“A liberdade de expressão [na imprensa portuguesa em Macau] é total”

Esta quinta-feira, às 19 horas, José Manuel Simões apresenta no auditório do Consulado de Portugal o romance “Deus Tupã”, em que opera um resgate de um Brasil indígena, de uma tribo com quem partilhou o chão durante dois anos. Com a nova obra, o antigo jornalista e professor da Universidade de São José diz encerrar um ciclo de devoção ao Brasil, território de que hoje se sente apartado, numa relação que esmoreceu com o correr dos anos e com a viragem a Oriente. Em Janeiro de 2017 chega aos escaparates um outro livro, que traduz o estudo desenvolvido, em pós-doutoramento, sobre os jornais de língua portuguesa em Macau. Não foi sem surpresa que o investigador se confrontou com um cenário que descreve como de liberdade de expressão total. As conclusões contrariam a  premissa inicial do escritor, que apontava para a existência de constrangimentos, em resultado da dependência financeira dos jornais relativamente ao Governo. No exercício diário de escrita, paira ainda uma personagem feminina em viagem pela Índia, protagonista de um romance que o autor só pretende desvendar em 2018.

 

José de Carvalho Rêgo
Fotografia: Eduardo Martins

Sílvia Gonçalves

Fotografia: Eduardo Martins

 

Neste terceiro livro, “Deus Tupã”, acontece o regresso a um Brasil indígena. Que Brasil é esse?

José Manuel Simões: É um Brasil que é muito pouco conhecido do grande público. Nós sabemos muito pouco do colonizado. A história que chega até nós através dos compêndios resume-se normalmente ao papel do colonizador português e sabemos muito pouco sobre o colonizado, os indígenas que residiam no Brasil e que consideram que os portugueses não são os descobridores, não usam a terminologia ‘descobrimento’ mas ‘achamento’. Eles fazem muita questão, os caciques, os líderes tribais, de usar essa terminologia, o achamento: ‘Porque nós vivíamos aqui. Nós, que ninguém conhece ainda hoje, mas somos os naturais desta terra’. Quando fiz a minha pesquisa para a minha tese de doutoramento, percebi que havia muita coisa que eu gostaria de ter explorado de uma forma mais ficcionada, que obviamente um trabalho de carácter científico não permite. Desde que concluí o meu doutoramento, há seis anos, que fiquei sempre com essa vontade de passar para o papel aquilo que eu imaginava que eram as tribos indígenas no Brasil desde que os portugueses chegaram. Claro que isso obedeceu a alguma pesquisa e obedeceu também a um contacto muito íntimo com os naturais que, ao contarem-me histórias dos seus antepassados, de alguma forma me inspiraram a ficcionar este processo.

 

A tese de doutoramento incidiu sobre o quê?

J.M.S: É em Global Studies. Chama-se “Os índios Potiguara – Memória, Asilo e Poder”, e é de facto um trabalho que tem uma componente histórica muito vincada, que resultou num livro. E que tem essa parte da etnologia, da antropologia, da etno-musicologia muito bem estudada, mas como não há muitos relatos sobre estas vivências da chegada dos portugueses, eu preferi cientificamente não ir por aí. Mas tinha essa imensa vontade que agora exploro em termos de ficção.

 

Que encontros se dão em “Deus Tupã”? Desenrole um pouco a narrativa…

J.M.S: Eu vou contando ao mesmo tempo o que está a acontecer em Portugal, o que está a acontecer no Brasil e o que está a acontecer na tribo. O que está a acontecer no Brasil, e por vezes no mundo, e em Portugal, obviamente é histórico, é investigação, são dados concretos. São vários períodos, que vão exactamente de 1550 a 2010, passa os nossos grandes períodos históricos. E portanto há aspectos que são factuais mas que eu conto como se fossem romanceados. Eu gosto muito desse estilo, transformar a realidade, em termos de linguagem, como se fosse romanceado, mas não é.  Conto, simultaneamente, na mesma época, o que está a acontecer no seio daquela tribo, que é a tribo dos Pitiguaras, que depois, ao ser dizimada, desaparece. Isto não é um facto histórico. A tribo deixou de existir mas depois há uma menina, que é uma sobrevivente. Quando um padre da Baía da Traição, que é uma aldeia fora da tribo, soube que a tribo tinha sido dizimada, ele vai ver o que aconteceu e encontra uma bebé de dois anos. Leva-a para a igreja, cuida dela, ensina-a a ler, tudo ficcionado. Um dia ela apaixona-se por um empregado da paróquia, preto, e o senhor padre diz-lhe que não aceita esse casamento porque índia deve casar com índio, estamos a falar no início do século XX. Eles como queriam ficar um com o outro vão embora e vão à descoberta da floresta. E é no mesmo local onde a tribo dos seus antepassados viveu que Maria, que é o nome dessa personagem, refunda uma nova comunidade indígena.

 

A segunda tribo que refere é que é real?

J.M.S: Sim, são os Potiguaras. Primeiro, era os Pitiguaras. E esta, os Potiguaras, são os que existem.

 

E viveu com eles ao desenvolver o estudo para o doutoramento?

J.M.S: Sim, eu vivi com eles dois anos. Na Aldeia do Galego.

 

É esse período passado na aldeia com a tribo que alavanca este romance?

J.M.S: Exacto, é. Vivi dois anos completos com eles.

 

E o que existe hoje em si dessa imersão no Brasil? De que modo aquele contexto o contaminou?

J.M.S: Eu durante muitos anos era um apaixonado pelo Brasil. Curiosamente, desde que estou em Macau, há oito anos, a minha relação com o Brasil desvanece. Desvanece e torna-se fria, com o tempo. Aquela questão da insegurança, mesmo o comportamento, o jeito do brasileiro, que eu admirava, aquela coisa do abraço, e daquela espontaneidade, hoje vejo isso um pouco como uma certa falsidade. Desvanece-se e de alguma forma perde-se o amor que tenho pelo Brasil, a esta distância. Eu nunca mais voltei ao Brasil, desde que estou aqui. Curiosamente a minha ligação ao Brasil fecha-se também com este livro.

 

Está cá há oito anos. Como se dá a passagem a uma vida académica em Macau?

J.M.S: Eu vim para Macau em 2008 porque tive um convite para ser editor no jornal Hoje Macau, onde fiquei seis meses. Ainda estava numa fase embrionária do doutoramento, o trabalho de campo estava feito. Aqui é que eu entro na parte curricular. Mas eu venho com o jornalismo. Quando chego sou convidado pelo professor Rúben Cabral a criar o curso de Comunicação, de que de algum modo eu me considero o pai, e sou director do curso até hoje. A certa altura percebi que teria que optar por uma carreira ou pela outra. Optei pela vida académica, fiz o doutoramento e desvinculei-me de alguma forma do jornalismo.

 

E sentiu uma identificação com esta face do mundo?

J.M.S: Não, não tenho ainda hoje. Há coisas que aprecio aqui. Aprecio a segurança, aprecio a possibilidade de conhecer o Oriente, aprecio muito a universidade, amo os meus alunos, tenho uma grande ligação ao meu curso. Com Macau não é uma relação de plenitude. É uma relação até de alguns contrastes, não diria amor e ódio, mas é uma coisa assim meio termo. Há muitos aspectos que eu aprecio no Oriente, um determinado ‘low-profile’, uma determinada discrição, mas depois tenho dificuldades com o clima, tenho dificuldades de algum relacionamento mais profundo com as pessoas, portanto não é um espaço em termos pessoais totalmente aprazível. Felizmente a parte profissional continua a manter-me aqui.

José de Carvalho Rêgo
Fotografia: Eduardo Martins

E hoje [ontem] inicia-se um novo mestrado no seu departamento…

J.M.S: É um mestrado em Comunicação e Media. É o primeiro mestrado em jornalismo nesta faculdade e também nasce pelas minhas mãos. A grande razão de sucesso, na minha óptica, do curso de Comunicação e Media, é uma coisa que eu herdei, que fui beber ao Confúcio, quando li uma frase dele que eu acho marcante: “Nós ouvimos e esquecemos, vemos e lembramos e fazemos, aprendemos”. Então essa ideia de ‘learn by doing’, ‘learn by practice’, é o vínculo que torna este curso bem sucedido, é a sua matriz. No mestrado vou ter essa aplicação também. Arranca com 11 alunos.

 

Entretanto, está a terminar um pós-doutoramento?

J.M.S: Ainda não terminei, terminei o livro. Em Novembro termino o pós-doutoramento e em Janeiro lançamos o livro.  

 

É um estudo de caso sobre a imprensa portuguesa em Macau. Em que sentido apontam as suas conclusões?

J.M.S: Há quatro meses de estudo: Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro de 2015, onde eu diariamente faço uma análise aos conteúdos dos cinco jornais. Os cinco jornais são dissecados durante quatro meses. Há depois entrevistas com os directores e alguns proprietários, e com alguns académicos sobre os temas. Eu faço sempre um paralelo com Portugal. Um dos capítulos começou por se chamar “A Ofensiva dos Grandes Grupos Económicos em Portugal” e a relação que isso tem com a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Eu concluo que em Portugal os constrangimentos face a essa liberdade são inúmeros, porque esses grandes grupos económicos criam esses constrangimentos no seio das redacções, enquanto isso em Macau não existe. Existe, sim, uma aparente dependência face ao poder político, na medida em que os jornais só sobrevivem graças aos subsídios governamentais e à publicidade institucional. Sem esta ‘sponsorização’ do Governo, os jornais não sobreviveriam, o que me leva a pensar, num período inicial, que haveria a possibilidade disso gerar igualmente um constrangimento.

 

E instalou-se a surpresa…

J.M.S: Surpreendi-me. Porquê? Porque a liberdade de expressão é, eu diria, total. Eu diria a partir dos títulos, a partir das abordagens, dos conteúdos, não há nenhum constrangimento, essa é a grande conclusão deste livro. A liberdade de imprensa, a liberdade de expressão. Há alguns entrevistados que falam, não de censura, mas de auto-censura. Não sei, deixo em aberto, passo essas opiniões.

 

Concluiu então que a liberdade de imprensa é efectiva no território?

J.M.S: É efectiva, a partir dos conteúdos chego a essa conclusão. Eu tenho um outro capítulo em que faço um paralelismo entre o que era a imprensa, a portuguesa sobretudo, até 1999 e depois de 99. Os constrangimentos existiam, sim, até 99. Essa liberdade de imprensa existia para os jornais chineses, mas não existia para os jornais de língua portuguesa, e hoje acontece precisamente o contrário. Os jornais, aparentemente, por uma falta de domínio da língua, falta de interesse do Governo, ninguém reage. Não tenho nenhuma informação que alguma vez algum elemento do Governo tivesse ligado a algum jornal e reclamasse da primeira página onde está o Chefe do Executivo e o título “Tédio” por baixo. Não há reclamação, não há censura. Foi o que mais me surpreendeu porque estava à espera de uma dependência, inicialmente. Até 1999 existia de facto uma menor, muito menor liberdade de acção dos jornalistas portugueses, do que a partir de 99.

 

Que nome levará este livro?

J.M.S: “Jornalismo Multicultural em Português – Um Estudo de Caso em Macau”. Comecei o pós-doutoramento em meados de 2015, vou terminar em 2017. Está a ser realizado no âmbito de um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

 

Entretanto libertou-se do Brasil, encerrou o ciclo e está já imerso num novo romance, que diz ser o primeiro por inteiro.

J.M.S: É. Há uma coisa curiosa, que é uma narradora omnipresente, uma mulher. Ela é a personagem central e ao mesmo tempo é a narradora, o livro passa-se muito na cabeça dela. É alemã, está sempre a pensar, é uma pessoa muito pragmática, muito racional, e está a ir para a Índia. Ela está a vir de Marrocos, viaja imenso, é uma médica muito conceituada e tem necessidade de, por períodos, largar a profissão, desvincular-se e viajar. Sabemos muita coisa através de dados concretos, são dois países que conheço bastante bem e registei imensos dados. Ainda enquanto jornalista foi há uns 15 anos que passei por lá, no caso de Marrocos ainda mais, 17, 18 anos, pese embora a Marrocos ter ido duas ou três vezes. À Índia só fiz uma longa viagem, terrível. Eu acho que estou a escrever este livro também para resgatar a minha relação com a Índia, que foi péssima.

 

E que avanço conhece já essa narrativa?

J.M.S: Já tem 130 páginas. Será lançado certamente em 2018.

 

E essa personagem feminina, que agora lhe consome as horas, tem nome?

J.M.S: Não quero revelar já.

 

É uma nova viagem?

J.M.S: É uma viagem, de novo. É uma viagem pela Índia, onde ela narra muito o que vê, pensa, não há muitos diálogos. O livro passa-se muito na cabeça dela, o que ela vê, o que ela analisa, o que ela pensa, as revoltas dela, as amarguras, contra a poluição, contra a desnutrição infantil, contra as várias castas. É uma pessoa muito boa, de essência. Tem componentes que não têm nada a ver comigo. É a primeira vez que eu me desvinculo totalmente da realidade, a não ser aqueles dados concretos da minha vivência na Índia, acho que todos os escritores têm um pouco isso, mas de facto tem comportamentos completamente distantes de mim. Eu tive essa necessidade de ser uma figura feminina a narrar, para precisamente lhe dar esse condão ainda mais ficcionado. E estou completamente apaixonado já por este livro, pela história, porque é uma forma de resgatar a vivência terrível que tive na Índia. Não gostei nada da Índia, fiquei doente e aqui está tudo muito bonito no livro. Ela, como é médica, salva as situações.

 

Um acto de contrição, de alguma forma?

J.M.S: Exacto. Um acto de contrição é bonito (risos).

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