Estudo revela “clientelismo” na política de Macau

Um investigador de Hong Kong publicou recentemente um artigo científico em que mostra de que forma o clientelismo –  de características locais – acontece na política em Macau.

ver_x07_ChongKingman

 

João Paulo Meneses

Eric King-Man Chong estudou duas associações de base cultural e étnica com sede em Macau – as tongxianghui –  e concluiu que ambas “adoptam políticas clientelistas baseadas em afinidades culturais”, nomeadamente durante as campanhas eleitorais que antecederam as eleições de 2009 e 2013. O investigador denomina, por isso, de “clientes-eleitores” os que votaram nas duas organizações políticas apoiadas por estas duas associações.

As duas tongxianghui são a Fujian Jinjiang e a Guangdong Jiangmen. Ambas serviram de base para eleger diversos deputados à Assembleia Legislativa e constituem, diz Eric Chong, “poderosas máquinas eleitorais com grupos afiliados e ambas construíram longas e estáveis relações de clientelismo com os seus clientes, em vez de se preocuparem em travar batalhas ideológicas” ou com a “dimensão esquerda-direita, como acontece com a opinião pública ocidental”. O autor acrescenta ainda que este crescimento do clientelismo com base nas organizações tongxianghui aconteceu à custa do campo democrático.

As duas organizações políticas em causa são a Aliança de Povo de Instituição de Macau e a União de Macau-Guangdong , apoiadas respectivamente pelas tongxianghui  Fujian Jinjiang e  Guangdong Jiangmen, “poderosas máquinas eleitorais ao actuarem como intermediários [brokers] no processo eleitoral”. Como funcionam? “Maquinando [forging] relações clientelistas entre os chineses tongxianghui, os seus grupos de interesses afiliados e os seus clientes-eleitores, numa relação estável e de longo prazo na RAEM”, escreve Eric King-Man Chong.

A Aliança de Povo de Instituição de Macau elegeu Chan Meng Kam (2005, 2009 e 2013), Ung Choi Kun (2005), Si Ka Lon (2013) e Song Pek Kei (2013). Já a União de Macau-Guangdong colocou no hemiciclo Zheng Anting (2013) e Mak Soi Kun (2009 e 2013). Os seis são descritos como “exemplos claros  de como as redes de clientelismo e o papel e funções  dos intermediários operam nas eleições da RAEM”.

CARACTERÍSTICAS LOCAIS

O autor faz questão, por mais do que uma vez ao longo do artigo “Clientelism and Political Participation: Case Study of the Chinese tongxianghui in Macao SAR Elections”, de explicar que o clientelismo de que fala, relativamente a Macau, “é diferente das campanhas eleitorais nas democracias liberais do Ocidente”.

Eric Chong explica o que entende por “relações de clientelismo”, que, aliás, classifica de “clientelismo político de baixo risco”: “Interesse em maximizar trocas, reciprocidade e repetição, a construção de relações estáveis e de longo prazo”. O investigador do Instituto de Investigação de Hong Kong sublinha que, conceptualmente, clientelismo “pode ser diferenciado de corrupção, compra-de-votos ou patrocínio [patronage]”. Mais à frente insiste que “este tipo de trocas podem ser diferenciadas de corrupção no sentido em que por regra vinculam as pessoas de uma forma duradoura”.

Estas duas organizações são “grupos de interesse” que “desempenham um papel muito mais vasto do que organizações semelhantes no Ocidente”, uma vez que são ao mesmo tempo “organizações de negócios, sindicatos e grupos de vizinhos”. Ainda assim, diz o autor, “este artigo mostra que numa relação clientelista, os grupos de interesse de Jiangmen e Jinjiang distribuíram benefícios e interesses materiais pelos seus clientes numa forma que se pode diferenciar de outros concorrentes eleitorais”, seja um grupo de vizinhos ou um sindicato.

Eric King-Man Chong estudou depois de que modo se revela, em concreto e no dia-a-dia dos “clientes-eleitores”, este clientelismo, “de que forma as tongxianghui mobilizam os seus apoios clientelistas”.

O académico avança com alguns exemplos: subsidiar e organizar actividades lúdicas, a distribuição dos cabazes com bens de primeira necessidade, proporcionar empregos e informação sobre oportunidades de trabalho e colocar os negócios ao serviço dos “clientes-eleitores”. Aqui o investigador desenvolve a questão dos supermercados de Chan Meng Kam, que apresentam dois preços, um para o público em geral e outro para os membros do “Chan Meng Kam Supporting Club”, uma forma de “clientelismo político para angariar apoiantes entre os clientes habituais”, até porque durante as eleições estes supermercados serviram como “locais importantes para promover os candidatos da tongxianghui de Fujian junto dos clientes habituais”.

1-R-marques-MG_1840

PODEROSAS RELAÇÕES DE MEDIAÇÃO

A abrir as conclusões do artigo publicado há poucas semanas no Journal of Chinese Political Science o autor resume a natureza e o modus operandi das organizações que analisa: “Este estudo permite perceber que as tongxianghui chinesas de Macau conseguem mobilizar um número significativo de apoiantes eleitorais nas eleições directas da RAEM, ao formarem poderosas relações de mediação com os seus clientes, a partir de afinidades culturais, através de grupos de interesse político afiliados, os quais também contribuem para uma estável sociedade clientelista num ambiente sempre em mudança”.

Ao colocarem-se como intermediários entre os seus clientes e as instituições do governo, estas duas tongxianghui funcionam como “as conexões necessárias para obter recursos financeiros e benefícios materiais” (nomeadamente subsídios)

O autor conclui também que estas duas organizações políticas funcionam como “pro-Pequim” e “pro-governo” da RAEM  e que os chineses de Macau “dominam o panorama político de Macau”.

Eric Chong  encontra as bases desta realidade “na promoção de um grande número de jovens e inexperientes funcionários”, por parte da última administração portuguesa, falando mesmo em “nepotismo”, mas sobretudo na explosão da indústria dos casinos, que permitiu “o aparecimento de grupos de interesse que encontraram apoios para além dos campos pró-Pequim e pró-governo”, com milhares de imigrantes a entrarem em Macau. É aí que estão as bases dos tongxianghui, grupos de pessoas com a mesma origem geográfica.

Eric King-man Chong  é co-autor de um outro artigo sobre a mesma temática, publicado também este ano  (“Casino Interests, Fujian Tongxianghui and Electoral Politics in Macao”), juntamente com Sonny Shiu-hing Lo, em que  analisam o papel do deputado Chan Meng Kam na política local,  nos negócios e na  comunidade de imigrantes de Fujian.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s