Uma nova ortografia para o patuá

 

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Planos para promover o patuá, incluindo uma nova ortografia mais afastada do português e a organização de aulas, foram recentemente apresentados à margem de uma conferência na Universidade de Macau.

De regresso a Macau, o linguista Alan Baxter e o presidente da Associação dos Macaenses, Miguel de Senna Fernandes, foram dois dos oradores da conferência ‘Línguas em Contacto na Ásia e no Pacífico’, dedicada ao multilinguismo e com especial enfoque nos crioulos de base portuguesa da Ásia.

O patuá, derivado do crioulo ‘kristang’ de Malaca e que incorpora português e chinês, foi em tempos língua corrente da comunidade macaense, mas acabou por cair em desuso. Hoje, o dialecto é preservado através do grupo de teatro Dóci Papiaçam di Macau, que encena uma peça por ano maioritariamente falada no crioulo:  “Vou propor refazer o ‘Maquísta Chapado’ [glossário de patuá] e fazer uma coisa revolucionária, que se calhar vai chocar, que é propor uma outra ortografia para o patuá”, disse Senna Fernandes, que dirige o grupo de teatro, explicando que a forma como o patuá é hoje escrito utiliza a ortografia portuguesa.

Segundo o macaense, a grafia portuguesa não permite traduzir o som para quem só domine, por exemplo, inglês ou chinês: “Todo o sistema é português. Não tenho nada contra isso, mas não chega (…) Vai implicar uma nova técnica para abordar a língua, mas não é nada do outro mundo. Porque temos de nos manter teimosamente num sistema que nem todos podem entender”, questionou.

Senna Fernandes garantiu que há um interesse crescente no patuá e não apenas de ‘filhos da terra’. Confrontado com o interesse, por exemplo, de pessoas que vêm de Portugal, o presidente da Associação dos Macaenses confessou dificuldade em aconselhar meios de aprendizagem, já que não há aulas nem manual.

A questão da aprendizagem foi mencionada, no final da conferência, por Alan Baxter, que dirigiu o Departamento de Português da Universidade de Macau entre 2007 – 2011 e é um especialista em crioulos de base portuguesa. Baxter regressou este ano ao território para dirigir a Faculdade de Humanidades da Universidade de São José.

“Acho que seria muito interessante criar um grupo de interesses, com pessoas da comunidade [macaense] e outras pessoas que gostariam de aprender patuá”, disse, garantindo que há material e linguistas, incluindo-se nesse grupo: “Poderíamos fazer bastante”, comentou.

Na Universidade de São José, além de aulas, Baxter tem planos de apoiar o patuá em várias frentes, seja através da cedência de espaço para os ensaios do grupo de teatro e até através da criação de disciplinas de pós-graduação sobre a “conservação da herança intangível linguística”.

Outra ideia avançada – todas ainda no campo das intenções –, é juntar grupos de interessados em Malaca, onde podem aprender o ‘kristang’ de forma mais sistematizada, sendo depois mais fácil, acredita, adaptar o crioulo ao de Macau.

Durante a sua apresentação, Baxter falou de sete crioulos de base portuguesa sobreviventes na Ásia (chegaram a ser 20), com o do Sri Lanka a destacar-se, com cerca de 7.500 falantes, seguido do de Damão, com 4.000.

O linguista alertou para a postura “pouco informada” de algumas organizações não-governamentais ou até oficiais que consideram que os crioulos asiáticos usam “português estragado” ou “português antigo”.

Há, por vezes, disse, uma insistência em ensinar o “português europeu” a comunidades que não o usam, ignorando o crioulo, “de grande valor cultural e linguístico”: “Ao considerar-se que é um ‘português estragado’, entende-se que pode ser consertado. É uma atitude muito comum na Ásia, mas que jamais seria aceite num país como Cabo Verde, por exemplo”, comentou.

“Gostaria de ver mais cuidado por parte das organizações. Não é clara, [por exemplo,] qual a política do Instituto Camões em relação às línguas crioulas”, disse.

 

 

 

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