“Nas grandes cidades é fácil sentir-se um anónimo”

19631313003_6c0f528373_k (1)Alan Schaller pegou na máquina fotográfica e seguiu o que a sua intuição mandou. As ruas de Londres começaram por chamar a sua atenção, mas também outras captaram o seu interesse como Macau. Esta semana, o fotógrafo britânico apresenta em Londres uma exposição com as fotografias da viagem que fez pelo território, Hong Kong e algumas cidades da China como Shenzhen. Com mais de três mil seguidores só na página do flickr, as fotografias a preto e branco mostram o há de comum no ser humano: as emoções.

Catarina Mesquita

catarinamesquita.pontofinal@gmail.com

PONTO FINAL Para alguém que nunca ouviu o nome Alan Schaller: Quem é este homem munido de uma máquina a caminhar pelas ruas?

Alan Schaller Sou um fotógrafo de rua, especialista em fotografias a preto e branco. Vivo em Londres e qualquer pessoa pode encontrar-me nas ruas a captar imagens das pessoas que se movem pela cidade.

O meu estilo é fortemente influenciado pelo trabalho de alguns fotógrafos lendários apesar de eu estar constantemente à procura de formas de criar imagens únicas. O meu objectivo é produzir imagens com uma emoção natural que transmitam a realidade e a diversidade da vida humana.

– Lembra-se do momento de viragem em que viu uma pessoa na rua e se sentiu impelido a fotografá-la? Como é que começou a tirar fotografias na rua?

A.S. – Sou um autodidacta e comecei a tirar fotografias a paisagens e a elementos da arquitectura. Depois cruzei-me com os trabalhos de fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Don McCullin e Steve McCurry que tiraram fotografias icónicas que documentam pessoas na sociedade.

Estas fotos sempre me surpreenderam e decidi que me queria focar em imagens de pessoas mais do que no ambiente. Desde então não parei…

– Alguma vez as pessoas fotografadas se aperceberam de que tinham a lente da máquina do Alan apontada a elas?

A.S. – Até agora nunca ninguém me pediu para apagar uma fotografia apesar de eu já ter ouvido histórias de que isso acontece. Mas é fácil saber quando alguém está chateado com o facto de lhe estarmos a tirar uma fotografia.

Se elas me descobrem, eu evito-as. A maior parte das vezes, quando elas se apercebem continuam a andar ou olham para mim com um ar confuso ou a achar piada.

– E ao contrário? Já foi abordado para mostrar as fotografias que tirou?

A.S. – Sim, já me aconteceu várias vezes. Os fotógrafos de rua normalmente não gostam de se relacionar com as pessoas que fotografam, mas eu gosto. É uma boa oportunidade para lhes explicar o que é a fotografia de rua e mostrar-lhes mais sobre o meu trabalho através das imagens que carrego no meu telemóvel ou na parte de trás da minha máquina.

– O Adam apresenta agora uma série de fotografias captadas em Macau, Hong Kong e Shenzhen. É a primeira vez que visitou estas cidades asiáticas? Com que impressão ficou?

A.S. – Foi a primeira vez que visitei as cidades. Em Hong Kong, fiquei em Kowloon, uma zona vibrante e vívida, visitei Mong Kok, Aberdeen e o mercado de Stanley onde encontrei mais aquilo que estava à espera.

Já em Macau adorei a experiência, especialmente tirar fotografias na San Malou e no Templo de Á-Ma. Para um sítio relativamente pequeno há uma grande variedade cultural e de coisas para ver.

Na China Continental senti diferenças em relação a Hong Kong e a Macau e senti que era um sítio inspirador para os fotógrafos. Foi esta diversidade que quis transmitir através das minhas imagens.

– Como londrino descobriu alguns elementos em comum entre Hong Kong e a cidade onde vive, já que a região vizinha foi uma colónia inglesa?

A.S. – Kowloon tem muitas semelhanças com Londres, principalmente o facto de ter táxis em todo o lado, lojas de luxo e pessoas atarefadas de um lado para o outro. Os carros têm o volante do mesmo lado que os veículos na Inglaterra, conduzem do mesmo lado da estrada o que fez com que as viagens de autocarro e táxi parecem estar a ser feitas em Londres. O metro também é parecido ao de Londres.

– A exposição The Classic Camera que inaugurou esta semana em Londres tem como objectivo mostrar ao público que as cidades em vários pontos do mundo têm mais em comum do que aquilo que as pessoas esperam?

A.S – A mostra estará disponível durante os próximos três meses em Holborn e apresenta fotografias captadas em Londres e algumas captadas durante a minha viagem a Macau. Como a exposição estará disponível durante tanto tempo é provável que troque algumas fotografias de Londres por outras deste périplo pela Ásia.

A escolha das fotografias não está necessariamente a querer dizer que as cidades têm mais em comum.

As minhas imagens captam as emoções e eu tento que as pessoas reflictam sobre a história que cada fotografia conta. Eu vou deixar que o público veja como as diferentes cidades se comparam sem tentar influenciar o seu olhar.

Por esta razão não dou título às minhas fotografias porque isso pode condicionar a forma de verem a imagem. Eu gosto como as pessoas interpretam as coisas baseadas nas suas experiências de vida e personalidade.

– O Alan defende que existe um maior isolamento quanto maior forem as cidades. Porque acha que este fenómeno acontece?

A.S. – Acho que isso tem que ver com a perda do espírito de comunidade. Cidades como Hong Kong e Londres são tão vastas e, em cidades grandes como estas, é fácil sentir-se um anónimo e tornar-se introvertido.

Quando tirei fotografias em Kowloon muitas pessoas ignoraram-me da mesma forma que acontece em Londres mas, por exemplo, quando estava nos mercados do peixe em Aberdeen as pessoas já comunicaram comigo e foram, no geral, mais amigáveis.

É o mesmo em qualquer lugar: de Macau a França, de Israel ao Reino Unido. Eu penso que essas “bolhas” podem isolar as pessoas e torná-las mais hostis.

– Que projectos estão na mira da sua máquina fotográfica no futuro?

A.S.- Tenho muito interesse em ir à Índia e captar imagens lá. Quero experienciar o mais possível do mundo e fazer sempre novas exposições.

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