Albergue inundado de luz assinala uma década de lanternas reinventadas

O Albergue SCM rematou ontem as celebrações do Festival do Bolo Lunar, com a distribuição de lanternas, frutas e bolos. Em simultâneo, abriram-se as portas para a 11ª edição da exposição de lanternas de coelhinho. A mostra propõe uma retrospectiva das peças concebidas ao longo da última década, que passaram em Maio por Lisboa, mas integra outras criações concebidas já este ano.

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Fotografia: Eduardo Martins

Sílvia Gonçalves

O olhar deslumbrado das crianças, a inquietude que lhes percorre o corpo, denuncia a expectativa diante das lanternas do coelhinho que vão sendo retiradas das caixas. Alinham-se numa extensa fila, dão conta como podem da ansiedade, em compasso de espera para agarrar a pequena criatura colorida, feita de papel e pequenas rodas, que deslizam depois pelo recinto. O ponto alto das celebrações do Festival do Bolo Lunar, que ontem decorreram no Albergue SCM, só poderia acontecer assim, com a oferenda às crianças que encheram de vida o largo iluminado. A par com a celebração, abriram-se as portas para a mostra anual “Lanternas do Coelhinho – Tradicionais e Criativas, uma Exposição de Carlos Marreiros e Amigos, Parte 11”, em que um punhado de artistas, deste e de outros territórios, revestiu de contemporaneidade e arrojo uma peça cravada de ancestralidade. A mostra engloba uma retrospectiva da última década, apresentada, em Maio, em Lisboa, a que se juntam umas quantas peças concebidas para a presente edição.

Sam Sam enrosca-se no colo da mãe, de cujos braços pendem duas lanternas. Observa em silêncio as dezenas de crianças que a envolvem, naquela que é a sua primeira incursão nas festividades do Albergue: “Viemos cá hoje porque queríamos a lanterna do coelhinho. A Sam Sam adora a lanterna. Este é o primeiro ano que a trago cá, ela tem três anos”, conta Vanessa Lei, mãe da menina de olhos negros que não desmonta o silêncio.

E o que tem de tão especial a lanterna que atravessa gerações? “É uma lanterna tradicional chinesa. Pela sua forma, pelo trabalho manual, pelo modo como é construída. Não é feita em plástico, é toda feita à mão. É muito especial”, explica Vanessa, que admite vir a regressar em cada ano. “Se tiver tempo, irei fazê-lo, sim. Ela está muito feliz”.

Depois de cortada a fita, avança a multidão para a galeria do primeiro piso, onde as 28 lanternas preenchem todas as salas. Do “Coelho Jack O Estripador”, de Farah Marreiros, à “A Vingança do Coelho”, de Umberto (Nico) Zardo, ao “Coelho de Bambú”, de Ung Vai Meng, as lanternas assumem formas, metáforas e simbologias que o imaginário de cada artista consegue comportar.

Bernardo Amorim concebeu a lanterna “A Arca de Noé ou a Invasão dos Coelhinhos Ping Pong”, que carrega uma leitura apocalíptica da humanidade: “A minha ideia foi pegar na base da cenoura, que é o alimento principal dos coelhos, e invertê-la, transformá-la em algo que estava a afundar-se e que levava com ela todos nós, toda a humanidade atrás”. O artista, que trabalha em 3D e reside há dois anos em Macau, estende-se na análise de uma peça só aparentemente pueril e onírica: “Foi mesmo uma visão muito cataclísmica do futuro que se aproxima para todos. E de como nós facilmente – todos nós – temos uma tendência para seguir aqueles que são os bons oradores. A lanterna tem uma espécie de padre no topo, que está a guiá-los a todos para o buraco. É um pouco puxar a atenção para essa ideia da realidade, agora. Que acontece cada vez mais”, explica.

Carlos Marreiros congregrou ao longo da última década os artistas que foram respondendo ao desafio de conceber uma reinterpretação da mais tradicional das lanternas. Ontem coube-lhe mais uma vez recebê-los, tal como à comunidade, que afluiu em massa ao recinto do Albergue. “É uma exposição com 28 lanternas, sendo uma parte significativa uma retrospectiva que exibimos em Lisboa. E depois estão algumas novas, feitas para esta exposição. E quando digo retrospectiva, quero dizer que as primeiras são de 2006. Eu próprio não me lembrava que, a brincar a brincar, já lá vão 10 anos”, admite o arquitecto.

Entre os artistas, outros há que encaixam a arte em ofícios distintos: “Há um general, dois médicos, escritores, jornalistas, designers, engenheiros, e, claro, também artistas plásticos, arquitectos, o presidente do Instituto Cultural. São artistas de Macau, da República Popular da China, de Hong Kong, de Portugal, da Holanda, das Filipinas, de Itália, de França. De Portugal deve ser um quarto da exposição”, assinala.

A intervenção mais ousada e desconstruída sobre uma peça entranhada na cultura chinesa aconteceu de forma gradual, revela o arquitecto e artista: “Macau é uma terra muito conservadora. Eu aprendi com os chineses que mesmo as revoluções são sempre serenas, é uma linha contínua. Portanto, se começássemos logo com coisas muito abstractas, as pessoas não aceitavam”. Algumas das peças expostas são assinadas pelo arquitecto. Entre elas figura “Libai, lanterna do coelhinho”, peça tripartida onde se encontram figuras distantes: “São três estilizações. É o Li Bai, com aquele chapéu típico das dinastias Tang e Song, de onde ele foi um poeta maior. Ao lado está o Fernão Mendes Pinto, que é um coelho que tem um biquinho, ele era um pintaínho. E no sítio do olho está uma cruz de Cristo, isto é o Fernão Mendes Pinto. E o outro ao lado é o Bruce Lee. Acho que não devemos ter o complexo de termos uma aproximação mais intelectual a figuras da cultura pop. Gosto de produzir a contradição”, remata Marreiros.

 

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