“A arte da amamentação perdeu-se”

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Jack Newman, o médico canadiano considerado consensualmente como um dos principais gurus mundiais da amamentação, esteve em Macau para apresentar as vantagens do aleitamento materno. Em entrevista ao PONTO FINAL, o clínico acusa farmacêuticas e fabricantes de leite em pó de mentirem em relação às vantagens das fórmulas lácteas e reiterou a importância do acto de amamentar na construção de laços afectivos mais fortes entre a mãe e o bebé. Newman pronuncia-se ainda sobre a importância da formulação de politicas sociais que possam promover a amamentação e caracterizou, com uma única palavra, a actual Lei das Relações de Trabalho no que toca ao período de licença de maternidade. “É terrível”, diz o especialista.

Marco Carvalho

Como é que algo tão artificial como o leite em pó se tornou um sucesso tão grande um pouco por todo o mundo? Na República Popular da China poucas eram as mães que amamentavam. Como é que isto aconteceu?

Jack Newman – Aconteceu exactamente pelas mesmas razões que aconteceu no resto do mundo. A principal razão pode ser atribuída a médicos que, basicamente, acreditavam que em termos científicos alimentar um bebé com leite em pó era melhor do que amamentar. Em parte, estes médicos acreditavam que as recomendações que emitiam eram verdadeiras porque desconheciam por inteiro o processo. A grande maioria dos médicos continua a desconhecer, de resto. Por outro lado, a publicidade ao leite em pó está em todo o lado. As empresas que fabricam o leite e as fórmulas infantis investem muito em anúncios e em publicidade, recorrendo por vezes a mentiras. Esta publicidade afecta o julgamento das mães de uma forma muito importante. A arte da amamentação perdeu-se. Eu diria que a amamentação é uma opção natural que infelizmente acabou por ser vítima de uma série de mal-entendidos.

Começamos a assistir, ainda assim, a uma espécie de regresso às origens. Há muitas mulheres que fazem questão de amamentar. Porque é que assistimos a esta reabilitação da amamentação? Ou o processo integra uma tendência mais ampla, de valorização dos laços afectivos entre a mãe e o bebé? Em países como a Suécia e a Dinamarca, por exemplo, há cada vez mais mulheres que não estão dispostas a sacrificar a família em prol do sucesso profissional …

J.N. – Há, de facto, uma maior consciencialização no que diz respeito à amamentação. A meu ver, há muitas razões que explicam esta tendência e uma delas prende-se com o facto das mães compreenderem que o leito em pó e as fórmulas infantis não são assim tão maravilhosas como foram levadas a acreditar. Em muitos casos, sentiram que a ligação que tinham ao seu bebé não era tão forte como desejado. Por outro lado, durante os últimos vinte anos foi dada a conhecer muita informação relativa aos riscos inerentes à alimentação com leite em pó e ao modo como estes riscos poderiam ter sido evitados através da amamentação. A partir do momento em que esta informação se tornou pública, muitas mães terão percebido que a amamentação é, sem dúvida a melhor, opção. A amamentação é garantia de uma relação muito especial entre elas e os bebés a que deram vida.

Ainda assim, são muitos os equívocos associados à amamentação …

J.N. – Seguramente. Há muitos equívocos que têm origem na tradição e nos hábitos culturais: se estás grávida, não podes comer isto e não podes comer aquilo. Estas ideias – que são quase dogmas – são pura e simplesmente mentira. A maior parte das mães podem comer o que quer que seja, sem prejuízo para o bebé. Por outro lado, há maus conselhos a serem veiculados por profissionais do sector da saúde, e em particular por médicos, que dizem que os bebés só devem mamar uns tantos minutos em cada seio, de tantas em tantas horas, que os bebés não estão a retirar os nutrientes de que necessitam dos seios da mãe. É um chorrilho de disparates repetido à exaustão. Uma boa parte das mães ficam confusas com informação que o mais das vezes nem está correcta, nem é relevante.

A indústria farmacêutica e as farmacêuticas são responsáveis por um dos lobbies mais fortes do planeta. Este lobby também se faz sentir nesta área da nutrição infantil?

J.N. – Sim. E faz-se sentir de forma notória. Como lhe dizia, há publicidade em todo o lado. Não tive oportunidade de ver anúncios a marcas de leite em pó em Macau, mas em Hong Kong estão em todo o lado. Todas as farmácias têm cartazes em que anunciam que vendem esta e esta marca de leite em pó. São cartazes que exibem fotos de bebés a mamar ou bebés a serem embalados pelas mães e que garantem que os efeitos do leite em pó são maravilhosos. Vi anúncios a marcas de fórmulas infantis nas portas dos táxis, na televisão e em todo o lado. A publicidade funciona. Há equívocos que são fomentados pelas informações erradas facultadas por estes anúncios: dizem que o leite em pó é maravilhoso e que é tão bom como o leite materno. É a mensagem que fazem passar. Há falta de conhecimento por parte de médicos, que continuam a fazer chegar às mães informações muito erradas. E não se trata apenas de médicos. Há muitos profissionais de saúde que se deixam levar pela cantiga. Normalmente, e ainda assim, é aos médicos que cabe a última palavra, porque ainda continuam a ter o poder que é normalmente assacado aos deuses. No meu entender, as mães querem amamentar, mas o desejo de amamentar é muitas vezes minado pelo meio que as rodeia, incluindo as próprias avós que muitas vezes dizem: “Tu foste alimentada com leite em pó e és saudável”. Não é mentira, porque os seres humanos são surpreendentemente adaptáveis. Podemos comer quase tudo e ainda assim continuarmos bem.

E no que diz respeito ao paradigma estético? Há mulheres que colocam de lado a possibilidade de amamentar porque acreditam que ao fazê-lo estão a prejudicar o próprio corpo. Há uma componente de egoísmo neste tipo de decisão?

J.N. – Não. É sobretudo um equívoco. O que faz com que os seios fiquem descaídos é, temo, por um lado a idade e por outro a própria gravidez. Não é propriamente o acto de amamentar. De facto, a amamentação, em muitos casos, preserva a forma dos peitos.

Dizia na sua intervenção que um dos problemas se prende com o facto de muitas mães não saberem amamentar correctamente. Por vezes há problemas biológicos que tornam o processo difícil, como a anguiloglossia (língua presa). Há arte no acto de amamentar? Ou é algo que surge naturalmente?

J.N. – Se deixássemos uma mãe sozinha desde o momento em que engravidou até ao momento em que o bebé nasce, virtualmente todas as mães seriam bem sucedidas no acto de amamentar. Não precisaria de saber muito sobre amamentação. No passado, uma jovem mãe dependia das mulheres que a rodeavam: a mãe, as irmãs e as amigas e era a elas que recorria se se deparasse com dificuldades. Na grande maioria dos casos, ficariam bem. Não é aí que falhamos. É noutros aspectos. Hoje em dia há um número enorme de bebés que nascem através de métodos não naturais. Por vezes é necessário salvar tanto a mãe como o bebé e a intervenção durante o parto é inevitável, mas a maior parte das vezes fazemos cesarianas sem que sejam necessárias, damos às mães injecções intra-venosas e analgésicos de forma completamente supérflua. Como fazemos tudo isto, começamos a interferir com a forma como funciona o processo de amamentação.

Na maior parte dos casos, se um bebé nascer prematuro, será alimentada desde o início com leite artificial. Depois de ser alimentado com fórmula infantil, poucos bebés aceitam com naturalidade o leite materno. Nestes casos, é impossível reverter o processo?

J.N. – Não, não. É possível amamentar um bebé com leite materno depois de ele ter recusado o peito da mãe. Na clínica que lidero no Canadá este é um processo que conduzo com regularidade, mas não é um dado adquirido que todos os bebés prematuros tenham que ser alimentados com leite em pó. Isso é mais um mito. Muitos deles são suficientemente maduros em termos biológicos para serem amamentados de forma natural. Bebés que nascem após as 34 ou 35 semanas de gestação conseguem mamar. Não precisam de leite em pó para nada. Os prematuros extremos, que nascem com peso reduzido, podem precisar do que chamamos de “fortificantes”, componentes que são acrescentados ao leite materno, mas nem isto é uma razão para intervir e para os impedir de mamar.

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Depois há o outro lado do espectro da amamentação, chamemos-lhe assim: o das mães que amamentam até que os filhos já tenham quatro ou cinco anos de idade. Há uma idade razoável para deixar de amamentar? Ou esta questão não se coloca?

J.N. – Se a mãe ainda necessitar e se a mãe estiver disposta a tal, não vejo qualquer problema com isso. A maior parte das crianças deixam de mamar por volta dos três anos e meio, quatro anos. Algumas são perseverantes e podem mamar até aos sete anos. Mas é algo perfeitamente normal. Não há nada de errado com isso. Ajuda a construir uma relação próxima e saudável entre a mãe e a criança.

Essa é uma das questões – a ligação entre o bebé e a mãe – que o levam a defender de forma tão arreigada os benefícios da amamentação, mas não é de todo a única vantagem. Há muitos componentes naturais de grande importância para o desenvolvimento do bebé que apenas podem ser encontrados no leite materno …

J.N. – Exactamente. Nós nem sempre sabemos ao certo como é que estes componentes são úteis ou de que forma ajudam a criança a desenvolver-se. Estes são questões que ainda têm de ser devidamente estudadas. Em alguns casos, parece-me mesmo que não será fácil provar o efeito de algumas destas substâncias. Penso, no entanto, que enquanto existirem diferenças tão grandes entre o leite materno e o leite em pó, devemos ter cuidado ao receitar as fórmulas lácteas de forma rotineira.

Um dos exemplos que mencionou durante a sua intervenção dava conta do caso de uma mãe que se sentia culpada por se ver obrigada a dar leite em pó ao seu filho, depois do pediatra que a acompanhava ter dito que o seu leite estava a deixar a criança adoentada. Esta ideia de culpa é algo frequente da parte de uma mãe que não pode amamentar devido a uma qualquer razão natural?

J.N. – Nem por isso. Quase todas as situações em que uma mãe não pode amamentar poderiam ter sido evitadas, pelo menos a título parcial. São muito poucas, as situações em que uma mãe não pode ou não deve amamentar. Entre estas está a proibição da amamentação devido ao recurso a certos medicamento por parte da mãe, os casos em que a mãe se submeteu a cirurgia com o objectivo de reduzir o tamanho dos seios e por isso não produz leite em quantidade suficiente ou os casos em que a mãe não produz leite em quantidade suficiente por outras razões. Ainda assim, não é de todo impossível o recurso à amamentação. Ainda podemos ajudar aquela mãe a amamentar, mesmo que o bebé não possa ser alimentado em exclusivo com leite materno.

Em que tipo de situações a amamentação representa um risco para a mãe? Elencou algumas que estão sobretudo relacionadas com o bebé. Em que tipo de situações uma mãe deve evitar amamentar? Há alguma complicação médica que faça com que a amamentação não seja de todo aconselhável?

J.N. – Muito poucas. Neste momento não lhe consigo elencar uma única. No caso das mães que têm de se submeter a quimioterapia, alguns dos fármacos utilizados são provavelmente suficientemente tóxicos para prejudicar a criança. Mesmo que se infiltrem no leite em pequenas quantidades, o mais sensato da parte da mãe passa, talvez, por interromper o processo de amamentação.

No entanto, há substâncias que as mães devem evitar se querem que os bebés cresçam sem complicações. É do senso comum que o álcool e o tabaco se reflectem no leite produzido pela mãe….

J.N. – Permita-me que coloque a questão desta forma: um bebé de uma mãe que fuma e que amamenta é um bebé mais saudável que o bebé de uma mãe que não fuma, mas também não amamenta.

A questão da amamentação corresponde sobretudo a uma escolha pessoal, mas há também um aspecto social. Muitas das mulheres que optam por ter filhos são mulheres independentes, com uma carreira própria. Em lugares como Macau não é muito fácil encontrar um equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional. Nem sempre é fácil, por exemplo, encontrar um lugar fora de casa onde se possa amamentar. Esta questão pode ser problemática?

J.N. – Não devia ser um problema. No meu entender, uma mãe deve ser capaz de amamentar em qualquer lado e a qualquer hora. Não conheço ao certo os termos da lei em Macau, mas no Canadá pode amamentar em qualquer lado onde é autorizada, por lei, a sua presença. Se pode frequentar um determinado espaço, então pode amamentar. Aliás, não é sequer permitido dizer que ela não pode amamentar. Se não têm uma lei com esta amplitude em Macau, deviam mudar a lei existente para que tal seja possível.

Não é o caso com os novos complexos hoteleiros, mas a maior parte dos restaurantes e dos serviços privados não têm um espaço que uma mãe possa utilizar para amamentar ou para mudar a fralda a um bebé. Mais grave ainda: este tipo de estruturas nos serviços públicos não são de todo habituais …

J.N. – Digo-lhe o mesmo que lhe disse. No que toca à fralda, pode perfeitamente mudá-la numa casa de banho. Quanto a amamentar, deve fazê-lo à mesa.

E não o fazem porquê? Ainda há uma forte pressão social que faz com que uma mãe tenha vergonha de se expor?

J.N. – Ainda há. Parece-me que sim e devíamos todos agir para mudar isso. As mães têm de se convencer de que ao amamentar estão a fazer o melhor pelos seus filhos e não devem ter vergonha nenhuma da opção que fizeram.

Em Macau há uma outra questão que diz respeito à duração do período da licença de maternidade …

J.N. – É terrível.

A lei prevê apenas 56 dias para a mãe. O pai quase não dispõe de tempo para estar com o filho. Uma licença de maternidade mais vasta pode fortalecer a relação entre a mãe e o bebé?

J.N. – Sim, é uma questão óbvia. Não sei se estava cá, mas referi que no Canadá a licença de maternidade é de 52 semanas. Faz uma diferença enorme no desenvolvimento da criança e no tipo de acompanhamento que a mãe dedica ao bebé. Muitas optam por amamentar porque sabem que terão tempo para isso.

Que tipo de conselho daria às mães de Macau que se encontrem divididas entre a amamentação e o recurso às fórmulas infantis. No Ocidente, para uma boa parte das mães a questão de abrir mão da amamentação nem sequer se coloca. Na China, as circunstâncias são outras e há ainda muitas mães indecisas. Muitas não sabem se devem amamentar ou se devem recorrer a leite em pó…

J.N. – A minha sugestão seria esta: se começaram a amamentar e obtiveram a melhor ajuda e o melhor acompanhamento de forma a que o bebé obtenha na mãe o alimento de que necessita e ainda assim decidirem que a amamentação não lhes enche as medidas, podem deixar de amamentar a qualquer altura. É muito fácil deixar de amamentar. Se começarem a alimentar a criança à base do biberão e depois mudarem de ideias, é muito difícil ter sucesso a amamentar. Quase todos os dias recebo e-mails de mães que mudaram de ideias. O problema é que não é tão fácil como se pensa passar do leite em pó para o leite materno. As mães devem dar a si próprias e aos seus filhos as melhores oportunidades e devem começar com uma aposta na amamentação. Talvez até se venham a surpreender com a possibilidade de virem a gostar tanto de amamentar. São muitas as mães deram a mama a bebés durante anos a fio e sentem-se felizes por o terem feito. O que eu diria a uma mãe indecisa de Macau? Se não sabe ao certo como é, talvez venha a adorar a ideia de amamentar. Porque é que não dá uma oportunidade à amamentação? Como é que sabe que não quer amamentar se nunca o fez antes?

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