Como bem fugir aos lugares comuns. O Japão de Ricardo Adolfo

A viver há três anos na capital japonesa, Ricardo Adolfo assumiu o desafio de escrever sobre Tóquio e o modo de estar dos japoneses sem cair em lugares-comuns. Uma luta que nem sempre é fácil, reconhece o escritor

1.Ricardo Adolfo

Como escritor, Ricardo Adolfo “precisa do conforto para chegar a pontos desconfortáveis” e é isso que o Japão, onde vive, lhe oferece: um incómodo que desperta a criatividade mas também suscita o “pânico” de perseguir o exótico e de cair no lugar-comum.

Depois de fazer dos subúrbios de Lisboa e da imigração o foco dos seus romances, Ricardo Adolfo escreveu “Tóquio Vive Longe da Terra”, obra publicada pela Companhia das Letras, inspirado no seu encontro com a cidade onde mora há três anos, um espaço que lhe é estranho, que descreve como estranho, mas que não quis ridicularizar.

A caracterização anedótica, alimentada pela ignorância ou preconceito, “é um problema enorme” para um escritor ocidental na Ásia, reconheceu, em declarações à agência Lusa: “É um pânico que tenho. Acho que Tóquio, o Japão ou até mesmo a Ásia, para quem vem do Ocidente, é perfeito para cometeres esse erro, para teres essa pretensão. ‘Exotificas’ tudo, começas a avaliar como se fosse um postal, com um ponto de vista superior europeu ocidental”, afirmou, à margem da 5.ª edição do Festival Literário de Macau.

Numa cidade onde o seu protagonista se vê em situações como ser alugado para ser marido de alguém, “é difícil de evitar o ponto de vista exterior, se não impossível”, assume. “Agora, tens de ter a calma e a serenidade de gerir aquilo que é exótico, passar o postal e tentar chegar um bocadinho mais além”, comenta.

Para a capa do livro escolheu uma imagem de uma fotógrafa japonesa a levitar: “Acho que é um bocadinho a metáfora de como se vive em Tóquio. Não porque seja uma cidade muito poética mas porque são 18 milhões de pessoas. Constantemente estás a ser tão pressionado que quase não tocas com os pés no chão”, explica Ricardo Adolfo.

Tóquio ofereceu-se como “o ponto máximo” de um desconforto que aprecia: “A experiência de emigração dá-te muito isso, estás bem quando estás perdido, quando percebes ‘Eu não conheço esta cidade, não faço ideia como é que vou ao sítio A, ao sítio B, como é que vou fazer X ou Y’. Só esse desafio é que te dá conforto, é um desafio muito angustiante, que é aquela necessidade de estares constantemente perdido, estares constantemente a reinventar-te”.

Ainda assim, encontra na vida de Tóquio pontos de contacto com Mem Martins: “A imigração é um palco de desnorte constante”, aponta, lembrando que “Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas” (publicado pela Alfaguara) conta a história de um casal de imigrantes ilegais em Portugal e que “Tóquio Vive Longe da Terra” fala de um personagem “que está todos os dias perdido”.

A estas personagens e às de “Os Chouriços São Todos Para Assar” (também com a chancela da Alfaguara) une-as o facto de serem “personagens suburbanas”: “Tóquio, até chegar ao Monte Fuji, é um gigantesco subúrbio. Há uma vida de dormir fora da cidade e trabalhar na cidade que é constante. Os problemas básicos são muito parecidos: chegas a casa sempre tarde, os miúdos estão a dormir, tens pouco dinheiro, quando tens trabalho estás a fazer algo de que não gostas”, explica.

A sua predilecção por “personagens mais frágeis, mais marginais” prende-se com “o potencial trágico que trazem dentro delas”, mas também por reflectirem uma realidade que, como escritor, considera importante retratar, particularmente em Portugal: “Há uma desigualdade que se não é discutida, se não é escrita, se não é falada, parece que estamos a gozar”, comenta.

A crise que o país atravessa fez-se particularmente sentir no seu local de inspiração, os subúrbios.

“Os subúrbios de Lisboa cresceram de uma forma fora do normal, havendo um potencial de conflito maior. A maior parte das pessoas não percebeu o que se estava a passar [com a crise financeira]. Um dia tinham mais, noutro dia não tinham dinheiro”, lamenta.

Este tipo de realidade deve ser reflectida nos livros, acredita: “Não o fazer também é um comentário político, ignorares aquilo que se está a passar é uma forma de criticar. Mas prefiro absorver essas tragédias, esses dramas que estão acontecer, e utilizá-los para a escrita, acho que é primordial não passar ao lado”.

 

 

 

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