“Em Macau, é fácil tornarmo-nos conhecidos. No Japão, é preciso ter talento”

2. Season LaoSeason Lao foi convidado a expor na cidade italiana de Como, na igreja de San Pietro in Atrio, lado a lado com outros 24 artistas de referência mundial, entre os quais se encontram David La Chapelle, Linda McCartney e Chen Lingyang. A seguir, o autor do documentário e do livro “Páteo do Mungo”, deverá apresentar uma segunda exposição em Itália, mas, desta vez, a solo.

Cláudia Aranda

Natural de Macau, Season Lao, é por estes dias um homem feliz. O jovem, nascido em 1987 e criado no Pátio do Mungo – um pátio típico de Macau com mais de 100 anos de história – é um dos 25 fotógrafos convidados a expor até 22 de Novembro na igreja de San Pietro in Atrio, na cidade italiana de Como. Lao vai apresentar o seu trabalho lado a lado com nomes sonantes da fotografia contemporânea: “Esta é uma exposição muito importante para mim, estou aqui com nomes grandes da fotografia”, disse Season Lao ao PONTO FINAL.

Na igreja de San Pietro in Atrio – um lugar antigo, com história documentada desde o ano de 1181, transformado na década de 80 em espaço de exposições – Season Lao apresenta a série “Spirit of Snow”: cenários “puros”, em tons diluídos, quase brancos, impressos em papel artesanal, que são retratos das zonas rurais da ilha de Hokkaido, no Japão.

6 smallOs trabalhos de Season Lao estão agora expostos lado a lado com a estética garrida e glamorosa de David La Chappelle – o retratista irreverente, por vezes chocante e polémico, referência da cultura pop norte-americana – e com as fotografias de Linda McCartney, antiga mulher de Paul McCartney, um dos quatro músicos da mais famosa das bandas britânicas, The Beatles. Autora de retratos de toda uma geração de músicos, Linda McCartney foi a primeira mulher a conseguir ter uma fotografia da sua autoria na capa da revista Rolling Stone, em 1968, com um retrato de Eric Clapton. Há também trabalhos do italiano Maurizio Galimberti, conhecido pelos mosaicos compostos por fotografias tipo polaroid ou da artista contemporânea chinesa Chen Lingyang, de Zheijang.

“L’Uomo Nel Paesaggio” ou “O homem na paisagem” é o tema da mostra que se encontra patente ao público na igreja de San Pietro in Atrio. A ideia nasceu de um livro homónimo publicado pela editora italiana Charles Pozzoni, em Julho deste ano. A exposição retoma e amplia os temas do livro: a relação entre a paisagem do ocidente e do oriente – especificamente da China – centrada na transformação do cenário na era pós-industrial, refere Roberto Borghi, um dos mentores do projecto, num texto online.

Season Lao conta que foram os organizadores quem o contactaram no Japão através das galerias em que está representado. “Fiquei muito surpreendido por me quererem incluir no grupo”. Esta presença na cidade italiana de Como, entretanto, já valeu a Season Lao outro convite para uma exposição, desta vez individual, adiantou o fotógrafo formado em Design de Multimédia pelo Instituto Politécnico de Macau. Lao fez parte, também, do grupo de artistas seleccionados pelo Albergue SCM que viajou até Itália em Maio, para a abertura da 56ª Bienal de Veneza, onde este ano Mio Pang Fei foi o artista convidado para representar Macau.

A magia do Pátio do Mungo

Em Macau, Season Lao começou a dar que falar quando em 2010 lançou um documentário e publicou um livro de fotografia sobre o bairro onde cresceu, o Pátio do Mungo, com os seus centenários edifícios tradicionais com traço arquitectónico de Fujian.

Lao conta que, naquela época era apenas um estudante do curso nocturno da licenciatura de Design de Multimédia no Instituto Politécnico de Macau, interessado na “cultura especial de Macau”. “Ao mesmo tempo comecei a reparar no rápido desenvolvimento económico e num estranho ambiente político, que nos fazia perder a nossa própria cultura”.

Uma ida à Bélgica e a Portugal, por volta de 2008, fizeram-no querer explorar ainda mais a questão da sua identidade: “Comecei a recordar o meu bairro de infância, a vida de cidade pequena, simples, de Macau, sobretudo quando viajei para Évora, que é uma cidade pequena, isolada, em Portugal”.

É por essa altura que Lao tem conhecimento que o seu bairro estava à beira de ser demolido e que os seus residentes já haviam recebido aviso para abandonarem o local. Decide começar a fazer uma recolha intensiva de imagens em movimento e em fotografia sobre o dia-a-dia no bairro, registando aquilo que ameaçava ser os últimos dias dos habitantes num lugar onde Lao se lembrava de ter sido feliz.

Lao gravou o documentário sobre o Pátio do Mungo antes dos inquilinos saírem: “Acho que este trabalho não é apenas uma história sobre uma rua. É também uma reflexão sobre este período de Macau. Senti, então, que tinha que encontrar uma maneira de deixar um legado a Macau, optei por uma via artística”, acrescenta.

O Pátio do Mungo não integra a zona de protecção do Centro Histórico de Macau. Fica perto da Casa do Mandarim e do Largo do Lilau, onde os antigos moradores se iam abastecer de água. Em 2010, o trabalho sobre o Pátio Mungo já se havia tornado bastante reconhecido, com a visualização do documentário e publicação do livro. No mesmo ano, foi adiada a decisão de demolição do Pátio do Mungo. O ano passado, em Maio, foi anunciada a requalificação do bairro, uma iniciativa do proprietário dos 13 edifícios agora devolutos, situados no pátio que liga a Rua do Almirante Sérgio à Rua da Praia do Manduco.

Season Lao acredita que o seu projecto sobre o Pátio do Mungo teve uma grande influência nesta decisão de proteger os 13 edifícios, “que iam ser demolidos para abrir caminho a novos casinos”. “A cultura e a arquitectura tradicionais foram salvas pelo poder da arte e deste projecto”, afirma Lao. O artista diz que vai continuar a fazer arte porque espera contribuir, com o seu trabalho, para a cultura de Macau.

O feitiço da neve

Foi nessa busca por uma forma artística de se expressar que Lao acabou por ir parar ao Japão. “Encontrei uma pequena cidade em Hokkaido, um lugar com apenas 30 mil pessoas, sem desenvolvimento, sem luxo, junto de um vulcão, um lugar que parece perigoso, mas onde as pessoas aparentam saber mais da vida do que em Macau, onde a economia é muito desenvolvida. Senti que este lugar estava próximo da minha filosofia”, adianta.

No Japão, o artista começou a fotografar a paisagem nevada de Hokkaido, onde permaneceu, mesmo depois do sismo e tsunami de Tohoku, em 2011.

O artista, aliás, nunca mais deixou de fotografar as paisagens cobertas de neve, “desafiando o tempo num cenário místico” e de imprimi-las em papel artesanal, que ele próprio aprendeu a fabricar com um outro artista japonês. O artista dedica-se a encontrar “o ‘Zen’ da Mãe Natureza e da humanidade” através de seu projeto “Spirit of Snow” ou “Espírito da neve”.

Para Season Lao, a zona rural de Hokkaido continua a fasciná-lo. Mas, mais importante ainda, é o facto de ser um lugar que lhe permite, à distância, manter a lucidez e clareza na observação da sua cidade: “Acho que é possível aprender e desenvolver técnicas em qualquer lugar. O problema é a perspectiva. Para mim, eu gosto de Macau, mas preciso de distância para poder ver esta cidade, neste momento. Posso explorar Macau e a minha arte com mais liberdade (criativa)”.

O artista é director de arte numa empresa japonesa de design. Acredita que é sempre possível viver da arte, dependendo apenas “do tipo de vida que você quiser levar”. Em todo o caso, “se a motivação é fazer arte para ficar rico, acho que é difícil e o melhor é desistir. Ser um artista de segunda também é difícil. O melhor é ter talento, inteligência, e sorte”, recomenda Lao que, ainda assim, considera que os artistas em Macau “têm muita sorte”.

Em Macau, “há muitas oportunidades de fazer exposições, e é fácil tornarmo-nos conhecidos. É uma sorte. A concorrência é menor, porque não há muitos artistas, por vezes, consegue-se obter apoio por parte do Governo, algumas empresas patrocinam feiras de arte. No Japão é totalmente diferente, um artista novo para conseguir um patrocínio para uma exposição individual, do Governo ou de uma fundação ou de uma galeria, tem que ser mais talentoso”.

Season Lao já expôs no Japão, em cidades como Otaru, Tóquio, Sapporo, Fukushima, Osaka, na Coreia – em Seul, Daegu -, na China, em Shansi, várias vezes em Macau (esteve na Creative em 2013, com uma mostra a solo), em Hong Kong e Portugal, com “Um macaense em Portugal”, que surgiu do seu interesse pela história dos macaenses e sobre a relação entre as culturas cantonense e chinesa, portuguesa e macaense. O artista conta regressar a Macau em 2016, para participar no Salão de Outono, organizado pela AFA (Art for All Society).

Apesar da facilidade que existe para um artista amador se lançar, Season Lao lembra que “o mercado em Macau é muito pequeno, os coleccionadores, as fundações de arte, os críticos, os galeristas, são poucos e não há um sistema de ligação ao mercado internacional de arte contemporânea”. Lao conclui, dizendo que, de facto, não é difícil um artista fazer exposições em Macau, mas, e depois? Ele ou ela têm que partir para a etapa seguinte, e não podem ficar à espera de Macau nem ficar dependentes da cidade para se lançarem em voos mais altos.

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