“Cá não há essa questão do fotojornalismo. Não se coloca”

Entre 30 de Setembro e 23 de Outubro, a Casa Garden acolhe a exposição de fotografia da 59ª edição do World Press Photo. A iniciativa é da Casa de Portugal, que desde 2008 traz a Macau os trabalhos premiados do concurso fundado em Amesterdão, em 1955. Diana Soeiro, coordenadora da instituição, assinala, contudo, a desvalorização a que está votado o fotojornalismo na imprensa local, onde são quase sempre os jornalistas a assumir uma função que não lhes pertence.

Sílvia Gonçalves

Nos braços estendidos de um refugiado, o corpo de um bebé. Entregue, através do arame farpado de uma vedação, às mãos que o acolhem, na fronteira entre a Hungria e a Sérvia. A imagem, a preto e branco, foi captada por Warren Richardson, fotógrafo freelancer australiano que, em Agosto de 2015, acompanhou noite dentro aqueles que, em fuga da guerra e destruição, seguiam em busca de um novo destino. Fê-lo sem recurso ao flash, para não expôr o extenso grupo que, ocultado pela escuridão, procurava escapar das autoridades. A imagem valeu-lhe o prémio de Fotografia do Ano, no 59º World Press Photo, atribuído em Fevereiro deste ano, e ainda o primeiro prémio na categoria Notícias Locais. Esta e todas as restantes fotografias distinguidas no mais prestigiado concurso de fotojornalismo, chegam a Macau a 30 de Setembro, numa iniciativa a que a Casa de Portugal deu início em 2008. Diana Soeiro diz que a passagem da exposição pela Casa Garden cumpre o propósito de promover a fotografia e “contribuir para uma cidade mais cosmopolita”. A coordenadora da instituição aponta ainda o dedo à imprensa local que, além de não valorizar o fotojornalismo, coloca nas mãos dos jornalistas a função acrescida de fotografar.

Dividida em oito categorias temáticas, a edição de 2016 do World Press Photo, que premiou trabalhos realizados em 2015, contou com a participação de 5,775 fotógrafos de 128 países. Entre os 42 profissionais premiados, de 21 nacionalidades, figura o português Mário Cruz, fotógrafo da Agência Lusa, vencedor do primeiro prémio na categoria Assuntos Contemporâneos, com uma série a que chamou “Talibés Modern Day Slaves”. Mário Cruz fotografou rapazes entre os 5 e os 15 anos, meninos entregues a escolas islâmicas, conhecidas como “daaras”, onde a educação corânica se cumpre a par com a obrigatoriedade de mendigar pelas ruas, numa exploração sistemática quase sempre retribuída com violência.

A Macau, a exposição anual do World Press Photo chegou em 2008, com o apoio da Casa de Portugal. Diana Soeiro justifica a iniciativa da instituição com o que diz ser a forte ligação da população à fotografia: “Foi pelo facto de ser uma exposição internacional e de acharmos que podia ser um marco importante para Macau, por estar muito ligada à fotografia. As pessoas aqui gostam imenso de fotografia, têm imenso gosto pelas exposições de fotografia. Mas também por ser uma exposição que anda pelo mundo inteiro, isso pesou muito na decisão”.

A coordenadora salienta o facto de não se tratar de uma exposição direccionada apenas à comunidade portuguesa: “Nós recebemos as legendas em português e em inglês, e depois fazemos as legendas em chinês, porque achamos que é uma exposição que pode chegar a toda a gente. Ela começou aqui, só mais tarde é que passou a existir em Hong Kong também. Nós fomos pioneiros”, ressalta.

Diana Soeiro salienta, contudo, a desvalorização a que está votado o fotojornalismo na imprensa do território, onde a presença de fotojornalistas é quase inexistente. “Quem tira fotografias nos eventos é o próprio jornalista. Com o telefone ou com a máquina que leva, tira a fotografia no evento ou do entrevistado. Cá não há essa questão do fotojornalismo, não se coloca. Não se coloca por parte de quem está ligado aos jornais, à imprensa”, defende. Já por parte da população, insiste, “há imensa curiosidade, tanto que há imensa fotografia. E Macau fica mais cosmopolita, pelo facto de receber esta exposição internacional. Ela passa por mais de 100 cidades, é uma coisa enormíssima”.

A vinda da exposição – directamente de Amesterdão, onde está sediada a Fundação World Press Photo, criada em 1955 – traduz-se em custos que a Casa de Portugal considera expressivos. “São cerca de 150 mil patacas. É um pacote, que inclui a possibilidade de termos aqui a exposição, inclui a viagem do supervisor, inclui obviamente o transporte e o tempo em que a exposição aqui está, que é quase um mês. A par disto ainda temos os custos das traduções, que são significativos. Não pagamos o espaço porque fazemos sempre na Casa Garden”, explica a coordenadora, que conta ainda que, depois de Macau, a mostra segue para Hong Kong. “Nós, como já somos parceiros há mais tempo, temos preferência para que a exposição venha primeiro para Macau. Hong Kong fica sempre depois de nós, nós exigimos isso enquanto parceiro de longa data. A exposição sai daqui a 23 de Outubro e lá é no dia 29”.

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