Furar o silêncio sobre a escravatura de hoje

Com o apoio da MGM China, o Centro do Bom Pastor organiza amanhã, entre as 9h30 e as 13 horas, uma conferência sobre tráfico de seres humanos, onde será projectado o documentário “Not My Life”, de Robert Bilheimer. A sessão conta com a intervenção de figuras governamentais e de Juliana Devoy, directora do Centro, que abordará a experiência de acolher raparigas com menos de 18 anos, arrastadas do continente para Macau, onde são forçadas a integrar as fileiras da indústria do sexo.

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Sílvia Gonçalves

Vítimas de exploração e abusos continuados, escravos num tempo em que a palavra soa a anacronismo. O tráfico de seres humanos é hoje realidade transversal a países mais e mais desenvolvidos. Esconde-se em fábricas, campos de cultivo ou na indústria do sexo. Atinge adultos e crianças, que se vêem envolvidos numa teia que asfixia e condena ao silêncio, da qual raras vezes é possível escapar. O Centro do Bom Pastor, em Macau, acolhe desde 2012 raparigas menores de 18 anos, oriundas da China continental e forçadas a integrar redes de prostituição. Depois de um seminário sobre o tema, em 2015, a instituição organiza amanhã, com o apoio de Grant Bowie, director executivo da MGM China, a conferência “Compreender o Tráfico de Seres Humanos a Partir de uma Perspectiva Global e Local”. Durante a sessão será projectado o documentário “Not My Life”, de Robert Bilheimer, que aponta holofotes sobre a realidade do tráfico humano um pouco por todo o mundo.

“Todo o objectivo desta conferência que vamos fazer é para aumentar a consciência [sobre o tráfico humano]. As pessoas têm de tornar-se conscientes, informadas. Se não souberem muito sobre isto, não estarão preocupadas. A não ser que as pessoas em todo o mundo fiquem preocupadas, não haverá muita mudança, vai continuar e até mesmo piorar”. Assim enquadra Juliana Devoy a conferência de amanhã, que conta com mais de 150 inscritos. A missionária, que dirige o Centro do Bom Pastor, assinala o crescimento de uma actividade  ilícita em ascensão quase irrefreável:  “Já subiu do terceiro negócio internacional  mais lucrativo – depois do tráfico de drogas e do tráfico de armas – para o segundo lugar. Portanto, tem aumentado em todo o mundo. Se as pessoas não estiverem informadas, não vão ficar preocupadas com algo que desconhecem”, salienta.

A sessão terá início às 9h30, no MGM, com a projecção do documentário “Not My Life”, onde figura como narradora a actriz Glenn Close: “A primeira parte é a projecção deste filme, que mostra o tráfico em todo o mundo. A maior parte das pessoas pensa que o tráfico não tem nada a ver consigo. Mas quando vemos o que está a acontecer a tanta gente em tantos países, começamos a tomar consciência de que tem muito a ver connosco, porque são nossos irmãos, partilhamos todos uma mesma humanidade”, sustenta Devoy.

Na segunda parte do encontro, haverá lugar a um conjunto de intervenções “conduzidas por pessoas preocupadas”. O discurso de abertura caberá a Lau Tak Hok, representante da secretaria para a Administração e Justiça: “Pedi a diferentes pessoas do Governo para partilharem as suas experiências. Por exemplo, estará presente o chefe da Polícia Judiciária [Chau Wai Kuong], que falará sobre os desafios e as dificuldades que eles enfrentam ao tentar conseguir acusações. Porque o Governo de Macau faz continuamente diferentes coisas para informar as pessoas e para formar o seu próprio pessoal e a polícia, mas eles não conseguem prender e processar os traficantes”.

Presentes estarão ainda Cheang Kam Va, da Comissão de Acompanhamento das Medidas de Dissuasão do Tráfico de Pessoas, que apresentará o trabalho desenvolvido por este organismo governamental: “Vai explicar o que faz esta comissão, quem está nela, qual o seu papel”, adianta a directora do Centro do Bom Pastor. Mas não é só. O painel de oradores integra ainda Choi Man Hong, do Instituto de Acção Social (IAS): “É uma assistente social que está envolvida no aconselhamento de vítimas de tráfico humano que têm mais de 18 anos. Porque nós cuidamos das raparigas que têm menos de 18”.

A manhã culminará com a intervenção de Juliana Devoy, que abordará a experiência de oferecer abrigo a vítimas de tráfico menores: “Eu darei uma explicação breve, para partilhar o que penso sobre estas raparigas com menos de 18 anos, e dizer que espero que possamos fazer mais do que fazemos para ajudá-las”. Após serem detidas pela polícia, as meninas são encaminhadas para o Centro do Bom Pastor, por acordo com o Instituto de Acção Social, explica a religiosa. Devoy dá conta dos casos mais frequentes que lhe batem à porta do abrigo: “Traficar crianças como noutros lugares, esse tipo de trabalho escravo, não temos isso. Mas temos outros. Temos estas jovens raparigas que são exploradas. São da China e são trazidas para Macau para trabalhar na indústria do sexo. Têm 15, 16 anos”, revela.

 

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