Farmácia Popular estende-se ao antigo cartório e incorpora charme oitocentista

A Santa Casa da Misericórdia de Macau atribuiu à Farmácia Popular a ocupação do rés-do-chão do antigo Cartório Notarial, no Largo do Senado. A extensão da casa apotecária, fundada no século XIX, deverá integrar uma componente museológica, recriando o ambiente vivido na génese da mais antiga farmácia ocidental do território.

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Sílvia Gonçalves

Outros mostraram interesse pelo espaço, mas será a Farmácia Popular a ocupar o rés-do-chão do antigo Cartório Notarial, no edifício-sede da Santa Casa da Misericórdia de Macau (SCMM). A extensão da farmácia vai integrar uma componente museológica, que se traduz na inclusão do acervo pertencente ao antigo estabelecimento, fundado em 1895. Pelo novo espaço, a Farmácia Popular vai pagar 700 mil patacas de renda mensal à Santa Casa, e partilhar ainda com a instituição parte das suas receitas, sempre que estas excedam um limite previamente estipulado. O projecto de readaptação do espaço deverá ficar a cargo de Carlos Marreiros, a quem o convite foi endereçado pelo provedor da SCMC. O arquitecto aguarda agora pelo contacto da arrendatária.

“Havia mais interessados: dois bancos, dois ourives, e outro suponho que era para vender artigos de desporto. Até davam melhores condições em termos de renda. Só que pediram à Santa Casa a garantia de que o espaço poderá ser efectivamente para fins comerciais. E a Santa Casa não pode dar essa garantia”, explicou António José de Freitas ao PONTO FINAL. Houve até uma empresa que fez subir a proposta às alturas, tendo recuado quando teve conhecimento das limitações a que está sujeita a intervenção num edifício histórico: “Até houve uma empresa de Hong Kong que ofereceu um milhão e duzentas mil patacas, mas quando soube que se tratava de um monumento, de um prédio classificado, que não podia afixar nada, e muito menos instalar equipamentos de publicidade, acabou por desistir”, contou o provedor da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Macau.

À Farmácia Popular, a Santa Casa impôs que o novo espaço comercial integrasse uma vertente museológica, a recriação do ambiente dos primórdios da farmácia, o que esta aceitou: “Foi a condição que a Santa Casa impôs e eles aceitaram. Porque a Farmácia Popular também é uma presença histórica, o seu fundador, o doutor Henrique Nolasco da Silva, também era irmão, suponho que também provedor. Também pesou o facto da Santa Casa ter que manter a dignidade do edifício”. António José de Freitas esclareceu que espaço comercial deverá ocupar o antigo cartório: “Uma farmácia que fale de si, sobre a história. Porque a Farmácia Popular foi uma farmácia pioneira em Macau. Nós em conjunto temos uma série de documentos, um acervo documental, fotográfico, e também adereços, frascaria de outros tempos. Isto tudo vai ser exibido”, assegurou o provedor.

A renda mensal está fixada e os proventos da instituição não terminam aí: “A Santa Casa, garantidamente, vai receber mensalmente 700 mil patacas. E não só. Quando a facturação atingir um certo limite, que eu não posso divulgar, ainda vai poder comparticipar nas receitas”, revelou António José de Freitas. A inauguração daquelas que serão as segundas instalações da Farmácia Popular no Largo do Senado, já tem data marcada: “Será seguramente a 1 de Abril, porque não temos tempo a perder. Daqui a uns dias vamos assinar o contrato, e o arquitecto Carlos Marreiros já vai lançar mãos à obra sobre este estudo de readaptação do espaço para farmácia-museu”. António José de Freitas justifica a escolha de Carlos Marreiros com a extensa ligação que o arquitecto mantém com a instituição: “Ele foi sempre o arquitecto da Santa Casa. É um arquitecto conceituado em termos de concepção deste tipo de espaço. É tido e conhecido como um defensor acérrimo do património, da sua preservação”.

INVOCAR AS MEMÓRIAS DOS PRIMÓRDIOS DA FARMÁCIA POPULAR

“A arrendatária ainda não me contactou. O provedor já me informou sobre a sua intenção de, no rés-do-chão do antigo cartório, ser um espaço comercial mas com muita dignidade. Porque a Farmácia Popular tem mais de 100 anos de laboração, é prestigiada, foi a primeira farmácia ocidental de Macau, e que ao tempo já tinha farmacêuticos formados, fundada por um ilustre macaense. Acho que a intenção da Irmandade é boa, porque é um espaço comercial, mas com a dignidade de ser ascensão de uma farmácia histórica”, assume Marreiros.

O arquitecto prefere, contudo, não designar a intervenção no espaço como se tratando da inserção de uma componente museológica: “O que permite é criar uma ambiência que invoque as memórias da Farmácia Popular, a antiga, e que possa aqui actuar, ter um pequeno núcleo memorialista – não chamarei museológico, porque pode depois ser mal entendido – onde se poderá reconstruir uma ambiência, um trecho decorativo da antiga Farmácia Popular e colocar a parafernália da época que a farmácia utilizou, nomeadamente a frascaria, objectos utilitários de metal, de loiça”, explica.

Carlos Marreiros reconhece, no entanto, que lhe falta conhecer o acervo, perceber de que material dispõe para projectar o ambiente de um outro tempo: “Eu sei que eles têm um acervo da antiga Farmácia Popular, mas qual a dimensão, a quantidade, a qualidade, não sei. Mas de uma coisa tenho a certeza, eles terão alguma coisa para que possa ser exibido e devidamente, com notas indicativas, como em qualquer museu, até de forma interactiva, se quiserem. Tudo é possível”, garante Marreiros.

 

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