O filme das cartas do fim do mundo


Em “Cartas da Guerra” o realizador Ivo M. Ferreira aborda a guerra colonial vivida e imaginada a partir das cartas de amor enviadas de Angola por António Lobo Antunes à sua mulher, entre 1971 e 1973. Neste filme “de época”, mas “feito com pessoas de hoje”, o autor esboça aquilo que espera ser “uma pulsão para a reflexão sobre o presente”. O projecto é um dos 15 seleccionados para participar no Mercado de Cinema de Veneza, integrado na 72ª edição do Festival Internacional de Veneza, que acontece em Setembro.

Cláudia Aranda, em Lisboa

pontofinalmacau@gmail.com

O realizador Ivo M. Ferreira e a actriz Margarida Vila-Nova vão regressar em breve a Macau, depois de um ano intenso de trabalho, dividido entre Portugal e Angola – no caso do realizador. Este foi o ano dedicado às filmagens da adaptação para cinema de “D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra”, que reúne os aerogramas (envelope-carta isento de selo para uso dos militares e suas famílias) escritos pelo jovem alferes e médico de 28 anos, o futuro escritor, mas ainda sem obra publicada, António Lobo Antunes, à sua mulher Maria José, a partir de um cenário de guerra colonial vivido em Angola, entre 1971 e 1973.

Margarida Vila-Nova, que esteve este ano em Portugal a filmar a novela “Mar Salgado” do canal de televisão português SIC, é, também, Maria José, a personagem a quem são dirigidas as cartas de António Lobo Antunes, no filme com ideia original de Ivo M. Ferreira. O projecto, que começou por ser um esboço na cabeça do realizador, em 2009, está prestes a completar-se, com o filme já em fase de montagem, de maneira a estar pronto até Novembro deste ano, adiantou o realizador em conversa com o PONTO FINAL, em Lisboa.

Na montagem, é preciso “reencontrar as ideias na génese do projecto e descobrir o corpo do filme”. A estrutura não vai sofrer grandes alterações em relação ao argumento, explica o realizador. Mas é preciso “encontrar o tom, gerir a progressão das personagens”, acrescenta.

O responsável pela montagem é Sandro Aguilar (também cineasta), que produziu o filme juntamente com Luís Urbano, da produtora O Som e a Fúria, que produziu filmes como “Tabu” e “As Mil e Uma Noites”, ambos de Miguel Gomes. “Cartas da Guerra”, entretanto, é um dos 15 projectos seleccionados para participar no Mercado de Cinema de Veneza (“Venice Film Market”), integrado na 72ª edição do Festival Internacional de Veneza, que se realiza no início de Setembro. O evento, no qual o realizador vai marcar presença antes do regresso a Macau, abre portas a projectos que já tenham garantido 70 por cento do financiamento e facilita o processo de angariação do remanescente no mercado internacional, proporcionando encontros com financiadores e distribuidoras.

FILMAR NAS TERRAS DO FIM DO MUNDO

Desde o primeiro momento em que Ivo M. Ferreira entrou em contacto com as cartas, até à conclusão das filmagens, o projecto caracterizou-se por diferentes fases de grande exigência. “Foi um trabalho duríssimo”, descreve o realizador do filme “Cartas da Guerra”. Este “é um projecto pesado, caro”. “Este ano interrompemos a nossa vida em Macau para vir para cá (Lisboa) fazer o filme e a Margarida esteve a fazer a novela”, prossegue Ivo M. Ferreira.

As filmagens foram repartidas entre Portugal e Angola, onde o cineasta já havia estado em 2001, a encenar com o pai, Cândido Ferreira, a peça “Quem me dera ser Onda” e a dar aulas.

Em Janeiro as filmagens começaram, primeiro em Angola. “Filmámos durante quatro semanas no Cuando-Cubango [zona inóspita conhecida como as ‘terras do fim-do-mundo’] e em Malange, onde há só uma cena final do filme. Foi muito, muito duro”, frisa o realizador. Houve elementos da equipa que adoeceram. O actores tiveram de “andar dias dentro de água, dentro de rios com crocodilos. Era um bocadinho enervante”, diz Ivo.

A equipa incluiu actores portugueses e angolanos. Na tela, quem encarna o jovem médico é o actor Miguel Nunes, de 28 anos, (que participou em filmes como “O Fantasma do Novais”, de Margarida Gil, “Cisne”, de Teresa Villaverde ou “Manhã de Santo António”, de João Pedro Rodrigues).

“É um casting muito jovem, estes miúdos eram muito jovens quando foram para a sua comissão, estamos a falar de gente entre os 18 e os 20 e poucos anos”, salvo algumas excepções, como foi o caso de Lobo Antunes, que já tinha 28 anos, já se havia licenciado em medicina em 1969 e havia casado em Agosto de 1970, mesmo antes de partir para a guerra, a 6 de Janeiro de 1971. “Na grande maioria era gente muito nova. Isso foi muito importante para mim, porque há questões aos 20 anos que são uma ternura e que aos 30 não têm graça nenhuma, em termos de dilemas pessoais”, acrescenta o realizador.

O “décor” principal, que é o aquartelamento de Chiúme, foi construído de raiz. Para tal, foi necessário reconstruir uma ponte dinamitada e destruída na guerra para dar passagem aos camiões com os materiais de construção do quartel. “Isto não tem nada que ver com processos Hollywoodescos, mas não deixa de ser absolutamente incrível. Ali não há água, luz, há uma povoação, há um riozinho que passa, mas nós precisávamos de infra-estruturas. Houve ali pequenos milagres. Pequenos milagres e muito, muito trabalho”, prossegue Ivo, que enaltece o apoio “vital e fulcral” das populações locais e do Governo provincial de Cuando-Cubango.

Ivo M. Ferreira destaca ainda a “relação bonita” que se estabeleceu com a pequena actriz de cinco anos e o seu avô, da comunidade nómada Khoisan, que iria representar o papel de Tchihinga, a menina que Lobo Antunes salva, após uma operação militar, e apresenta à mulher Maria José numa das suas cartas. “Ontem trouxe uma miúda da mata. Os pais digamos que partiram para um mundo melhor. É de raça kamessekele, tem cerca de 3/4 anos e chama-se Tchihinga. Fiquei com ela. É muito bonita (…). Devo dizer que já gosto muito dela”, (António Lobo Antunes, Chiúme, 30.11.71). Este era um momento importante na narrativa do filme. “Tchihinga é uma história a que António Lobo Antunes volta frequentemente, nas crónicas, de vez em quando lá vem a personagem”, diz o realizador.

O CRESCIMENTO POLÍTICO DO HOMEM E DO ESCRITOR

O filme segue uma narrativa própria criada por Ivo M. Ferreira. Para o realizador, a “estrela polar são as cartas da guerra”. Mas não só: “Compenso com a imaginação, eu é que imagino”. “A narrativa é como eu defini, não estou a dizer que as cartas têm esta ordem de ideias”, esclarece.

O realizador, que escreveu o argumento em parceria com Edgar Medina, sempre achou que havia nos aerogramas “linhas de força que poderiam permitir fazer uma dramatologia das cartas”. Destaca “o facto de haver uma viagem [entre Portugal e Angola, a bordo do navio Vera Cruz], haver três aquartelamentos [Gago Coutinho, actual Lumbala Nguimbo, Ninda, e Chiúme] e haver uma última viagem [Malange, Marimba, já no segundo ano da comissão em África, onde a mulher acaba por se reunir a Lobo Antunes, com a filha primogénita já nascida]”. Ou seja, diz o realizador, há “uma introdução, três actos e um epílogo”, que ajudavam à construção dramática do filme. Por outro lado, há um aspecto, o mais importante para o cineasta, que é o facto de “haver um homem que está a crescer e que está a mudar no contacto com o cenário [de guerra], e um escritor que está a nascer. Havia estas linhas de força que me fizeram acreditar e que eram alicerces para poder construir uma narrativa sólida”, explica.

A Ivo M. Ferreira interessava-lhe trabalhar nas cartas da guerra de António Lobo Antunes “o lado político”: a guerra colonial. O tema já havia sido tratado, de certa maneira, em “Águas Mil” (2009), em que o autor aborda o processo revolucionário em curso (PREC), no pós-25 de Abril.

Nas cartas de António Lobo Antunes “há um crescimento político, há uma mudança, o médico António parte de Lisboa, sendo um intelectual magnânimo, tendo uma bagagem absolutamente impressionante, invejável em termos de literatura”, descreve o realizador. E, depois, “cruza-se com personagens como Ernesto Melo Antunes que no filme é o Capitão Ninda”, e que o médico descreve: “Um homem extraordinário (foi o único oficial do Exército candidato pela CDE às últimas eleições) extremamente inteligente e culto, com quem fico a conversar até tarde” (António Lobo Antunes, Ninda, 27.4.71). O Capitão Ernesto Melo Antunes havia sido candidato às eleições para a Assembleia Nacional de 1969, pelas listas da CDE (Comissão Democrática Eleitoral), um dos movimentos de oposição ao regime.

“Há um crescimento intelectual da personagem ao longo do processo. Há, numa primeira fase, um maravilhamento com África, com a paisagem, os animais, a cultura das pessoas, um encantamento quase etnográfico.” Depois, e é isso que o filme atravessa, diz o realizador, “há uma segunda fase onde se começam a colocar uma série de questões, Lobo Antunes chega a dizer ‘não posso continuar a viver como antes’”. Ou seja, “há a tomada de uma posição política em relação à guerra, à injustiça, à estupidez, dos dois lados, à injustiça absurda de atirarem estes miúdos para ali, para uma situação que eles nem sequer sabiam para o que é que iam”, prossegue Ivo M. Ferreira.

Numa terceira fase, “o inimigo já não é o Estado português, já não é o Salazar, o inimigo está dentro deles próprios, eles é que são o seu próprio inimigo, no sentido não só de acreditarem que já não voltam, como também de não saberem como voltar”. “Se formos ao arquivo militar, com certeza muitos dos suicídios não são referidos como tal, muitos deles são classificados como desastres de automóvel, etc. Mas o que é verdade é que os suicídios davam-se antes de os soldados voltarem para casa ou já no segundo ano de comissão [quando eram colocados em zonas menos abrangidas pela guerra]. (…) Todos os elementos que eu tenho indicam que nunca é nas situações adversas que as pessoas desistem de viver e de lutar. Mas eles acreditavam que não iam voltar. O António Lobo Antunes achava que ia ficar. Talvez daí a razão dele não ter guardado as cartas da Maria José, de as ter queimado”, prossegue Ferreira.

“ESTE É O LIVRO DO AMOR DOS NOSSOS PAIS”

Em 2009, quando tudo isto passou pela cabeça de Ivo M. Ferreira, o realizador quis, antes de avançar, falar com as filhas de António Lobo Antunes, Maria José e Joana, que organizaram o volume que reúne as cartas de António Lobo Antunes a Maria José, publicado em 2005, após a morte da mãe e por sua vontade expressa e intitulado “D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra”. “Este é o livro do amor dos nossos pais”, escrevem as filhas do casal no prefácio. O título é o mesmo escolhido por António Lobo Antunes para aquele que viria a ser o seu primeiro romance e que acabaria por ficar conhecido por “Memória de Elefante”, publicado em 1979. Trata-se de uma citação de uma carta do poeta de Orpheu, Ângelo de Lima (1872-1921), dirigida ao médico Miguel Bombarda.

O filme tem como ponto de partida questões “super-sensíveis”, explica Ivo M. Ferreira. “É um trabalho de um escritor antes de ser escritor, são cartas de amor, um documento muito íntimo. A intimidade de um casal, que são os pais delas, Maria José e Joana Lobo Antunes.” São, também, cartas escritas por aquele que é hoje um dos escritores portugueses vivos mais lido, traduzido e premiado. Mas que, na altura, diz Ivo, “era um jovem, que estava a escrever o seu primeiro livro. Só em 1978 é que há primeira obra publicada, precisamente, muito influenciada pela guerra colonial, como aliás grande parte do seu trabalho”. “Muitas vezes voltamos a lugares comuns, em ‘Os Cus de Judas’, em ‘Memória do Elefante’, um pouco por toda a sua obra.” Ferreira falou com Maria José e Joana Lobo Antunes, que lhe disseram: “Olha, o nosso pai concordou que publicássemos as cartas pelo nosso desejo, mas é uma questão muito íntima e à partida seria muito difícil nós deixarmos adaptar fosse para o que fosse”. “Era uma questão muito, muito delicada”, admite o cineasta, que já conhecia a filha Maria José, sabia “que corria um risco” de, mais tarde, as irmãs lerem o argumento e de acharem que não era fiel ao seu compromisso. Mas, à partida, “havia uma predisposição” [para o consentimento]. O realizador já havia estabelecido contacto com António Lobo Antunes. “Apesar de não o conhecer bem, mas pelo facto de ter trabalhado com ele, criámos uma relação muito especial, para mim é uma pessoa muito especial.” Ivo conheceu Lobo Antunes inicialmente nos almoços da companhia militar, cujo lema é do médico e escritor: “Somos o que fomos”. “Na perspectiva de que foi tudo muito marcante para todos eles e que, de alguma forma, todos terão deixado uma parte deles lá”, explica o realizador.

REGRESSO A MACAU PARA FILMAR “HOTEL IMPÉRIO”

Anos depois, e agora que o projecto “Cartas da Guerra” se completa, a pergunta impõe-se: o filme tem um género definido? É um filme de guerra? É um filme de amor? Para o realizador é um pouco de tudo isso, mas é também muito mais. “O filme curiosamente vai ter um carácter muito clássico. O facto de ser um filme de época dá-lhe um carácter específico, o guarda-roupa, a caracterização, os cabelos. Embora eu goste muito do realismo, o que é mais interessante é que os elementos de época têm essa vantagem de nos afastar do naturalismo das imagens que vemos todos os dias, nos telefones, na televisão. Embora seja um filme onde há acção, que se passa em 1972, e de ser um filme biográfico de um dos maiores escritores portugueses vivos, não deixo de sentir sempre que o que se está a fazer é um trabalho sobre nós (os portugueses), sobre hoje (porque o ponto de vista, os actores, são de hoje). É mais importante para mim este escavar no passado, enquanto pulsão de reflexão sobre nós e sobre o presente. Além de que estamos a falar de um período que não foi assim tão retratado quanto isso – a guerra colonial, 40 anos depois.” Para Ivo M. Ferreira, a questão de época, que é mais interessante, “não é olhar e ver como era, mas é um olhar sobre algo que é invisível à iconografia das fotografias, às imagens que nós criámos. Um filme tem vida própria, ele existe quando tem um corpo, não interessa se é dos anos 1950 ou de 2015”.

Depois de “Cartas da Guerra”, Ivo M. Ferreira já tem outro projecto na calha.

“Vamos agora voltar a Macau e começar a filmar o ‘Hotel Império’, a partir de Fevereiro [do próximo ano], que é um filme apoiado pelo Instituto Cultural, a produtora O Som e a Fúria e uma televisão portuguesa.”

Margarida Vila-Nova, a mulher e musa de Ivo M. Ferreira, é também a protagonista feminina de “Hotel Império”.

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