Erguem-se as vozes e o lamento perante a escolha de um bispo que não fala português

 

No sábado, o semanário O Clarim noticiou o pedido de resignação do bispo de Macau, aceite pelo Vaticano, que nomeou como seu sucessor o actual bispo auxiliar de Hong Kong. O PONTO FINAL aguardou os fiéis depois da eucaristia de domingo, na Sé. Sobra dúvida e desalento entre os crentes, que questionam a vinda de um prelado que não fala português.

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Retiram-se os fiéis da celebração dominical e rapidamente ecoa o murmúrio entre os que procuram auscultar as razões da retirada, anunciada de véspera, do bispo de Macau. Juntam-se as vozes e a indignação no adro da Catedral. Manifesta-se a surpresa, generalizada, perante as razões invocadas por José Lai Hung-seng, que perante o Papa Francisco justificou o pedido de resignação com “razões médicas e tratamentos médicos”, no ano em que completa 70 anos. O Sumo Pontífice anuiu e nomeou Stephen Lee Bun-sang, bispo auxiliar de Hong Kong, para tomar o lugar ocupado por José Lai desde 2003. No adro da Sé, a borbulhar de dúvida e expectativa, o coro de indignação sobe de tom perante a constatação de que o novo bispo não fala português.

“Acho estranho, não percebi as razões, são de saúde. Setenta anos já é uma idade puxada, há que compreender. Não estava à espera, surpreendeu-me”, atira Carlos Lobo. Sobre o percurso do bispo cessante: “Prefiro não fazer mais comentários”. Multiplicam-se, de resto, aqueles que preferem não se pronunciar. Entre os crentes, ocultados pelo anonimato, há quem revele esperar que o novo bispo “seja mais activo”, que “traga uma outra dinâmica para a diocese”. Dito assim, em tom de confessionário, como quem mastiga uma prece.

Já Maria Pontes, também ela de 70 anos, como o prelado, mostra-se resignada com a partida e aposta na continuidade: “Surpreendeu-me bastante. Acho que são as razões dele, se realmente está com necessidade de tratamento e de descansar, acho que faz bem”. E refere-se a um trajecto que diz estar isento de mácula: “Tem sido um percurso suave e sem polémicas e tem sido sempre uma pessoa muito atenciosa para qualquer solicitação que lhe façamos. Tem tentado conciliar as pessoas. Gostei da actuação dele. Estou cá há mais de trinta anos, recordo-me dele há muitos anos. Tenho pena”. Do novo bispo, que chega do outro lado do delta, espera “que seja activo e que realmente saiba conduzir a Igreja de maneira que se adapte aos tempos actuais. Que continue com a actividade dentro da mesma linha”, conclui.

Maria Assunção Santos, de 76 anos, fala de uma retirada de algum modo esperada: “Não me surpreendeu porque já via que o senhor bispo estava muito cansado, eu também já estou cansada. Conheço-o desde que vim para Macau”. E ao território chegou há cinco anos, ao encontro do filho, trazida pela viuvez. De José Lai, gostava sobretudo que este se fizesse compreender perante a comunidade portuguesa. “Gostava de o ouvir, ele explicava-se bem, em português. Com este que agora vem, já não será assim, porque ele não fala a língua portuguesa”. E no olhar de Maria sobra inquietude e desalento: “Agora como é que vão fazer? Eu estive a pensar na missa, quando ele vier aí falar terá que haver alguém que faça a tradução. Não é muito bem, não. Seria muito bom que o bispo soubesse falar português”, admite.

Há 18 anos que Óscar Noruega, há 27 no território, partilha fé e conforto na Catedral. Na manhã de sol que sucede ao prolongado dilúvio, mostra-se “surpreendido”, busca explicações junto de quem conduziu a eucaristia: “O senhor bispo nunca mostrou nada de debilidade, de saúde, da idade ou coisa parecida”.

À surpresa junta-se o lamento fundo, de quem, nascido em Damão, neto de avô português, há muito luta pela manutenção, dentro e fora dos templos, da língua portuguesa: “Lamento [a saída do actual bispo] por uma razão principal e fundamental. Ouvi que o novo bispo fala inglês, cantonês, mandarim e espanhol. Não fala português”. E questiona: “Será que nunca mais vamos ter um bispo de língua portuguesa? Era muito bom virmos a esta missa, à missa do Galo, à da Páscoa, de Natal ou de Sexta-Feira Santa e ouvir o chinês e o português. Isto é uma perda grande para a Igreja de Macau”.

Ao lamento junta-se a prece: “Eu só espero e rezo para que o bispo Stephen Lee – já estou a tentar pôr o nome dele na cabeça – consiga aprender português. Eu acredito que esse bispo não vai deixar de aprender aquelas palavras que são fundamentais no altar”, anseia. S.G.

 

 

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