“A poesia é a mais ciumenta das mulheres”

Recebeu das mãos de José Saramago o primeiro prémio literário com o nome do prémio Nobel, foi elogiado por Herberto Hélder e considerado por muitos como o mais promissor romancista do “fin de siècle” português. Quinze anos fora de Portugal – primeiro na Turquia e depois do Brasil – afastaram-no da ribalta literária, mas não o fizeram esmorecer: com um percurso sólido tanto na poesia como na prosa, Paulo José Miranda continua a encontrar na condição humana a principal razão para escrever. O autor – que viveu em Macau por três meses pouco após a transferência de administração do território entre Lisboa e Pequim e se inspirou na RAEM para escrever “O Mal” – falou ao PONTO FINAL da sua obra e do seu percurso. Para este ano está previsto o regresso aos escaparates com um novo livro de poesia.

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Marco Carvalho

 

Esteve durante muito tempo à margem da máquina que movimenta a literatura em Portugal. Regressa agora à ribalta e aos festivais, mas cumpriu, de certa forma, uma longa travessia do deserto. Como é que olha para este passado, que não é um passado assim tão longínquo? A determinada altura dizia-se mesmo que alguns dos seus manuscritos não arranjavam editor …

P.J.M: Não. Em relação a isso nunca tive problema. Eu estive, realmente, afastado, mas repare que durante esse tempo eu editei três livros em três das quatro maiores editoras em Portugal. Foram lançamentos que não correram bem porque eu não sou, de facto, parece-me um autor para esse tipo de editoras e também porque eu não estava em Portugal. Parece-me que hoje em dia tudo funciona muito com a presença do autor. Ao autor não basta escrever. Tem também que aparecer. Brincando um bocadinho com as palavras: não basta ser, é preciso também parecer. Esse afastamento aconteceu, mas eu edito – não sei se em 2007 ou em 2008 – um livro na Quetzal-Bertrand, “A América”; edito depois em 2009, na Babel, com “O Corpo Todo” e edito, em 2011, com a Leya-Oficina do Livro, o livro “Filhas”.

Cita somente a prosa, porque no campo da poesia foi publicando ou, pelo menos, escrevendo de forma incessante …

P.J.M: A poesia eu parei um pouco nessa altura. Retomei, depois, precisamente em 2013. Eu estive muito tempo sem escrever poesia. Escrevia sobretudo prosa, mas eu também estive afastado um pouco da escrita nesse período no Brasil. Esta também é a realidade. Mas não houve uma rejeição por parte de editoras. Aliás, eu nunca enviei manuscritos: eles pediam-me, contactavam-me. Eu sempre recebi foi convites para enviar alguma coisa. Eu estava sossegado e pediam-me que lhes enviasse algo. Isso foi o que aconteceu tanto com a Bertrand, como com a Leya ou com a Babel. Não houve uma rejeição. Houve um afastamento, isso sim. Mas quando eu recebo o primeiro prémio Saramago, em 1999, eu já não vivia em Portugal …

Esse é, de resto, um episódio curioso, porque andaram à sua procura para o informar de que tinha ganho o prémio …

P.J.M: É verdade. É verdade que não sabiam de mim. Eu estava a viver em Istambul na altura, mas tinha ido para Antália, para o sul, para um festival de cinema com a minha namorada, que é uma grande realizadora de cinema – inclusivamente ganhou o Festival de Tribeca – e estávamos nesse festival. Na altura ela não tinha ainda realizado filme nenhum e estava a tentar fazer as coisas. A meio do festival lembro-me de telefonar à minha mãe para a avisar que não estava em casa, porque tinha deixado Istambul sem lhe ter dito nada. Na altura não havia internet e as comunicações não eram tão imediatas. Liguei à minha mãe e foi quando a minha mãe me diz: “Paulo, telefona ao teu editor. Ele anda à tua procura desesperadamente porque tem uma óptima notícia para te dar, mas fez questão de te dar essa notícia pessoalmente”. Pensei que pudesse ter algo que ver com o prémio, mas estava convicto que ele já tinha sido entregue, que a data do anúncio do vencedor já tinha passado…

O prémio Saramago não teve o impacto que deveria ou que poderia ter tido. Porque é que assim foi? Pelo facto de, como dizia, não estar presente? É essencial, num círculo literário tão pequeno como o de Portugal, participar em festivais e encontros literários …

P.J.M: Eu julgo que não é só Portugal. Eu acho que é o nosso tempo. Hoje – e provavelmente nos Estados Unidos ou em Inglaterra isso já acontece há muito mais tempo – é necessária alguma visibilidade: repare que os escritores aparecem nos lugares mais improváveis. Aparecem, por exemplo, em programas de televisão a falar de livros para pessoas que não leram os livros e com pessoas que não leram os livros. Mas é preciso aparecer. Isto é real. Depois há um outro mecanismo. Ao próprio escritor não basta ter que aparecer. Ele tem que aparecer, mas tem também que ser uma espécie de entertainer. Se ele chegar ali e não cair em graça – e vale mais cair em graça do que ser engraçado – a imagem não passa. Se a imagem não passa, ele não é convidado para mais programas e gera-se aqui uma grande bola de neve. Em Portugal é um fenómeno recente, mas é algo que acontece em todo o lado.

O Paulo José Miranda é, provavelmente, dos escritores mais versáteis da literatura portuguesa contemporânea. Não só vai reinventando a sua obra, como também tem uma voz firme em tudo o que é género, da prosa à poesia, passando pela dramaturgia. Dois anos antes do prémio Saramago, tinha ganho o prémio Teixeira de Pascoaes e no ano passado voltou a receber outro galardão importante, ao conquistar o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores. É difícil conciliar todos estes mundos? É difícil, por exemplo, ser-se genuíno na prosa e na poesia?

P.J.M: Essa é uma boa pergunta por duas razões. A palavra que usa é “conciliar”. Eu não sei se são conciliáveis. É uma coisa muito curiosa. Pelo menos comigo – mas é provável que aconteça com outras pessoas que se dividam, como eu, entre géneros – quando eu estou a escrever prosa, a poesia não aparece. Não aparece, pura e simplesmente. Pelo menos comigo é assim.

O que dá azo a uma outra questão: quando é que a poesia aparece?

P.J.M: Quando eu não estou a escrever prosa. Eu neste momento estou a escrever um grande romance e tento escrever todos os dias. Além disso, tenho várias leituras que tenho que fazer. Há um processo criativo que está programado. Nestas circunstâncias a poesia não aparece. Se eu estiver dias afastado, como por exemplo estou nestes dias, agora que estou aqui, é capaz de algo me visitar. A poesia é a mais ciumenta das mulheres. Não aceita dividir a atenção, pelo menos no meu caso. Para mim, são modos diferentes de escrever, mas acho que fazem parte do mesmo impulso, que é o de questionar o mundo: questionar o mundo e o humano. Com a poesia eu uso recursos que não uso na prosa e vice-versa. Eu tenho expandir esta minha investigação sobre o mundo e o humano de vários modos.

Se a poesia é uma visitação não anunciada, digamos assim, a prosa, no seu caso, é um trabalho laborativo, é um trabalho … Que tipo de impulsos se sente compelido a trabalhar?

P.J.M: São várias coisas. Às vezes pode ser a vontade de concluir um projecto. A minha trilogia, que é a trilogia do século XIX, comecei-a com “Um Prego no Coração”, que tem por base uma carta escrita a Cesário Verde por um filósofo amigo dele em resposta a uma pretensa carta que ele lhe teria enviado. O projecto foi pensado para eu levantar questões sobre a arte e sobre o nosso relacionamento com ela, tendo por base diversos pontos. Um é o do crítico, aquele que escreve ao Cesário Verde. O primeiro livro abordoa o ponto de vista do crítico, no sentido sério da palavra, que conhece do que está a falar, que fala e que escreve bem sobre isso. Em “Um Prego no Coração” é esse o ponto de vista: a forma como este crítico vê a arte, neste caso concreto a poesia. O segundo romance – “Natureza Morta” – é o ponto de vista do criador, do Bontempo na altura em que está a criar o seu “Requiem” e o terceiro – “Vício” – parte do ponto de vista daquele que desiste, que é o caso dos três últimos meses de vida de Antero de Quental. O projecto dele, como ele mesmo dizia, era trabalhar: ou seja, ele ia-se tornar filósofo, finalmente, deixar a poesia e formar uma família fictícia, com a irmã – viúva recentemente – e com a filha de um amigo que se tinha suicidado. Antero de Quental ficou como tutor da rapariga, que ia agora sair de um colégio de freiras e ele teria que cuidar dela. Este projecto é pensado. Quando parto para o segundo ou para o terceiro livro não sei como é que o livro será escrito, mas sei como o projecto está estruturado. O mesmo sucede com outros livros. De onde é que a ideia surgiu? Não sei, não faço ideia. O livro que me encontro presentemente a escrever também não sei como surgiu. Há ideias que amadurecem dentro de mim a que depois recorre, mas houve um toque qualquer que me fez despertar e me levou a escrever este livro. Por vezes este toque pode estar até na origem de dois livros ou três. Como isso acontece não sei. Agora, a elaboração isso é completamente diferente da poesia. É um trabalho que é feito diariamente …

Essa é uma questão que gostaria de lhe colocar. Tem a fama de escrever compulsivamente, escrever todos os dias. É um mito? Ou corresponde à verdade?

P.J.M: É um mito. Não escrevo todos os dias. Há é uma coisa: eu de facto escrevo muito rápido. Eu sou capaz de escrever uma tragédia em três dias. Até chegar ali, no entanto, estive dias sem escrever. Há essa questão. Não escrevo todos os dias. Quando estou a escrever um romance, tento fazer com que isso seja assim ou pelo menos todos os dias trabalho nele, seja de um modo ou de outro. Ou a escrever ou a ler ou a pensar no romance. Escrever mesmo todos os dias não escrevo. O que não invalida que a minha vida seja escrever.

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É um homem dado a exílios. Cinco anos na Turquia, o Brasil depois durante dez anos. Há algo de Portugal que é uma mágoa? Porquê este afastamento?

P.J.M: Foi por acaso. Esta é a realidade. Fui parar a Istambul por acaso: encantei-me pela cidade, encantei-me com a mulher pela qual me apaixonei e acabei por ficar. Não foi algo que tivesse premeditado. Foi algo que aconteceu. O mesmo sucedeu em relação ao Brasil. Aconteceu assim. Depois, a determinado período, as coisas complicaram-se, mas foi por acaso que tudo isso aconteceu. Não há uma mágoa com Portugal, tal como não há uma mágoa com o Brasil ou com a Turquia. Pelo contrário. Há, de facto, lugares que eu prefiro, mas acho que isso, todos temos. Eu gosto imenso de Istambul, do tempo que lá vivi, do modo como vivi. Mas eu tenho gratas recordações dos lugares por onde passo. Vivi três meses aqui em Macau. Foi quando escrevi o livro “O Mal”. Escrevi depois: aqui foi quando retirei todas as informações que depois deram forma ao livro. Tenho gratas recordações de Macau. Há locais dos quais não tenho recordações tão gratas. Lisboa … Há uma frase do Fernando Savater muito interessante, em que ele diz, a propósito dos nacionalismos: “O nacionalismo é uma coisa que eu não consigo entender. Deve-me faltar qualquer coisa para que eu possa entender o nacionalismo, porque eu não sei como é que alguém pode gostar de Espanha vivendo e sendo espanhol. Eu consigo imaginar alguém que ame a Austrália. Eu adoro a Austrália – os cangurus, o mar, a imensidão – e sabe porque é que eu adoro a Austrália? Eu adoro a Austrália porque eu nunca lá estive. Nunca lá sofri”. Acho este entendimento muito curioso. Como é que se pode gostar do lugar onde se pagam impostos? Onde se sofre? Onde se sofre de amor, se sofre de dor. Como é que se pode gostar de um país nestes termos e ter orgulho nisso? Eu vejo um pouco esta matéria como o Savater. De facto eu não tenho nem orgulho, nem desprezo pelo facto de ser português. Não queria ter outra nacionalidade. Sou português por acaso, como se fosse chinês também o seria por acaso. Acho que tenho a sorte de a minha língua poder ser a mesma de Fernando Pessoa. Tenho a sorte de a minha língua ser a mesma do Pessanha, de a minha língua ser a mesma do Raul Brandão, do Eça de Queiroz, mas se eu tivesse nascido na Alemanha também poderia ter avançado com imensos exemplos. Não tenho qualquer mágoa com Portugal. Acontece que as coisas têm sido assim. Também, pelo facto, de nunca ter tido filhos, isso seja mais fácil também de fazer, porque com filhos a realidade seria outra …

Chegou a estar indocumentado no Brasil. Desleixo, coragem ou loucura? O único caso  semelhante de que tenho memória é o de Agostinho da Silva que, a determinada altura, quase num acto de protesto se desfez da documentação …

P.J.M: No meu caso, pura e simplesmente, o que aconteceu foi que a documentação expirou. Quando eu vivia em Istambul eu tinha um visto de três em três meses. De três em três meses eu saia e renovava o visto. Eu ia à Bulgária ou ia à Grécia ou ia a Chipre do Norte ou ia à Síria. Saia, voltava a entrar e recebia o visto. O Brasil tem uma política de vistos muito estranha: quem chega recebe um visto por três meses, ao fim desses três meses sai e volta a entrar, mas depois tem que estar seis meses fora do Brasil. Como turista, só se pode estar seis meses consecutivos. Os outros seis meses terão que ser passados fora do país e só depois é que se pode voltar. Eu como nessa altura já estava a viver com uma pessoa não quis sair. Acabei por ficar. Nesta altura já não tinha bilhete de identidade, o passaporte expirou depois e as coisas todas acabaram por se complicar.

Viveu em Macau três meses, pouco após a transferência de administração. Via-se novamente a viver nesta nova Macau, onde o supérfluo proliferou e invadiu tudo o que é canto e onde é cada vez mais difícil manter valores como a história e o património?

P.J.M: Eu vivi em Macau por apenas três meses e foi em trabalho. Macau já era território chinês e foi numa altura em que havia muitos portugueses a ir embora, mas este supérfluo já existia há quinze anos. Julgo que Macau é um lugar muito interessante por várias razões: é quase como uma irrealidade. É impressionante como um lugar pequeno, tão longe de Portugal continuou a ser parte de Portugal. Até 99 era administrado por Portugal e num lugar onde as pessoas falam uma língua que é completamente diferente das línguas indo-europeus e onde ninguém fala chinês, é impressionante que este estatuto se tenha mantido sem que as duas culturas quase comunicassem. Dois povos vivem num território pequeno há séculos, sem conseguirem comunicar, sem se entenderem mutuamente e ainda assim permaneceram continuamente em paz. É uma coisa absolutamente extraordinária. É quase como se fosse uma irrealidade. E depois há, ao mesmo tempo, um progresso económico contínuo. É derivado do jogo, mas é uma realidade. A cidade é uma cidade onde não há crise económica. A questão da história é um tanto ou quanto distinta. É uma questão que se prende com a própria China: não sei até que ponto é que a China está interessada em pactuar com a continuidade de determinados símbolos que representem um certo passado colonial. Passa um pouco por aí. Propriamente estão mais interessados no progresso económico do que na manutenção de uma história, que em abono da verdade, não é a história deles. A China de hoje não é a China do Li Bai, do Bai Juyi ou do Du Fu …

Os locais por onde passa quase nunca entram directamente na sua escrita. A distância é boa conselheira para quem cria? Ou não é necessário viver os lugares para escrever os lugares?

P.J.M: Não, é. Alguns, em muitos casos sim. Por exemplo, se não tenho vindo a Macau jamais escreveria “O Mal”. Isso é indiscutível. A pulsação, ganhei-a aqui. Agora estou a escrever um romance em que eu tive de ir durante duas semanas para uma cidade e, não sendo fundamental percorrer as ruas daquela cidade, era necessário fazer isso. Tenho romances – por exemplo, “A Máquina do Mundo” – onde entram vários lugares por onde passei. “A Máquina do Mundo” passa pelo Chipre do Norte, passa também por Istambul, por Hong Kong, por Macau. Passa pelos lugares. Eu acho que é sempre necessário. Há um olhar daquele que vem de fora que é um olhar muito pertinente. Há povos que são mais auto-críticos do que outros. Isso parece-me evidente, pelo que eu tenho visto. O brasileiro, parece-me a mim, pouco auto-crítico.

E o povo português?

P.J.M: É mais crítico, parece-me. Mas depois há áreas em que é um povo complicado. Esse olhar, como lhe referia, é necessário. É estranho, porque eu lembro-me de um site que publicava as opiniões de vários estrangeiros que viviam no Brasil e eles falavam de coisas a que a nenhum brasileiro lhes passa pela cabeça, porque são coisas absurdas para eles e é impressionante como havia xingamentos contínuos em relação aquilo. A maioria fazia isso. Havia uns que riam: achavam graça e percebiam, mas a maioria revoltava-se com aquilo, como se aquilo fosse um mal e não, de facto, uma característica. Eu não tenho também paciência para marcar um jantar em casa e as pessoas chegam uma hora e meia atrasados para o jantar e ainda chegam e ainda pedem um whisky. Não há pachorra. É óbvio. Para eles, o estranho é que tu julgues que eles podem chegar a horas. Mas isto são características dos povos. Não é uma coisa boa, nem é má. Se alguém repara – e quando alguém repara e com humor – os outros por vezes não gostam. Há uma série de escritos que aparecem referidos no meu primeiro livro “Um Prego no Coração” de um aristocrata inglês que vai viver durante um ano ou dois anos em Lisboa e na zona de Sintra e escreve umas “Cartas Portuguesas”: aquilo é absolutamente tremendo e ao mesmo tempo extraordinário. É o olhar de quem vem de fora.

O olhar de quem vem de fora normalmente é sempre mais acutilante. Por falar nisso, viveu o auge do regime de Lula Silva. Como é olha para tudo o que está a suceder no Brasil?

P.J.M: Quando eu cheguei ao Brasil, em 2005, lembro-me de que uma garrafa de azeite Gallo, que em Portugal usámos para cozinhar, custava uns 30 reais. Em 2010, cinco anos depois, custava 10, 12 reais. Eu estou a dar este exemplo, mas podia dar outros. Conheço pessoas que pela primeira vez em muitos anos puderam aventurar-se na compra da sua própria casa, ficando a pagar ao banco. Há de facto um período em que os mais pobres e a classe trabalhadora conseguem progredir, conseguem ter alguma coisa. Depois, enfim, não sei como é chegou a este ponto. A corrupção sempre existiu, mas confesso que me escapa completamente a razão pela qual a corrupção sai debaixo de tudo onde se espreite. A corrupção sempre existiu e parece que a Petrobrás é de todos os partidos. Eu não estou a defender o Partido dos Trabalhadores, mas o que eu não posso deixar é de dizer que o período de Lula foi um período de grande crescimento na vida das pessoas, principalmente para os mais desfavorecidos. Isto é real. Os próprios críticos de Lula também o dizem, só que dizem-no arranjando um outro argumento. Defendem que quem preparou o terreno todo foi o Fernando Henriques Cardoso. Não querendo entrar muito na discussão, porque não se sinto compelido a defender partido nenhum, o que digo é que até pode ser que seja, mas a verdade é que Lula fez um grande trabalho. Com a Dilma, a governação está a descambar. Sinceramente, não acredito que a Dilma seja corrupta. Mais facilmente acredito que o Lula seja corrupto. A Dilma é uma pessoa que não tem quase bens. Foi uma revolucionária no verdadeiro sentido da palavra. Aliás, atacam-na, o que é uma coisa curiosa no Brasil. Ela em Portugal seria uma heroína. No Brasil é atacada por ser terrorista. Em Portugal, mesmo que alguém seja do CDS não vai nunca deixar de atribuir – a não ser que seja um bocado mentecapto – atribuir aos revolucionários de Abril um papel importante e honroso. No Brasil, não. Quem não está associado ao PT vai chamar à Dilma terrorista, porque ela fez parte da resistência à ditadura militar. É uma situação diferente.

Nesse sentido, a literatura deve ter um papel político ou não?

P.J.M: Acho que esse deve ser o papel da literatura, acima de tudo. Eu não tenho nada contra quem faz literatura de entretenimento, mas eu julgo que a literatura deve ser veículo de conhecimento. A literatura deve servir para fazer as pessoas pensarem, para fazer as pessoas reflectir, para nos fazer ver coisas que às vezes sentimos e não as sabemos dizer. Deve ser isto tudo. E tanto pode ser no campo político, quanto no campo estético, como no campo social ou ontológico. Não partilho nada da ideia de que um romance não deve ser político. O que me importa, pessoalmente, é que o romance seja bom. Pode ser político ou não. O essencial é que seja bom, que me faça pensar, que me faça reflectir. Como leitor, tenho o direito de me interessar mais por determinados assuntos do que por outros: à partida, interesso-me mais pela existência humana per si  do que por questões sociais, mas essa é a minha posição. Há romances inseridos como fundo, como um tema social, que depois, inclusivamente até traz outros temas também. A grande diferença, a meu ver, está relacionada com o que fundamenta o romance: não tenho muito por hábito ler romances que servem apenas para entreter.

O prémio Saramago tornou-se um dos principais prémios atribuídos em Portugal. É uma montra? Tem o poder de ser um trampolim? Ou nem por isso?

P.J.M: Não sei. Eu acho que sim. Mesmo no meu caso foi. Ainda hoje me está a perguntar sobre isso, pelo facto de eu não ter atingido a projecção que outros atingiram. Seu eu não tivesse ganho o prémio, nem sequer disso estávamos a falar. É, de facto, uma montra. E é uma montra porque realmente o nome de Saramago é muito grande, é muito forte. Para já é o único Nobel da literatura em língua portuguesa. E depois era um grande escritor. Vencer algo que lhe é associado é evidente que é uma montra.

Dizia que está a trabalhar num grande romance. Para quando é que teremos novidades de Paulo José Miranda?

P.J.M: Em principio será este ano.  Este ano vou já publicar um livro de poesia. Esta questão está já acertada. Só ainda não sei a data: se será agora em Maio, se vai ser em Junho ou se vai ser noutra altura. O livro está pronto, está entregue ao editor e estamos a trabalhar nisso. Há possibilidade também, talvez, de uma peça de teatro. Ela já está escrita e falta saber apenas se ela vai ser ensaiada. Estamos à espera de saber isso. O romance ainda não sabemos. em princípio sairá antes do Natal.

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