Derrubar o tabu: Caritas quer ver questão do suicídio debatida

Silvia Mohr, psicóloga de formação e conselheira da Caritas Macau, considera importante que se fale de suicídio, até porque a questão continua a ser tabu no território. Desde que começou a operar, o ano passado, a linha de prevenção do suicídio coordenada por Mohr já recebeu um total de 195 chamadas.

1-suicidio

A conselheira da representação local da Caritas, Silvia Mohr, considera ser “importante falar de suicídio” para “acabar com o tabu” de que tocar no tema “é mais prejudicial do que benéfico”, defendendo que a prevenção “nunca é demais”.

“A prevenção nunca é demais. É importante falar sobre isso, principalmente entre jovens e adolescentes, porque há uma cultura tendenciosamente pessimista em que a primeira coisa de que falam [quando algo corre mal] é da vontade de morrer”, pelo que “é importante trazer esse assunto [a público] para acabar com o tabu de que falar de suicídio é mais prejudicial do que benéfico”, disse Silvia Mohr à agência Lusa. A conselheira da Caritas coordena uma equipa de 12 voluntários da linha de apoio à vida da Caritas.

A organização presidida por Paul Pun lançou, no Verão do ano passado, uma linha de prevenção do suicídio a pensar nos falantes de inglês e de português, alargando um serviço que presta há mais de 30 anos destinado à comunidade chinesa.

O serviço de apoio, coordenado por Silvia Mohr, brasileira radicada em Macau com formação em psicologia e mestrado em aconselhamento e que fala português, inglês e mandarim, tem registado principalmente casos ligados a diversos tipos de crises.

“A maioria é de desabafo emocional”, por situações relacionais ou por problemas de trabalho ou de saúde, explica a conselheira da Caritas, dando conta de que desde a criação da ‘hotline’ até ao início de Agosto, foram atendidas 195 chamadas. Em 57 “houve necessidade de intervenções: de fazer visitas, acompanhamento a hospitais, a outras instituições de assistência social”, detalhou Silvia Mohr, indicando que seis das chamadas envolveram suicídio. Do outro lado da linha estiveram maioritariamente mulheres.

Para a conselheira da Caritas, “os números significam uma necessidade”, dado que na linha “encontram oportunidade de poder compartilhar que precisam de ajuda”: “É uma resposta ao facto de existirem pessoas necessitadas deste apoio e que o nosso trabalho não é em vão”, realçou.

A título de exemplo, foi buscar notícias recentes dando conta de dois alegados casos de suicídio de dois estrangeiros ocorridos num intervalo inferior a uma semana, o que, a seu ver, mostra que “pessoas que não são da terra também precisam de atenção especial”.

Os trabalhadores não residentes representam mais de um quarto da população de Macau, estimada em 652.500 habitantes.

A ‘hotline’ alargou o horário desde que foi criada, operando, desde o início do mês, das 09:00 às 21:00: “Há o desejo de alargar até às 24 horas, mas não temos recursos nem humanos nem financeiros”, explicou Silvia Mohr.

Já o telefone da linha homóloga chinesa ‘Esperança na Vida’ tocou 9.837 vezes nos primeiros oito meses do ano, segundo dados facultados pela mesma responsável. Do total, 101 casos diziam respeito a pessoas com planos ou pensamentos suicidas, alguns dos quais passaram mesmo dos pensamentos à acção.

A maioria das pessoas que ligou apresentava problemas familiares e mentais – como esquizofrenia ou distúrbios de personalidade – havendo também problemas do foro económico.

Das pessoas que falaram sobre suicídio, as razões mencionadas foram nomeadamente “vergonha da família por ter feito algo errado, como jogar”, seguindo-se problemas de relacionamento, de saúde e casos de um amigo ou alguém próximo que decidiu colocar termo à sua vida: “A situação de alguém que tem uma pessoa que lhe é próxima que tentou o suicídio e que, portanto, está em choque, com um peso de responsabilidade e não sabe o que fazer para ajudar acontece nas duas linhas”, sublinhou.

Macau registou, em 2015, a mais baixa taxa de suicídio da década: 9,6 por cada 100 mil habitantes), segundo os Serviços de Saúde, com um total de 62 casos de suicídio ao longo do ano passado, contra 71 contabilizados em 2014 e 68 em 2013. No sábado assinalou-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.

A Caritas Macau lançou, por isso, um apelo a todos para que aderiam à iniciativa internacional de colocar uma vela acesa junto à janela pelas 20:00. A ideia é publicar depois uma fotografia no evento social criado pela linha ‘Expat Lifehope’ no Facebook “em memória de quem perdeu a vida ou perdeu alguém para o suicídio”.

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s