Os lugares fantasmagóricos de Drummond

CycloneJosé Drummond, artista português radicado em Macau,  integra a lista de candidatos ao The Sovereign Asian Art Prize 2016, com três imagens da série “There is no place like it”. É a segunda participação no prémio de arte contemporânea, depois de uma primeira nomeação em 2012.   

Nos dias curtos de Inverno, não deslizam os corpos na vertigem da montanha-russa voltada ao mar. As estruturas gigantes do recinto, vazio de vida, permanecem estáticas, despojos do frenesim que já por ali fluiu. José Drummond deambulou por Coney Island na estação fria, em Dezembro de 2013, quando o parque mais não era que um “playground” fantasmagórico, onde rangem as estruturas metálicas, mergulhadas na penumbra, sob o céu plúmbeo de Brooklin, em Nova Iorque. Da relação do artista com o silêncio e o abandono do espaço, nasceu um conjunto de 12 fotografias, uma série a que chamou “There is no place like it”. Três dessas imagens – Cyclone, Parachute e Wonderwheel – valeram-lhe uma nomeação para o The Sovereign Asian Art Prize 2016, num regresso ao conceituado prémio de arte contemporânea, depois de ter integrado a lista de candidatos ao galardão em 2012.

“Grande parte da minha obra tem a presença humana. De há dois anos para cá, comecei a interessar-me por estes parques abandonados, estes espaços soturnos, pelo lado do sonho, do espectáculo, mas que quando são despojados do elemento humano, acabam por ser quase monstruosos e apontam exactamente para o quão frágeis nós somos”, explica o artista, nascido em Lisboa.

O nome desta série – que usa a fotografia como suporte -, Drummond foi buscá-lo a um texto de Walt Whitman sobre a cidade que é centro do mundo, um lugar de brilho e glória: “A questão dos parques, dos espaços abandonados – ou o meu projecto futuro das cidades fantasma -, é algo que está em mim. E há qualquer coisa de misterioso no texto de Whitman. Ele faz uma apologia de Nova Iorque, onde as pessoas ganham coragem, onde a vida ferve, e interessou-me pelo contraste e ambiguidade em relação ao espaço que fotografo”.

Com formação artística feita entre Lisboa e Nova Iorque, e que contempla áreas como a pintura, o desenho ou a cenografia, José Drummond incorpora no seu trabalho suportes e linguagens como o filme/vídeo, a fotografia, a instalação, a performance e os objectos, onde nunca se perde o vínculo primordial à pintura. “As disciplinas com que trabalho, eu diria que é tudo pintura. Esta foto [refere-se a Cyclone] tem um lado cromático e pictórico muito forte. Hoje estou muito mais próximo do filme e do teatro do que da videoarte. O meu trabalho tem esse lado da palavra, da narrativa, e através da palavra vem a performance”.

Drummond, que chama aos seus trabalhos “emotion pictures”, acredita que as suas fotografias “têm qualquer coisa de teatral, ficam suspensas entre a realidade e a ficção”. Aos 50 anos, o artista diz-se cada vez mais próximo do existencialismo. “O meu trabalho sempre teve uma tendência vagamente existencial, de questionar a identidade. E acabou por tomar, nos últimos dois anos, características de existencialismo e ‘absurdismo’. Há algo de absurdo no que sentimos, nos nossos choques interiores. Vivemos um momento especial da humanidade: o isolamento, a solidão, o ser humano remetido para a sua insuficiência, pois não está presente na imagem. Estamos cada vez mais distantes uns dos outros, ofuscados por estes impulsos visuais e eléctricos que os pequenos ecrãs nos transmitem”.

Os finalistas do prémio atribuído pela The Sovereign Art Foundation serão conhecidos já em Janeiro. O primeiro prémio, no valor de trinta mil dólares americanos, será entregue ao vencedor a 3 de Junho de 2016. S.G.

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