Erro do IACM choca residentes que falam português mas não é um caso isolado

O presidente do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais pediu desculpa pela confusão cometida pelo organismo, que trocou no seu portal electrónico a língua portuguesa pela castelhana e promete investigar o caso. Para a comunidade local, o erro é inadmissível, mas não é um caso único e tem as raízes no tempo da Administração Portuguesa.

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João Santos Filipe

O Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) publicou na sua página electrónica um postal em castelhano, desejando ao visitantes uma “Feliz Fiesta de la Luna”, quando pretendia utilizar o idioma português. O erro foi assumido pelo presidente do IACM, José Tavares que, através da página do PONTO FINAL na rede social Facebook, pediu desculpas pelo ocorrido. Segundo o mesmo foi ontem instaurado um processo para apurar as responsabilidades.
A atitude do presidente do IACM mereceu elogios na rede social, mas não faltou quem definisse o erro como “vergonhoso”. Também os membros da comunidade lusófona radicada no território, contactados pelo PONTO FINAL, se mostraram críticos com o caso: “Não tenho palavras para o erro… Aquilo nem é bem um erro, um erro seria ter uma letra trocada. Aquilo é simplesmente confundir uma língua com a outra… É imperdoável”, disse Fernando Gomes, antigo presidente do Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas, médico e presidente da Associação dos Médicos dos Serviços de Saúde.
Para Rui Rocha, coordenador do Departamento de Português da Universidade Cidade de Macau, o caso ganha especial relevância por se tratar de um erro cometido pelo próprio Governo: “Fiquei espantado. Mesmo considerando eu o português uma língua subsidiária em relação ao chinês, esses erros não são admissíveis, principalmente na administração pública”, afirmou.
Contudo, erros ortográficos ou expressões incompreensíveis em português não são uma novidade no território. Quando Macau estava sob administração portuguesa estas falhas eram frequentes e ficou famoso caso de uma loja que em 1999, na Rotunda Carlos da Maia, anunciava no letreiro a comercialização de “Passarinhos Quadrúpedes”.

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“Historicamente a língua portuguesa, mesmo na altura da Administração Portuguesa, tinha erros frequentemente. Bastava ler as tabuletas nas ruas. Pode haver a ideia que a língua portuguesa tinha um tratamento privilegiado até 1999 e isso deixou de acontecer. Mas não é verdade”, frisou Rui Rocha.
“É uma mera consequência do que a Administração Portuguesa deixou. Mas também mostra que nunca houve uma preocupação efectiva com o planeamento linguístico do português em Macau, que continua a não haver”, esclareceu.
Para Rui Rocha, a situação tem de ser resolvida com reformas ao nível do ensino básico e secundário, visto que o contacto com a língua portuguesa apenas no ensino superior não garante a proficiência necessária.
Fernando Gomes reconhece igualmente que estes erros existiam no tempo da Administração Portuguesa, porém diz que a exigência deve aumentar: “Apesar da falta, que é pública, de tradutores, o número que temos agora no Governo é superior em relação há dois, cinco anos ou mesmo no período antes da transição. É complicado justificar este erro quando se confunde uma língua com a outra. Mostra uma grande ignorância e estamos a falar de tradutores que têm uma boa carreira e um bom ordenado”, defende.
Fernando Gomes colocou ainda, em tom irónico, a possibilidade da tradução ter sido realizada por um “estafeta”, o que poderia justificar o acontecido. Mesmo assim, sublinhou que na rua há letreiros com erros visíveis e que estes são aprovados e inspeccionados pelo IACM.
Por sua vez, o presidente da Associação dos Macaense e da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, Miguel de Senna Fernandes, definiu o incidente como “lamentável”. Porém o advogado acredita que se ficou a dever a uma falha por parte dos trabalhadores nos escalões mais baixos da hierarquia do IACM, que muitas vezes “não têm uma certa sensibilidade para uma língua que todos os dias ouvimos dizer que é importante para o território”.
No entanto, o advogado destaca que em relação aos primeiros anos após a transição há uma alteração no discurso oficial, que cada vez mais sublinha a importância da língua portuguesa. Uma tendência que Miguel de Senna Fernandes diz estar presente na Assembleia Legislativa, mesmo entre os deputados da comunidade chinesa.

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