“Scape” ou a obsessão por desenhar o impossível

Rui Rasquinho and Scape - Foto de Claudia Aranda 2
Foto de Claudia Aranda

O artista plástico português Rui Rasquinho confessa que nunca tinha usado desta forma “obsessiva” tinta da china sobre papel de arroz. O resultado é “Scape”, ou 14 desenhos entre o abstracto e o figurativo que ilustram “paisagens interiores”. A inauguração é a 14 de Outubro, às 19h, na galeria Signum Living Store.

Cláudia Aranda

A maior parte dos trabalhos do artista plástico português Rui Rasquinho que vão estar em exposição a partir da próxima semana na galeria Signum Living Store foi feita em dois meses. “Não dominava a técnica, tinha algumas experiências, mas não dominava o uso da tinta da china em papel ‘zhi xuan’”, explicou o artista plástico em conversa, ontem, com o PONTO FINAL. “Tive que me obrigar obsessivamente a tentar descobrir como fazê-lo”, diz acrescentando que há algumas obras que revelam essa obssessão. “São aqueles desenhinhos mais rendilhados. Houve um que foi feito num dia e meio. Uma loucura”, desabafa.

“Scape” reúne 14 trabalhos de Rui Rasquinho, onze desenhos apresentados em suporte rolo e três livros, que utilizam a tinta da china em papel “zhi xuan” (também chamado de papel de arroz) para ilustrar uma série de “mindscapes” ou “paisagens interiores”, como descreve o autor. Os trabalhos surgem em resposta a um desafio lançado por Clement Cheng, proprietário da galeria Signum Living Store, na Rua do Almirante Sérgio, onde a exposição vai ser inaugurada, em parceria com a revista Macau Closer, no próximo dia 14 de Outubro, às 19h, permanecendo até 31 de Dezembro.

A série de desenhos de “Scape” surgem no contexto de um projecto pessoal mais amplo que o artista plástico português já vem desenvolvendo desde há alguns anos, com recurso a técnicas distintas como a fotografia, vídeo, desenho e pintura. “São linguagens diferentes e estilos e abordagens completamente diversos, mas que falam sobre o mesmo tema”, esclarece Rasquinho.

Neste projecto maior “não há um objectivo preciso”. “Tenho ideias, algumas até são ficcionais”, como aquela de tentar “encontrar uma intersecção entre o abstracto e o figurativo”, explica Rasquinho. Mas, “o facto de ter uma ideia impossível não significa que o processo [para concretizar o conceito] não seja interessante. Isto [este projecto] é o processo, não é o objectivo”, prossegue Rasquinho. Porque “o processo de tentar chegar a essa ideia que é impossível é que tem piada”, adiciona.

Rasquinho, conhecido pelo trabalho de ilustração que publica regularmente na imprensa de Macau – e que conta no seu currículo com obras em banda desenhada, pintura e vídeo – deixa claro que este trabalho “não é, de maneira nenhuma, pintura chinesa”. “Nem poderia ser. Não tenho treino e mesmo que o tivesse teria de ter anos de prática”, explica. “A técnica é completamente outra”, esclarece, admitindo que “pode haver uma coincidência, mas é residual”.

No conjunto dos 14 trabalhos, Rasquinho utiliza elementos temáticos e os materiais usados na pintura chinesa, que “mistura no seu universo”. Este pode incluir detalhes de banda desenhada ou “elementos visíveis parecidos com aqueles que se encontram na natureza como montanhas, pedra, água, fluidos”, mas que “não são uma reprodução da natureza”, esclarece. São desenhos, “nem completamente figurativos, nem completamente abstractos”. “As pessoas têm um espaço enorme de interpretação”, prossegue.

Para não correr o risco de ver o seu trabalho confundido com pintura chinesa, inicialmente Rasquinho evitou a ideia de apresentar os desenhos no formato tradicional chinês de desenho em suporte rolo. “Era colar-me demasiado a um paradigma que queria evitar, porque isto não tem nada a ver com pintura chinesa”. Mas, Rasquinho acabou por se render à técnica dos peritos em moldura chinesa, neste caso o Senhor Ip – o “mestre”, o “decano de Macau”, descreve – e o Senhor Chau Peng Kuong (na foto). Isto porque o papel xuan “enruga”. “Quando se pinta fica completamente encarquilhado, porque o papel absorve a tinta”, explica. Portanto, a única forma de apresentar o trabalho é emoldurá-lo.

Depois de ver as molduras prontas, Rasquinho concluiu que tinha feito uma boa opção. “Os materiais usados, faz sentido que sejam emoldurados. Apesar de não querer uma colagem óbvia à prática tradicional chinesa, acho que faz sentido e funciona”, conclui.

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