“A Mercearia Portuguesa é um projecto de vida, mais do que um negócio”

1. Ivo e Margarida - Foto de Claudia Aranda
Foto de Cláudia Aranda

A “loja mais portuguesa de Macau” comemora o quarto aniversário amanhã com uma prova de vinhos oferecidos pelos parceiros da Palatium. Margarida Vila-Nova e Ivo M. Ferreira – a actriz e o cineasta, companheiros na vida e no cinema, que em 2011 tiveram a ousadia de abrir uma loja tradicional de bairro na cidade dos casinos – revelam alguns dos seus projectos futuros.

Cláudia Aranda 

Ponto Final – Ao fim de quatro anos, valeu a pena abrir a Mercearia Portuguesa?

Ivo M. Ferreira – Abrir a mercearia foi um pretexto para vir para Macau, tanto como vir para Macau foi um pretexto para abrir a mercearia. É um projecto de vida, mais do que um negócio.

Margarida Vila-Nova – Quando pensámos vir para Macau, começámos à procura de um modelo de negócio que fizesse sentido. Quando pensámos na Mercearia Portuguesa passámos a ter um bom pretexto para ir em frente com este plano, que não é só um projecto empresarial, é um projecto de vida. Quisemos e queremos que a nossa vida passe por Macau, em termos pessoais, profissionais, familiares. Até à data tem feito sentido fazer este caminho. Gosto de procurar novos desafios, novos projectos, gosto de me desafiar a mim própria. Eu, perante um abismo atiro-me. Viver a medo, acho muito constrangedor. E estas questões todas, que se colocaram aos 28 anos da minha vida, fez-me acreditar que em Macau podia encontrar outra liberdade, outro espaço para crescer, quer pessoal, quer profissionalmente. E assim foi, fomos crescendo.

I.M. F. – Em Portugal, cineasta-actriz-merceeiros, é uma coisa que não encaixa. Neste lado do mundo são conhecidos filósofos chineses que tinham uma mercearia no andar de baixo. Foi um duplo desafio. A ousadia de fazer algo aparentemente disparatado, aos olhos dos nossos colegas. Mas, estávamos a fazer uma coisa de que gostávamos. Nunca tínhamos feito negócios na vida, mas gostávamos dos produtos, da ideia, do desafio em si.

 – A Mercearia Portuguesa continua a ser a única loja do género na Ásia?

M.V.N. – Sabemos que há marcas que representamos – como a “Couto” – que são vendidas no Japão, em Singapura e Taiwan. Mas, este modelo de loja não conheço.

I.M.F. – Tivemos propostas de franchising para Ho Chi Minh, mas até agora penso que não há outras lojas, senão saberíamos de certeza. Agora, houve marcas que trouxemos, e inicialmente tivemos uma posição proteccionista, porque sabíamos que qualquer empresário com dinheiro para investir poderia rapidamente fazer cópias. No início tínhamos esta ideia muito clara, de ter os produtos em exclusividade. Mas, de repente, estamos a ver marcas que temos aqui e que neste momento estão nos hotéis em Hong Kong. Temos uma marca de doces (compotas), mel.

– Foi a Mercearia Portuguesa que introduziu esses produtos na Ásia?

I.M.F. – Tivemos artigos publicados em revistas de Hong Kong, clientes que, com certeza, foram depois ter directamente com os fornecedores, porque não temos a pretensão nem estrutura para sermos importadores grossistas de mercadorias. Sentimos que somos um bocadinho os embaixadores das marcas portuguesas que nunca estiveram nesta zona do mundo. Mas, também temos todo o prazer em ir procurar outras marcas desconhecidas e começar a trabalhar com esses produtos. Inicialmente, mesmo os nossos amigos eram cépticos em relação à manutenção de um negócio destes. Mas, é o facto da loja ter esta orgânica e este visual que atrai os clientes que vêm de muitos sítios do mundo [sobretudo de Hong Kong, Taiwan, Japão e alguns da China Continental], que nos põem na agenda nos dois dias que estão em Macau. Isso já nos deixa muito contentes. O facto de termos esses clientes – que representam 85 por cento da facturação – permite-nos ter a loja, a funcionar, e devolver à comunidade portuguesa e macaense os nossos produtos.

2. Mercearia Portuguesa - Foto de Claudia Aranda
Foto de Cláudia Aranda

M.V.N. – Uma dos grandes satisfações deste negócio é o reconhecimento dos produtos e das marcas que representamos. A mercearia tem tido uma grande repercussão nos media. Em todos os guias e livros sobre Macau há uma referência à mercearia e aos produtos que representamos. Este reconhecimento é a prova de que o nosso investimento faz sentido e que estamos no caminho certo. Ficamos orgulhosos quando as nossas marcas, através das portas da mercearia, chegam mais longe, e a outros lugares.

– Tencionam expandir a mercearia? Há dois anos lançaram as vendas online e as entregas ao domicílio.

M.V.N. – Agora, em cima da mesa, há outro projecto em que estamos a trabalhar para o próximo ano, no primeiro semestre, que é o resultado da Mercearia Portuguesa, dos produtos que trazemos, é o reconhecimento que a marca Portugal interessa aos consumidores e os produtos portugueses interessam ao cliente. Triplicámos o número de fornecedores desde que a mercearia abriu, porque percebemos a necessidade de re-inventar a loja, renovar a oferta. Na mercearia, no próximo ano, o caminho é crescer fora de portas, através da distribuição de “corporate gifts”. De resto, apenas 15 por cento da nossa facturação são clientes portugueses. Os macaenses gostam de vir à loja comprar, gostam de ver, escolher, de provar, de encontrar a mesma pessoa atrás do balcão que os pode aconselhar. Mas, mais do que as encomendas semanais e as entregas porta-a-porta, o que tem funcionado são as entregas de cabazes (“corporate gifts”).

I.M.F. – De repente, passaram quatro anos e a credibilidade da mercearia ganhou uma outra consistência. Pelo tempo, por ser orgulhamente a loja mais portuguesa de Macau. Por ser, para o nosso gosto, uma loja muito bonita, por se manter com qualidade, com renovação. A loja é pequena, mas às vezes podemos entregar 50 cabazes num dia.

– Em que consiste o novo projecto?

I.M.F. – A mercearia não tem dimensão, nem vocação para degustação. Podemos trabalhar com outras empresas. Queremos que as pessoas provem e conheçam os nossos produtos. É uma parceria. Mas vamos ainda manter segredo durante algum tempo.

M.V.N. – Vamos estender-nos para a gastronomia.

– Vão abrir um espaço novo?

I.M.F. – Sim, é uma parceria. É um espaço de degustação onde as pessoas vão poder se sentar e provar produtos e beber um copo de vinho, com os produtos da mercearia, num espaço lindíssimo, muito especial, em Macau.

M.V.N. – Vamos abrir em 2016, no primeiro semestre.

– Margarida, como foi o teu regresso a Macau, depois de um ano a filmar uma novela que alcançou bastante sucesso, em que eras a protagonista, em Portugal, onde toda a gente te conhece?

M.V.N. – Estava com um pouco de receio, porque em Portugal estava com os amigos, a família. No nosso país encontramos sempre conforto, estava em casa. Mas, quando cheguei a Macau tive a mesma sensação, de estar a regressar a casa. Nunca deixamos de ser imigrantes, mas quando sentimos que fazemos parte da cidade e que a cidade faz parte de nós, e que nos sentimos em casa, podemos ser felizes. Mas, também acho que esta exigência profissional que me obriga a estar entre Macau e Portugal é muito confortável e muito saudável, tenho o melhor dos dois mundos. Em relação a essa questão da notoriedade pública para mim é supérfluo. [Aqui] há a liberdade de poderes ser como és sem juízo de valor, sem preconceito, sem uma ideia preconcebida, gosto de poder levar a minha vida como merceeira, como Margarida.

– Este ano participaste também em “Cartas da Guerra”, dirigido pelo Ivo…

M.V.N. – No último ano, em Portugal, fiz a novela [“Mar Salgado”, da SIC], as “Cartas da Guerra”, um documentário de João Botellho. Em Janeiro, do próximo ano, vou a Portugal filmar “Amor, Amor”, de Jorge Cramez, depois volto a Macau para iniciarmos a rodagem do “Hotel Império”.

– Quando é que começam as filmagens de “Hotel Império”?

I.M.F. – Pelo facto de ter um outro projecto a caminho – “Cartas da Guerra” – só começámos agora a fazer a montagem financeira do filme, que teve o apoio do primeiro “Programa de Apoio à Produção Cinematográfica de Longas Metragens” do Instituto Cultural. É esse o “seed money” que promove a produção do filme. Agora estamos a ir bater às capelinhas todas, que possam dar outro tipo de apoio. Estamos a tentar perceber, com empresas locais, que tipo de facilidades nos podem dar, como filmar numa rua ou num prédio. Acho que é preciso fazer crescer a sensibilidade das pessoas para às questões de produção ligadas ao cinema. Estamos a convocar as entidades que parecem abertas e que têm possibilidades de nos ajudar, não digo apoio financeiro, mas este tipo de facilidades, sem as quais é impossível fazer o projecto avançar. Entretanto, estamos a tentar negociar uma co-produção, com Hong Kong ou a China Continental. O filme também tem uma co-produção portuguesa, com “O Som e a Fúria”, que também está a produzir “Cartas da Guerra”. Mas, temos que honrar o compromisso com o IC e começar a filmar o mais rapidamente possível, isto quer dizer últimos dias de Fevereiro.

– Em que ponto é que está “Cartas da guerra”?

I.M.F. – Estou a acabar a montagem para concorrer a um grande festival brevemente. Se tudo correr bem vai estrear no primeiro semestre do ano que vem num grande festival de cinema, não posso dizer qual porque ainda não sei. Para já o que interessa é o “Hotel Império”, que é um filme sobre Macau. É quase uma carta de amor a Macau, uma carta de entendimento sobre as questões identitárias, da preservação ou da destruição da cidade, sobre esta ideia de erosão urbana, da arquitectura mediterrânica ou de índole portuguesa. É um filme realista, com a comunidade de Macau, chinesa, macaense e portuguesa, passado em 2015, mas que faz uma revisitação dos últimos 60, 70 anos. Por outro lado, é um filme muito dinâmico, com uma dimensão plástica muito forte. Mas o filme tem pouco dinheiro em relação ao orçamento inicial. Por exemplo, precisamos de construir um teatro antigo de bambu, de ópera chinesa. Mas, com 1,5 milhões de patacas do IC não podemos gastar 60 mil num dia para esta cena. Portanto, é um filme que tem esta fragilidade, mas isso não pode empobrecer o filme.

– A Margarida é sempre a protagonista dos filmes do Ivo?

I.M.F. – Por acaso, quando começámos a namorar estava a fazer um filme com outra actriz, a Joana Seixas. Nunca tínhamos trabalhado juntos.

M.V.N. – Fizemos uma peça de teatro, “Irene” [2011] , a curta-metragem “Na Escama do Dragão”, “Cartas da Guerra” e agora vamos fazer “Hotel Império”.

I.M.F. – É um prazer, um alívio, trabalhar com a Margarida porque ela também contamina os outros com a sua energia, a sua dedicação. Acaba por ser muito confortável trabalhar com ela.

– Como é que é trabalhar em conjunto?

M.V.N. – É engraçado, porque é como se conhecesse o projecto intimamente, não sendo pensado, criado por mim. Mas é acompanhar o projecto, que pode durar três, quatro anos. As “Cartas da Guerra” iniciou estava eu grávida do Martim, foi há sete anos. Atravessei sete anos de amor e guerra.

I.M.F. – Cheguei de um festival, do Chile, e entrei em casa estava a Margarida, grávida, a ler o livro “Cartas da Guerra” para a barriga, é assim que começa o filme. A ideia começa aqui e o filme acaba com a Margarida novamente a ler as cartas, agora no filme.

M.V.N. – Estes processos artísticos e de criação são sempre muito duros e difíceis. Em todos os processos que fomos atravessando juntos é sempre curioso acompanhar os projectos e vê-los crescer e ganharem forma, no plateau, no dia da rodagem. É quase comovente chegar ao momento de filmar a cena, que vi a ser reescrita, que saiu do guião, já voltou ao guião, e ver o filme a ganhar forma. Depois o Ivo é um líder muito atento, com muitos pruridos com a sua equipa, muito cavalheiro e diplomata nas suas relações. É engraçado, às vezes, ficar sentada a um canto observar esse jogo de xadrez com que ele vai levando as peças ao seu rei. Muitas vezes não trocamos muitas ideias em relação à cena ou ao personagem, falamos por código. Fomos falando durante longos períodos de tempo destes personagens, que é como se já fizessem parte do meu universo e do meu imaginário. O Ivo diz uma palavra e eu sei qual é o sentido. Depois, ficamos menos marido e mulher ao longo desse tempo e ficamos mais actriz e realizador. É importante que essas relações estejam estabelecidas, para que não se confundam, embora onde começa e acaba o outro é sempre difícil definir.

 

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