“Estou a ser cada vez mais afastado de ser um cidadão de Macau”

Uma tela de Filipe Dores foi seleccionada num concurso de aguarelas da International Watercolour Society, em Taiwan. O pintor tem por estes dias o tempo tomado pela preparação da exposição individual que apresentará no próximo ano, a que chamará “Last Day”. Uma mostra onde se condensam memórias da Macau onde cresceu, mas onde hoje diz sobreviver.

Filipe Dores
Painter Filipe Dores 2016/07/27 Photographer: Eduardo Martins

Sílvia Gonçalves

 

Filipe Dores procura em cada dia escapar da cidade invadida de gentes, do turbilhão que invade as artérias e encharca o pensamento de ruído. Habituou-se a caminhar noite dentro, à procura de ruas e lugares que lhe pertenciam em menino, quando o tempo da infância se estica ao infinito. Caminha quando a cidade se acerca da sonolência, numa busca desesperada de vazio e silêncio. A atenção volta-se para a ausência do elemento humano, para o lugar desabitado, para o abandono. Lugares que leva depois para a tela, na pincelada escorrida da aguarela, que a mão teima em dominar. A imagem de uma dessas ruas foi incluída entre as 146 aguarelas seleccionadas no “2016 Taiwan World Watercolour Competition and Exhibition”, que em Outubro serão expostas em Taipé. Ao pintor e escultor falta-lhe a Macau de um outro tempo, a Macau que, diz, está a afastar de si aqueles que a ela pertencem, rendida ao fluir desenfreado dos turistas. Nas horas consumidas pela pintura, atira-se à preparação de uma  exposição individual que se há-de materializar no próximo ano. Não sabe onde, não sabe quando. Mas o título – “Last Day” – aponta para o que será um repositório das suas memórias de uma Macau onde hoje, assume, apenas sobrevive.

Através do vidro, Filipe deita os olhos sobre a rua, alheado do bulício e do rumor em crescendo que o cerca num dos mais agitados cafés da cidade. O artista de 27 anos recua a um início, há um punhado de anos, quando a influência do primo, o também artista José Dores, impôs o contacto com um registo de pintura abstracta: “Naquele momento eu não sabia nada de pintura ou desenho. Era uma maneira mais fácil para mim. Gostei e iniciei-me na pintura”, explica.

De um exercício ocasional, transita para uma prática diária, quando inicia a preparação para os exames de acesso ao Instituto Politécnico, que o afastam da abstração: “Para os exames é preciso uma técnica mais realista, mais figurativa. Comecei com ‘sketches’ e aguarelas. Foi assim que cheguei à aguarela, há cinco anos”. E rapidamente se recolheu no conforto do passado. “Comecei a pensar na minha família, a lembrar-me de quando era criança e ia atrás do meu avô. Ele fazia maquetes de monumentos, de edifícios. Gostei muito daqueles ‘blueprints’ [desenho técnico usado em projectos de arquitectura], aqueles planos desenhados e comecei nesse estilo, nos ‘blueprints’ com mistura de aguarela, e iniciei o meu estilo”.

 

“PRECISO DE UM SÍTIO PARA PENSAR, PARA DESENVOLVER O MEU PENSAMENTO. MACAU TEM MUITA GENTE”

Filipe Dores
Painter Filipe Dores 2016/07/27 Photographer: Eduardo Martins

 

E o caminho fez-se com a aguarela: “É uma técnica, um material muito especial, difícil de controlar. Para mim, é como os carros de corrida: quando andas muito devagar, estás a apanhar seca. Quando andas rápido demais, vais chocar. É preciso encontrar o equilíbrio”.

Das telas ressalta o vazio, a ausência do elemento humano, o lugar desabitado, em profundo contraste com a cidade densamente povoada. O artista justifica assim, a procura do vazio: “Eu preciso de um sítio para pensar, para desenvolver o meu pensamento. Macau tem muita gente. Eu preciso de um lugar. E penso que os coleccionadores em Macau também procuram na pintura silêncio, para manter a diferença face à realidade”.

Filipe Dores dá conta de um processo criativo que passa quase sempre pela caminhada longa e solitária, para captar o silêncio dos espaços: “Ando pelas ruas, a meio da noite. Depois encontro as ruas a que normalmente ia quando era criança. Vou lá e fotografo, mantenho isso como plano de arquitectura. Depois começo a pintar”.

Uma dessas ruas chegou a um concurso em Taiwan: “É um concurso da International Watercolour Society, uma associação que existe em todo o mundo e está em Taiwan também. Foi o ‘2016 Taiwan World Watercolour Competition and Exhibition’. Foram mais de mil artistas a competir e foram seleccionados 146 quadros”. Entre eles, a aguarela a que Filipe chamou “Nothing Left”: “Atrás do Jardim de São Francisco há um monumento muito antigo, verde, creio que é a antiga casa da família Ma. Eu pintei essa rua. Desses 146 saíram 30 finalistas. Eu não estou nesses 30, mas eles vão expôr os 146 trabalhos, a 9 de Outubro. O meu quadro vai lá estar, eu não”.

Filipe –  que já viu dois trabalhos seus premiados no Reino Unido –  não se deslocará a Taipé pois diz ter o tempo tomado com a preparação da exposição individual que apresentará no próximo ano, ainda sem data ou lugar expositivo definidos. O tema, esse, está escolhido e assume significado límpido na cabeça do artista: “O tema é ‘Last Day’. Isso significa ontem, pode ser ontem ou último dia. Também é uma memória de mim em Macau. Porque eu gosto muito de Macau antigo, quando eu vivia, pois agora estou a sobreviver em Macau”. E o que pretende resgatar dessa Macau que diz já não existir? “Vou mostrar momentos de quando era jovem, de quando tinha 10 ou 14 anos”.

Filipe Dores diz-se arredado da cidade onde nasceu e cresceu, filho de mãe macaense, e atirado para longe dos seus lugares de afecto e de pertença: “Está a mudar quase tudo. Dantes eu andava sempre no centro de Macau, agora quase nunca vou ao Leal Senado, àquela área, porque aquela área hoje é dos turistas. Cada vez estamos a ser mais afastados do centro. E estou também a ser cada vez mais afastado de ser um cidadão de Macau”, lamenta o artista.

Filipe Dores inicia agora o último ano do curso de Artes Visuais, na vertente de escultura, no Instituto Politécnico de Macau. A par com a primeira mostra individual, no próximo ano cabe-lhe preparar também a exposição de final de curso, onde deverá optar por trabalhar o mármore. Pintura e escultura cruzam-se, de resto, no mundo íntimo do artista, sem sobreposição: “Aguarela, pedra, mármore, é só um caminho para eu pensar, é uma desculpa para eu pensar, planear ou fazer alguma coisa, e desenvolver o meu pensamento”.

Permanecer numa Macau metamorfoseada afigura-se difícil, mas não encontra Filipe Dores alternativa no caminho: “Não gostaria de viver noutros sítios, porque aqui em Macau há memórias minhas. É aqui que sinto que sou o Filipe Miguel Das Dores. Lá fora, talvez não seja”, remata, antes de rumar ao ateliê, lugar íntimo onde subsiste uma Macau que não se extingue.

 

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