“A prioridade em Macau não passa por implementar uma agenda cultural, mas sim uma agenda étnica”

Ao fim de sete anos em Macau, Aurelio Porfiri regressa a Roma. Para o compositor e director coral, os últimos anos foram anos de produção intensa e de fortes conquistas, mas também de desilusão. O músico, que compôs centenas de peças e escreveu mais de uma dezena de livros durante a estadia no território, critica a falta de ambição de quem detém o poder e diz-se vítima de uma “agenda étnica” que em vez de fomentar a competência, alimenta a mediocridade. Porfiri – que trabalhou primeiro como professor universitário e assumiu depois a direcção dos Coros Infantis do Colégio de Santa Rosa de Lima e da Escola de Nossa Senhora de Fátima – olha ainda para o futuro das relações entre o Vaticano e Pequim. A normalização de relações, defende, não se deverá materializar tão cedo.

Marco Carvalho

– Coloca agora um fim a uma página de sete anos da sua vida. Que legado deixaram estes sete anos e deixa Macau na sua carreira e na sua personalidade?
Aurelio Porfiri: O que lhe posso dizer é que quando regressar ao meu país e quando voltar a viver na minha cidade, Roma, com tudo o que tem de artístico, de musical e de cultural, não poderei fingir, obviamente, que estes sete anos nunca aconteceram. São anos que deixaram e deixarão uma impressão muito profunda na minha alma. Ao fim destes sete anos sou uma pessoa diferente. Não sou exactamente a mesma pessoa que chegou a Macau em Agosto de 2008: mudei em muitos aspectos. Em alguns pontos a mudança foi positiva, noutros nem por isso, mas não fui indiferente a estes sete anos em Macau em termos de desenvolvimento pessoal. No que diz respeito à carreira, Macau deu-me a oportunidade para criar e criar em grande quantidade. Compus centenas de novos trabalhos e durante os anos que aqui passei publiquei, se não estou em erro, nove livros em italiano e em inglês. Foram anos muito produtivos. O que é que estes anos significam para a minha carreira em termos de futuro? Não lhe posso dizer, porque ainda não sei ao certo o que vai acontecer quando voltar para Roma. Foram, no entanto, anos remarcáveis, que mudaram a minha vida.

– Dizia que produziu bastante ao longo dos últimos sete anos. Ainda assim, Macau não é das cidades mais inspiradora. É uma cidade confusa, em expansão constante e está longe de ser uma cidade que convida à reflexão. Como conseguiu retirar inspiração de uma cidade com estas características?
A.P: Antes de mais, talvez seja de bom tom oferecer alguma contextualização. Quando diz que Macau é uma cidade em expansão e em desenvolvimento, devo-lhe dizer que isto é algo que eu comecei por ver como menos positivo. Permita que lhe explique. O desenvolvimento de um tumor, por exemplo, é o desenvolvimento de algo que não é positivo. Há desenvolvimento que, pura e simplesmente, não é positivo. Aquilo que temos de nos perguntar a nós próprios é: “Estará Macau a desenvolver-se de forma positiva?”. A minha resposta seria: “Não”. Estou certo que outros não concordam comigo, mas acredito que há quem partilhe da minha opinião. É bem verdade o que diz, no sentido de que Macau não é uma cidade onde se possam desenvolver projectos culturais com facilidade. E porque é que não é fácil? Porque em Macau, a exemplo do que sucede em boa parte da China, o que verdadeiramente importa às pessoas que estão em situações de poder é reforçar uma espécie de agenda étnica. Importa menos fazer um bom trabalho do que favorecer alguns grupos étnicos. É claro que, não fazendo parte destes grupos étnicos, tive de enfrentar muitos problemas. Como é que consegui encontrar inspiração para trabalhar como trabalhei? Encontrei a motivação necessária porque sou teimoso. Sempre que me deparei com problemas, comecei a lutar de forma ainda mais árdua. Devo dizer, ainda assim a verdade e a verdade é que sempre tive alunos maravilhosos. Foram alunos que se desenvolveram de um forma fantástica e que acabaram por ser também a minha inspiração. Cômpus com a intensidade com que cômpus porque sabia perfeitamente que os meus alunos cantariam as minhas composições. Esta é uma das razoes pelas quais compus centenas e centenas de trabalhos. Não trabalhei como trabalhei porque Macau é uma cidade encantadora, mas porque tive a sorte de encontrar alunas muitíssimo inteligentes tanto na secção inglesa do Colégio de Santa Rosa de Lima, como na Escola de Nossa Senhora de Fátima. Não foi difícil criar um vínculo forte com elas. Esta foi a razão pela qual consegui desenvolver o trabalho que desenvolvi. Confesso, ainda assim, que tive muitos problemas, especialmente com os músicos de Macau. Muitos deles – felizmente não todos – mostraram-me desde muito cedo a sua oposição, tal como se opõem a qualquer estrangeiro.

– Em que sentido é que lhe mostraram oposição?
A.P: Opuseram-se no sentido de me isolar. Nunca me convidaram para trabalhar com eles, para conduzir projectos conjuntos. Basicamente colocaram-me a um canto para que não pusesse em questão o que entendem ser o seu poder. De certa forma isso nunca me incomodou porque nunca precisei verdadeiramente de poder para nada. Tenho perfeita consciência do meu valor e nem sequer me dou ao trabalho de me deixar levar por comparações. Continuei a trabalhar como trabalhava, a fazer as coisas do meu jeito, sem prejudicar os outros, mas também não permiti que os outros me prejudicassem. Foi assim durante anos a fio.

– A oposição que referia chega a ser surpreendente, uma vez que o tipo de música que compõe e em que trabalha diz respeito a um universo muito específico. Que se saiba não há muitos músicos em Macau a compor música sacra. Foi, durante sete anos, uma espécie de herdeiro de compositores como Áureo de Castro, dando continuidade a um legado musical com grande tradição em Macau …
A.P: Sim. Quero apenas concluir o meu raciocínio: o problema tem a ver com padrões muito diferentes de exigência. Se for a Hong Kong, encontra bons maestros e bons músicos. Em Macau, esta perspectiva ainda não se desenvolveu. Se discutir esta questão com outros músicos estrangeiros, todos lhe dirão o mesmo: o problema em Macau é que os músicos não têm quem os prepare bem. Veja o meu exemplo. Quando comecei a treinar o coro na escola, o coro desenvolveu-se de forma exponencial. Os estudantes são bons: têm vozes bonitas e são muito inteligentes. O problema é que não há quem os oriente, quem os prepare de forma a que possam florescer. Este é o grande problema de Macau e, como lhe dizia, nem sequer há o interesse de trazer para o território alguém que o possa fazer, porque a prioridade – tanto em Macau, como na China – não passa por implementar uma agenda cultural, mas sim uma agenda étnica. Não importa fazer um bom trabalho. O que importa é quem faz o trabalho e quem faz o trabalho tem que ser sempre necessariamente alguém que integra um certo grupo. Creio que todos saberão a que grupo me refiro.

– Durante estes sete anos em Macau conseguiu criar sinergias com entidades locais no sentido de ter a sua música interpretada, por exemplo, pela Orquestra de Macau? Ou viu os seus esforços sempre recusados?
A.P: Não diria que fui recusado. Sei muito bem que, dada a conjuntura, nunca iriam favorecer a minha pessoa e a minha música. Há muita gente que conhece o meu trabalho. Não quero ir ao ponto de dizer que sou uma figura pública, mas também não sou propriamente um desconhecido. Eles tiveram sempre o cuidado de nunca apoiar os meus projectos, de nunca me abordarem. Sabem que estamos em patamares muito diferentes. Eles querem apenas implementar a sua própria agenda, proteger a sua própria gente e os que pertencem ao seu grupo de amigos. No fundo, é Macau. É uma pequena aldeia com uma mentalidade ainda mais fechada que a mentalidade de algumas pequenas aldeias italianas.

– Os trabalhos que compõe são trabalhos de uma natureza muito espiritual. Como é que olha para uma cidade que encarna na perfeição o protótipo da cidade materialista? É uma cidade onde o dinheiro tem uma forte preponderância…
A.P: De certa forma esse é um aspecto que até é quase poético, de um determinado ponto de vista. Numa cidade em que a questão espiritual é negligenciada e que não é de todo encorajada, o facto de existirem raparigas que cantam de forma tão bela e tão espiritual cria um forte contraste. Este é um dos aspectos que me deram força para continuar. Se for a Roma encontra muitos jovens a cantar música sacra e alguns cantam muito bem. Em Roma sou apenas mais um a fazer esse tipo de trabalho. Apercebi-me de que em Macau estaria a dar continuidade ao legado do padre Áureo de Castro, do padre Schmid, do padre Maberini e, antes de todos eles, do padre Pedrini. Foram compositores que tentaram construir esta bela herança que alia música e espiritualidade. Tentei dar continuidade a isto. Só a história dirá que impacto poderá vir a ter o trabalho que desenvolvi aqui em Macau. Deixo este aspecto nas mãos das pessoas que tenham paciência e boa vontade suficientes para investigar e para tentar perceber a mais valia do trabalho desenvolvido por este italiano entre 2008 e 2015. Eles serão quem estará melhor capacitado para determinar a importância do meu trabalho no contexto da história da música produzida em Macau.

– Referia-se às raparigas com quem trabalhou no Colégio de Santa Rosa de Lima e na Escola de Nossa Senhora de Fátima em termos muito elogiosos. Há talento em Macau? Acredita que conseguiu inspirar algumas destas raparigas de forma a que para elas o canto coral seja uma opção no futuro?
A.P: Quero dizer-lhe a algo a este propósito que me parece importante. Os alunos são imensamente talentosos. Nunca me canso de repetir isto. Nunca direi uma palavra contra a força de vontade dos meus alunos. São imensamente talentosos. Quando cheguei a Macau apercebi-me de que o nível era muito medíocre e quando falava com os professores o que eles me diziam era que os estudantes em Macau não eram muito bons, que não se esforçavam. Ao fim de alguns anos apercebi-me de que o problema não eram os alunos, mas sim os professores. O problema é quem educa: eles protegem-se a eles próprios, dizendo que os alunos não são bons, quando a verdade é que os professores é que não são suficientemente bons. Esta é a razão pela qual os alunos não se desenvolvem. Quando os alunos têm bons professores, os alunos são fantásticos. No meu entender, os alunos de Macau podem rivalizar com os alunos de Singapura e de Hong Kong se forem colocados num patamar que permita o seu desenvolvimento. O problema é que quem tem o poder em Macau não quer desenvolvimento. Estão interessados apenas em desenvolver a sua própria agenda étnica. Peço desculpa em insistir nesta questão, mas parece-me que esta é a questão central. Não sei se lhe posso contar uma pequena história que, a meu ver, descreve bem aquilo que é Macau. Há um indivíduo que vai ao médico e diz ao doutor: “Senhor Doutor, quando toco com o dedo no peito sinto dor. Quando toco com o dedo no braço sinto dor. Quando toco com o dedo na cabeça sinto dor. Sinto dor em todo o lado”. Ao que o médico responde: “Não se preocupe que não tem problema nenhum grave. O seu único problema é que tem o dedo partido”.

O mesmo acontece com Macau. De nada vale olhar para os problemas da educação e a motivação dos alunos quando o problema está no dedo. Como o dedo está partido tudo é doloroso e problemático. O que é necessário é perceber o que é que está partido no sistema e torna tudo tão medíocre. A meu ver, a responsabilidade é deste processo étnico que está em curso. Não importa se as pessoas que desenvolvem determinada trabalho têm o nível desejado para conduzir esse trabalho. Querem é apenas auto-proteger-se. Lembro-me do Chefe do Executivo dizer que o Governo queria encorajar os talentos locais. Dito desta forma, parece uma boa politica, mas a ideia foi desviada e tornou-se sinonimo de um processo de protecção de um grupo étnico. É uma política que não abrange todos os que trabalham em Macau.

 – Esse tipo de distinção é ainda mais flagrante relativamente a comunidades como a filipina e a indonésia, que quase não têm direitos sociais …
A.P: Ouvi da boca de outros expatriados que estão há muitos anos radicados em Macau que o próprio Governo desencoraja a vinda de estrangeiros. O Executivo está a tentar conduzir este processo de uma forma que coloca um único grupo étnico com capacidade para decidir sobre tudo. Não tenho nada contra nenhuma etnia em particular, mas parece-me que esta não é a fórmula indicada para colocar Macau na senda do desenvolvimento. Dou-lhe um outro exemplo. Como sabe, em Itália gostamos muito de futebol. Quando eu era uma criança, a selecção italiana passou anos a fio sem ganhar nada. A determinada altura, a Liga Italiana decidiu abrir o campeonato a jogadores estrangeiros. E o que aconteceu pouco depois? Em 1982, a Itália venceu o Campeonato do Mundo. Como é que foi possível? Foi possível porque os jogadores italianos, quando se viram forçados a jogar com jogadores como Maradona, desenvolveram-se muito mais depressa. O mesmo acontece com Macau. Se a selecção italiana tivesse dito, “Não, temos de proteger os futebolistas italianos”, o mais provável é que Itália que nunca tivesse ganho nada. Este é o problema de Macau. Macau não consegue olhar para as coisas desta forma. Macau continua a passar a mensagem de que o mais importante é proteger, figurativamente, os italianos. No meu entender esta é uma opção estúpida.

– Os jovens que cresceram em Macau durante a última década habituaram-se à ideia de uma prosperidade ilimitada. Para muitos, o simples facto de terem nascido em Macau os qualificava para beneficiarem quase sem esforço dessa prosperidade. É fácil motivar os mais jovens num lugar assim?
A.P: Os mais jovens em Macau não têm muitos estímulos. Por outro lado, e uma vez que há uma mentalidade muito fechada, apercebi-me também que os meus alunos quase não sabem nada sobre o mundo e sobre o que acontece fora de Macau. Sempre exortei os meus alunos, principalmente os mais velhos, a sair de Macau e a correr mundo. Macau não é o mundo. Macau é uma pequena aldeia. Os alunos sabem muito pouco de geografia e de outras matérias. Esta falsa prosperidade que referia ajudou a fazer passar uma falsa mensagem. É importante, ainda assim, operar uma distinção entre prosperidade e crescimento. Em Macau há muita gente a fazer dinheiro de forma que não é propriamente producente. Macau tem vindo a crescer porque depende quase de forma exclusiva do sector do jogo. Como viu, agora que as receitas do jogo começaram a cair, tudo ameaça entrar em colapso. Os residentes de Macau devem perguntar-se a eles mesmos: “Este tipo de desenvolvimento é saudável?”. Quando a crise fez soar os alarmes, o Governo começou a falar de diversificação, mas esse é precisamente o problema. Não se pode diversificar a economia se a cidade não se conseguir desenvolver em termos culturais. Recentemente escrevi um artigo em que comparava a Macau a uma pessoa que queria correr, mas que está ao mesmo tempo amarrado a uma árvore. Está a correr sem sair do sítio.

-A árvore é a indústria do jogo, suponho …
A.P: A árvore é a indústria do jogo, mas também a mentalidade. Uma mentalidade que continua a ser muito fechada. Uma mentalidade que é, a meu ver, uma mentalidade de aldeia. Sinto vontade de rir quando as pessoas dizem que Macau é uma cidade internacional. Hong Kong é uma cidade internacional. Nova Iorque é uma cidade internacional. Roma, ainda que por outras razões, é uma cidade internacional. Temos o Vaticano, por exemplo. Londres é uma cidade internacional, mas não Macau. Macau é uma cidade que, devido a uma certa indústria, é visitada por muitas pessoas, mas Lourdes também é visitada por muita gente de vários países e nem por isso é uma cidade internacional. Uma cidade internacional é uma cidade que fomenta uma mentalidade internacional, que lida com os estrangeiros de uma forma muito aberta. Não é o caso em Macau.

– Os sete anos que passou em Macau foram anos muito produtivos em muitos aspectos. Compôs muito, escreveu muito e tem, se não estou em erro, quatro ou cinco livros para ser publicados, um deles pela Cambridge Scholar …
A.P: Estou a editar uma obra sobre a relação entre a música e o cérebro, que será publicada pela Cambridge Scholar. Recentemente chegou às livrarias uma biografia de um santo, que foi publicada em Itália. Tenho outros dois livros prontos para dar à estampa: um é uma compilação de todos os artigos que escrevi sobre a China e sobre Macau. Este livro será publicado em língua italiana e deve chegar às livrarias em Outubro. Até ao final do ano tenciono publicar ainda uma antologia das minhas novelas teológicas, com pequenas histórias que escrevi baseadas na Bíblia. Estes livros deverão ser publicados ainda até ao final do ano. Estou a terminar um outro trabalho sobre música litúrgica, que dará continuidade a “Il Canto dei Secoli”, que foi publicado há um ou dois anos e que recebeu boas criticas em todo o lado. Este é um livro que dá continuidade a uma investigação numa área que me é grata. Tenho muitos outros livros que serão publicados pela minha própria editora, que criei em Hong Kong. Tenho uma longa entrevista com o cardeal Zen. Este livro está pronto a publicar. Tenciono publicar uma outra entrevista com um teólogo sobre questões familiares e sobre o sínodo da família. Em vista tenho também a publicação de duas antologias com os meus poemas, uma em inglês e outra em italiano. Esta obra deverá ser posteriormente traduzida para português. Por fim, nos planos está também um livro em inglês com os artigos sobre música litúrgica que publiquei num blogue norte-americano. No total, são sete ou oito livros que deverão ser publicados nos próximos meses. Depois há a parte musical. A minha editora na Alemanha deverá publicar o meu “Magnificat para Coro e Orquestra”. Recentemente, lançou a “Mass in Honor of Madonna di Loto”. Em Abril, aqui em Macau, publiquei a missa que escrevi para Matteo Ricci. Para além destas, há muitas composições que estão em lista de espera. Ao mesmo tempo continuo a contribuir para várias revistas em Itália, nos Estados Unidos ou mesmo cá em Macau, onde contribuo para “O Clarim”. Como lhe dizia, gostaria muito de reunir todos os artigos que escrevi para “O Clarim” e transformá-los em livro. Parece-me que seria um livro bastante interessante sobre Macau.

– Acompanha com grande interesse o desenvolvimento das relações entre a China e o Vaticano. Entrevistou o cardeal Zen, que é o último grande adversário e o último grande crítico da chamada Igreja Patriótica. Como olha para o actual estado das relações entre Pequim e o Vaticano. As autoridades chinesas ainda recentemente ordenaram a retirada das cruzes do cimo dos templos católicos …
A.P: Habituámo-nos a falar da grande super-potência que são os Estados Unidos da América e estamos a testemunhar a emergência de uma nova super-potência, que é a China. Uma super-potência é sempre uma super-potência e o objectivo é sempre o de impor uma agenda. No caso dos Estados Unidos da América, a cultura estava conformada por uma visão ocidental, porque os Estados Unidos são, ao fim e ao cabo, um país de imigrantes, com uma forte cultura de raiz judaico-cristã. No caso da China, o enquadramento é completamente diferente e eu abstenho-me de criticar este aspecto. Quando me perguntam: “O que pensa da China?”, digo sempre o mesmo. “É um país diferente. Se há algo que eu possa dizer que considero que seja completamente verdadeiro é que a China é diferente. Tem uma visão do mundo diferente, uma perspectiva diferente. Cabe-nos estar conscientes de que a China provavelmente não tem noção do propósito a que se propõe a Igreja Católica ou do trabalho desempenhado pelo Papa. A China olha para estas questões de uma perspectiva histórica. Quando os missionários aqui chegaram eram vistos como embaixadores de poderes como Portugal, França ou mesmo os Estados Unidos e esta perspectiva é parcialmente verdadeira. Mesmo em Macau estavam ao serviço de poderes instituídos, mas trouxeram ainda assim alguns valores. Não quero dizer que não existissem por cá outros valores, mas trouxemos a nossa arte, a nossa medicina. Compreendo que para uma potência o mais importante passe por manter a estabilidade e como a China é um país gigantesco, percebo que o Governo chinês tenha medo de que o que pode ser visto como um poder estrangeiro possa influir nas questões internas, mas esta é a questão central. No que diz respeito à nomeação dos bispos, se o Governo diz que quer permite que o Papa nomeie os bispos chineses, porque é que permite que a Coca Cola nomeie o presidente da Coca Cola para a China? É claro que há quem lhe diga que uma coisa não tem que ver com a outra, que a Coca Cola se refere apenas a negócios e que a religião diz respeito à consciência. Não é inteiramente verdade. Atrás de influências como a da Coca Cola são importadas características da cultura ocidental, como o consumismo ou o capitalismo. A situação é muito confusa. O Governo chinês tem, sobretudo, medo de perder controlo. Não me parece que haja uma solução muito fácil para este problema. Neste momento talvez fosse melhor esperar por melhores dias.

– A normalização de relações entre Pequim e o Vaticano não se materializará, no seu entender, tão cedo …
A.P: Não me parece que ocorra a curto ou médio prazo. Os problemas que persistem são tão grandes que não há para eles resolução fácil. Parece-me que se dependesse do Papa Francisco ele iria a Pequim já amanhã, para negociar e para resolver estas questões. Talvez um dia alguém do Governo chinês possa abordar esta questão de uma perspectiva que possa vir a ser abordada pelo outro de forma consensual. Neste momento, não vejo como isto possa ser possível. Referia o que se está a passar na China, com a retirada das cruzes dos campanários das Igrejas. Esta questão não se vai resolver facilmente, mas enquanto católicos temos de rezar e pedir ao espírito santo que fale ao coração das pessoas de forma a que todos se sintam livres para adorar a Deus da forma como se sentem mais confortáveis.

– Falava do Papa Francisco. Bergoglio tem tido a capacidade de cativar mesmo os não crentes. Um líder com este carisma fazia falta à Igreja Católica?
A.P: Concordo consigo quando diz que o Papa Francisco é um papa muito estimado pelos não crentes, mas se for a Roma provavelmente irá perceber que as coisas são um pouco mais confusas. Este é um papa com uma postura muito centralizadora. É alguém que centra em si muitas das decisões da Cúria. Pessoalmente, parece-me que o Papa Bento XVI foi um grande intelectual e, neste sentido, um grande Papa. É claro que houve algumas questões com as quais não conseguiu lidar e como tal mostrou grande coragem ao decidir abdicar, demonstrando uma liderança muito mais forte, eu diria. Por outro lado, Francisco está a mudar muitas coisas e há muito quem não olhe com bons olhos estas mudanças. Como o processo ainda vai a meio, não sei ao certo se as mudanças irão trazer algo bom ou se serão algo mau. Um dos maiores problemas que afectam a Igreja Católica, e o Papa Francisco também está consciente disso, é o clericalismo. Se o Papa for capaz de combater o clericalismo, que se apresenta como uma doença mortal para Igreja, será provavelmente lembrado como um dos maiores papas da história da Igreja Católica. Não tenho grande confiança de que o possa fazer, uma vez que é um problema de monta. O próprio Papa define o clericalismo como um grande pecado. Se ele for capaz de dar resposta a este cancro, será provavelmente lembrado como um dos maiores papas da história da Igreja …

– Regressa a Roma ao fim de sete anos de ausência. A cidade ainda é o centro do mundo, em termos de espiritualidade?
A.P: A meu ver, Roma tem em termos históricos uma missão especial. Esta missão especial teve o Império Romano como seu primeiro protagonista e continuou a ser conduzida pela Igreja Católica. A exemplo do que sucede com cidades como Jerusalém, Roma tem uma missão especial. Quando vai a Roma sente que há um sentido de pertença a uma origem. De uma certa forma ainda é uma matriz para o mundo no que diz respeito à espiritualidade, mas é cada vez mais difícil ter esta questão em conta porque o Ocidente é cada vez mais materialista. Se visitar Roma com o objectivo de comungar da herança romana, do papado, da arte e da beleza de uma cidade antiga, Roma continua a ser uma cidade muito especial. Não sei se ainda a podemos considerar “caput mundi” [a capital do mundo], mas continua a ser uma cidade muito especial.

– O que podemos esperar de Aurelio Porfiri nos próximos anos? Muito trabalho, presumo …
A.P: A minha prioridade, se é que possa colocar as coisas deste modo, é sobreviver. Tenciona continuar a fazer o que tenho vindo a fazer até agora e a oferecer às pessoas os valores, a mensagem e as tradições que eu tive a sorte de herdar dos mestres que me acompanharam ao longo de todos estes anos.

– E em Roma, o seu futuro já está definido? Tem algo em vista?
A.P: Nada muito preciso. Saí há sete anos e tudo o que aquilo que eu estava a fazer antes de vir para Macau estão agora nas mãos de outras pessoas. Na verdade, não há muita gente em Roma que saiba que eu vou regressar. Não sei que portas se vão abrir e não sei quais ficarão fechadas. Mas não estou preocupado. Continuarei a seguir o que se passa em Macau e a contribuir para “O Clarim”. Vou continuar a escrever os meus livros, a nutrir a minha editora. Estas tarefas vão manter-me ocupado. Se outros desafios aparecerem, enfrentá-los-ei sempre com a perspectiva de dar o meu melhor.

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