Concurso para a Biblioteca Central não reúne consenso entre arquitectos locais

A abertura de um concurso de arquitectura para a nova Biblioteca Central deverá acontecer entre o final deste e o início do próximo ano, com a iniciativa a ser direccionada para o talento local, assumiu Ung Vai Meng. Entre os arquitectos contactados pelo PONTO FINAL há quem duvide da capacidade do Executivo para erguer um concurso público de forma idónea e quem saúde a intenção, alegando que vem qualificar a prestação de serviços de arquitectura.

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Fotografia: Eduardo Martins

Sílvia Gonçalves

Em declarações recentes, Ung Vai Meng assumiu que o concurso para a Biblioteca Central deverá ser, sobretudo, direccionado para os “talentos locais”. O PONTO FINAL falou com alguns arquitectos sobre a opção governativa de dirigir o concurso para os ateliês do território. Mário Duque desconfia da capacidade do Executivo para organizar concursos públicos de forma idónea e assume que não voltará a apresentar uma proposta para a biblioteca, uma vez que o fez no anterior concurso, altura em que, diz, foram apresentadas boas soluções. Adalberto Tenreiro saúda a iniciativa, que diz melhorar a qualidade dos sectores económicos e sociais. Rui Leão considera “salutar” a opção por um concurso local, pois defende que o Governo tem que assumir o seu papel enquanto agente para a qualificação do sector de prestação de serviços de arquitectura.

“[O Governo] nem sequer tem capacidade para fazer um concurso local, quanto mais um concurso internacional. Até à data, todos os concursos públicos que foram feitos, nenhum resultou em nada. O único concurso público que resultou nalguma coisa foi para construir um coelho na exposição internacional de Xangai. O que nós temos em relação a concursos públicos são concursos que são abortados por vícios e por via da prerrogativa do dono da obra de não adjudicar à proposta vencedora”, alega Mário Duque. O arquitecto não acredita que a opção de Ung Vai Meng se traduza numa aposta no talento local: “Não, a única coisa que se passa em relação a concursos públicos é a incapacidade de os organizar de forma idónea”, critica

E porque considera não haver idoneidade nos concursos de arquitectura? “Não há capacidade organizativa. Não se sabe quais os ‘standards’ dos concursos, o que é que se exige a um concurso, o que se exige a uma entidade organizadora, que compromissos é que aí existem”, salienta Mário Duque. O projecto da biblioteca já havia sido sujeito a concurso público em 2008, e posteriormente suspenso, depois de uma investigação do Comissariado Contra a Corrupção. Nenhuma das propostas apresentadas foi aproveitada, tendo agora o Governo optado pela abertura de um novo concurso, o que Mário Duque diz não entender: “Mas porque é que vão pedir às pessoas para pensarem outra vez na mesma coisa, para o mesmo universo de participantes? Já não há paciência”.

O arquitecto, que concorreu em 2008, assume não ter intenção de voltar a fazê-lo: “Não sou capaz de fazer melhor do que aquilo que já fiz. A única coisa que podem considerar é a proposta que já têm, mais nenhuma. Mais nenhuma proposta há-de aparecer da minha parte para aquele edifício”, garante.

Adalberto Tenreiro saúda a opção do Governo de direccionar o concurso para as propostas locais e aponta o exemplo de Hong Kong: “Acho muito bem. Nas obras principais de Hong Kong só as grandes companhias é que podem concorrer. É uma maneira de protegerem o mercado e a economia. É muito comum esta protecção social e económica, que melhora a qualidade de vida dos vários sectores económicos e sociais de cada país e cidade”. O arquitecto fala de “uma prática de concursos que deixou de existir”, e que “é essencial para aumentar a qualidade, para aumentar e treinar a qualidade da arquitectura de várias pessoas, de vários técnicos”. E lembra: “A arquitectura não é feita só por um arquitecto, é feita pelo cliente, pelo construtor. É um fenómeno social de milhares de pessoas. E é bom que isso exista em Macau, como existe noutros lugares. Mas isso é um processo que está a acabar um bocadinho”, alerta.

Tenreiro assume a intenção de voltar a apresentar uma proposta para a principal biblioteca da cidade: “Concorri [em 2008] e concorrerei com prazer”. E com um projecto novo? “Com um novo, sim. Nós crescemos todos, aprendemos mais um bocadinho. E o programa vai ser diferente. Concorrerei a este e a mais, que haja muitos em Macau”.

Também Rui Leão considera positiva a segunda tentativa de lançar um concurso para a biblioteca que será alojada nos antigos edifícios do tribunal e da Polícia Judiciária: “Acho muito salutar que vença a ideia de se fazer um concurso de arquitectura para um edifício que será de referência, que vai de certeza transformar de uma forma significativa a cidade, juntando-lhe as questões do impacto ambiental e da inserção histórica no património”.

A ideia do concurso estar voltado para o designado “talento local” também acolhe a aceitação do arquitecto: “Também acho bastante saudável que seja um concurso para arquitectos locais. Acho que o Governo de Macau tem que entender que é o principal agente para a criação ou qualificação do sector da prestação de serviços, de arquitectura, de projecto, de design”, defende Leão. “Há uma necessidade de se criar uma cultura local, de se criar uma rede sólida de prestação de serviços localmente. Este misticismo em que volta e meia há umas mentes iluminadas que se lembram que têm que ir buscar projectistas a Hong Kong é extremente nociva para Macau”.

Rui Leão, que também participou no concurso de 2008, só decidirá se avança para uma proposta depois de conhecer os trâmites do novo concurso: “É importante que o programa do concurso esteja bem montado, que no passado não estava. É muito importante nós percebermos como é que o concurso vai ser lançado, quais são as condições de trabalho”, sublinha. “Cada vez que um concurso é suspenso ou cancelado é um prejuízo brutal para os ateliês de arquitectura, porque o nosso esforço foi todo para nada. É importante que o Governo perceba que um programa de concurso tem que ser entendido como um contrato, não pode depois ser violado”, remata o arquitecto.

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