Ei-los que regressam, para o embate inaugural com o público mais íntimo

 

Acontece com novos talentos, o arranque do XXX Festival Internacional de Música de Macau. Quinta e sexta-feira, às 20 horas, 11 jovens músicos avançam sobre o palco do Teatro D. Pedro V, para os concertos “Bravo Macau! I” e “Bravo Macau! II”. Cinco deles apresentaram-se ontem à imprensa, para um acto de partilha emocional sobre aquela que será uma estreia no principal festival de música erudita do território.

1-jovens-talentos

Sílvia Gonçalves

Estão nos primeiros anos de uma carreira dividida entre horas de leitura incessante de pautas, repetição de acordes e apropriação de peças que em cada músico encontram interpretação singular e distintiva. Partiram para longe para completar a formação que o território ainda não lhes concede, para se abrirem a um mundo de possibilidades, aprendizagem e experimentação. No final da semana pisam as tábuas do D. Pedro V, para duas noites dos concertos “Bravo Macau! – Ciclo de Concertos de Músicos Locais”, integrados no XXX Festival Internacional de Música de Macau. Os cinco que ontem se apresentaram à imprensa estreiam-se no festival que mais aguardavam, no que dizem ser uma oportunidade rara de se revelarem perante a cidade que os viu nascer.

“Enquanto músico local, é uma grande oportunidade para tocar em Macau. É difícil fazer um recital cá. Se queres ter um recital, vais ter que arranjar um espaço. É difícil encontrar um local”, confessa Leong Ngok Meng. O músico, formado no Conservatório de Música de São Francisco, onde estudou trompete, completou depois a formação com um mestrado no mesmo instrumento na Mannes School of Music, em Nova Iorque. Como quase todos os músicos, hoje divide as actuações com o ensino. Às colaborações com a Orquestra de Macau e a Orquestra de Câmara de Hong Kong soma o ensino de trompete e direcção de orquestra no Conservatório de Macau e na Associação de Maestros de Bandas do território. Esta quinta-feira toca integrado num quinteto de metais, num programa que reúne compositores dos séculos XIX e XX.

A similitude entre os nomes delas desvenda-lhes a irmandade. Poon Ho Suet e Poon Ho Tung vão acompanhar o quinteto de cordas com um dueto ao piano que já experimentaram nos Estados Unidos mas nunca no cenário que lhes é mais familiar: “Estudei cinco anos fora. Na Universidade de Indiana há alunos de muitas nacionalidades, pude ver como eles interpretam, como actuam. Podemos absorver como eles sentem, aprender”, conta Poon Ho Tung, a irmã mais nova.

Aos 24 anos está no último ano de mestrado em interpretação de piano na Escola de Música Jacobs da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. A licenciatura fê-la, tal como a irmã, na Universidade Estatal Wright, no mesmo país, e graças a uma bolsa concedida pela instituição americana e pelo Instituto Cultural. Cinco anos depois de ter deixado Macau, diz não ser a mesma pianista: “Estou diferente do que era antes de partir, melhorei. Agora, fico feliz por poder tocar cá com a minha irmã. Não é um programa a solo, é música de câmara. Cada uma de nós estudou fora e aprendeu no seu ambiente”, explica.

A irmã mais velha, de 26 anos, interpela-a para estender o agradecimento a quem inicialmente facultou um necessário trampolim: “Temos muita sorte de ter o Governo a apoiar-nos”, considerando depois que, no processo de aprendizagem, “o que é importante é cada estudante criar o seu estilo enquanto intérprete”. Também licenciada pela Universidade Estatal Wright e ainda pelo Conservatório de Música da Universidade de Cincinnati e mestre em interpretação de piano, Poon Ho Suet regressou entretanto a casa e é hoje professora na Escola de Música do Conservatório de Macau.

Com actuação prevista para sexta-feira, Cheong Hoi Leong estuda Interpretação de Piano com Gabriel Kwok, responsável pelos Estudos de teclado da Academia de Artes Performativas de Hong Kong.  Chan Si cumpre na mesma academia um bacharelato em Interpretação de piano. Ele, leva esta sexta-feira ao concerto “Bravo Macau! II” um programa de Rachmaninoff, com as Variações sobre um Tema de Corelli op. 42. Ela, apresenta um programa que se divide entre Mendelssohn e Prokofiev. Ele e ela iniciaram os estudos de piano em fase precoce, aos quatro e três anos, respectivamente. Na timidez de um e outro desvenda-se a linhagem de músicos que ela carrega na família. E o desejo por ele soprado de “ser pianista”.

As irmãs que escolheram um destino comum, levam esta quinta-feira ao palco do D. Pedro V peças compostas para o universo da dança, de Tchaikovsky, Saint-Saëns e Rachmaninoff. Poon Ho Suet dá conta do tempo de partilha com a irmã, no período em que se cruzaram na mesma faculdade: “Quando estávamos nos Estados Unidos tínhamos os mesmos professores, podíamos discutir a nossa música. Não tocamos só duos de piano, mas também música de câmara com outros músicos. É a primeira vez que fazemos um programa com dois pianos cá”.

Em declarações ao PONTO FINAL, as duas irmãs deram depois conta do que as distingue na relação com o piano. “Temos estilos diferentes, isso começou a definir-se depois da licenciatura”, conta Poon Ho Tung. “A minha actuação é diferente da da minha irmã, a minha interpretação da música, os detalhes”, acrescenta Poon Ho Suet. O que as afasta reside, afinal, no movimento impresso na ponta dos dedos: “O nosso toque no piano é diferente porque aprendemos diferentes técnicas no mestrado. A minha é a escola francesa, mais fluída”, diz Poon Ho Tung. “A minha é a escola alemã, mas agressiva, de batida forte”, exemplifica Poon Ho Suet, enquanto simula com os dedos um movimento pungente num piano imaginário.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s