a Macau, ainda me apercebi mais disso. O entusiasmo de viajar e de explorar, que é essencial a quem trabalha com fotografia, tenho-o lá mas já não se compara ao que senti quando aqui cheguei, no início do mês. Na América Latina, de certa forma, já é tudo muito normal, quase. Se vou para a Bolívia, já conheço a Bolívia de trás para a frente. Adoro estar na Colômbia, mas sinto que já perdi um bocadinho o sentido de aventura. Já não sinto o que senti aqui quando fui aí jantar sozinho num restaurante chinês: as sensações que aqui senti, já não as sinto lá, dado que falo os idiomas, já conheço aquilo tudo e já conheço montes de gente. Chegar aqui, sentir-me perdido, “lost in translation”, é algo que já não consigo experienciar lá. Não sinto essa excitaçãozinha de viajante que quando parte, parte para explorar o desconhecido. É claro que há sempre coisas a aprender e a descobrir mas já não tenho a totalidade desse sentimento enquanto que cá sim, isso ainda permanece. Lembro-me de chegar cá, de me perder pelas ruas e de me sentir fascinado. É tudo tão novo para mim. Senti a determinada altura que um dia chegará em que estarei tentado a explorar outras zonas do mundo e realmente a Ásia é uma possibilidade. Também gostava de ir para África. De vez em quando digo para mim próprio que quando chegar aos quarenta e tal anos rumo à Ásia, aos cinquenta meto-me a caminho e vou para África e fico lá uma temporada e ao fim de alguns anos volto para a Europa para um vida mais calma. Este é, supostamente, o plano que tenho na cabeça. Surgiu esta oportunidade de colaborar com a Universidade de São José, em princípio parece que é para voltar para o ano e é bom mudar de ares, nem que seja por uma curta temporada todos os anos. Chega uma hora em que a mudança é mesmo o único caminho …

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Fotografia: Eduardo Leal;

Uma última questão. Dizia que tem uma lista imensa de trabalhos que gostaria de conduzir na América Latina. Qual é aquele no qual ainda não pegou e que gostaria de fazer antes de voltar costas à América do Sul?

E.L: Há muitos, mas um que me ficou na cabeça é sobre as crianças escravas no Paraguai. No Paraguai é muito comum os pais darem os filhos a famílias ricas e eles são tratados como se fossem escravos : trabalham nas casas das famílias abastadas logo a partir dos três ou quatro anos. É normal as famílias ricas terem um miúdo que serve de mordomo. Há mesmo uma palavra para isso: “Criadazgo”. Eu gostava de fazer uma história sobre isso. O problema é o acesso.

É um país fechado, o Paraguai?

E.L: O Paraguai é um país muito fechado e não é muito fácil pegar numa máquina fotográfica, entrar em casa de famílias ricas e andar a documentar o facto de ali andar uma criancinha a trabalhar. A UNICEF está a tentar acabar com esta prática, anda a negociar com o Governo paraguaio para tentar tornar esta prática ilegal, mas é muito comum e estas coisas não mudam assim, mas é uma ideia que eu gostava de concretizar. Mas há outras. No Equador, gostava de retratar os centros de “desomossexualização”, que são centro onde os pais levam os filhos que têm tendências gays. São locais onde os homossexuais são torturados para serem curados do “mal” da homossexualidade, digamos assim. Ando a tentar trabalhar nisso mas as vítimas não querem falar por receio. Como agora ando pelo Equador, ando a ver se consigo fazer isso. Adorava fazer essa história, porque é algo que considero muito importante, mas não sei. Vamos ver.

 

 

 

 

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