“É uma peça tão bonita que até faz chorar”  

A ópera “Teatro de Guerra”, do grupo experimental dinamarquês Hotel Pro Forma, apresenta-se dia 27 de Junho no Centro Cultural de Macau. O PONTO FINAL falou com Kirsten Dehlholm, directora artística da companhia, que tirou o véu a um espectáculo que promete emoções fortes.

Catarina Mesquita

PONTO FINAL – O grupo Hotel Pro Forma (HPF) já levou ao palco mais de meia centena de produções. “Teatro de Guerra” foi uma das que foram melhor recebidas pelo público. Porque razão?

Kirsten Dehlholm – Este espectáculo pauta uma nova colaboração entre o grupo de teatro Hotel Pro Forma e o Coro da Rádio da Letónia. Queria ver de que forma conseguia explicar a guerra numa produção e tento fazê-lo através da história de quatro personagens: um soldado que ao ser enviado para casa após a guerra é vítima de stress pós-traumático e que acaba por morrer numa explosão e um guerreiro que foi morto em batalha e cuja morte não natural impede que a alma transite para o outro mundo, tornando-se um fantasma. As outras duas figuras centrais da trama de “Teatro de Guerra” são uma espia – capturada durante a guerra – que se torna uma super-mulher e, por fim, uma mulher que vive uma vida vulgar e que é uma personagem com a qual o público se identifica normalmente sem grandes dificuldades.

P.F. – Porquê a guerra como leitmotiv da produção?

K.D. – Eu sempre procurei fazer com que o Hotel Pro Forma abordasse grandes temas nas produções que levamos ao palco. Já o fizemos com o Médio Oriente, o papel do dinheiro na sociedade, a educação, o período medieval, entre outros. A meu ver, a guerra encerra em si uma grande carga emocional e é algo que mexe incontornavelmente com a existência humana.

A ideia do “Teatro de Guerra” surgiu numa altura em que os dinamarqueses começaram a ser confrontados com o regresso dos corpos de soldados mortos no Afeganistão e no Iraque. Até então nunca tinha lidado directamente com a guerra e, apesar de saber que há conflitos em todo o lado, quando senti uma maior proximidade emocional às consequências da guerra comecei a pensar mais sobre esta matéria.

P.F. –A natureza da guerra e a natureza do homem são duas faces de uma mesma moeda?

K.D. – Infelizmente sim. Dependendo do tempo histórico em que se inserem ou do tipo de guerra de que falamos, todos os conflitos armados são feitas pela mão do homem e nunca vão deixar de existir.

P.F. – Na tessitura da peça, destaque para elementos do teatro Noh cantados no japonês original. A que se deve esta escolha?

K.D. – Um dos meus colaboradores fez parte de uma trupe de teatro tradicional japonês. O teatro Noh é uma manifestação artística que se manteve inalterada desde que surgiu no século XIV. Quando estávamos a estudar este tipo de representação, chegamos à conclusão que a interpretação dos actores se enquadrava no que queríamos transmitir. Os diálogos da peça serão cantados em japonês, mas teremos legendas e mandarim e em inglês.

P.F. Em palco também serão projectados desenhos manga…

K.D. – Sim. Escolhemos imagens do artista japonês Hiraku Hayashi, que retiramos da obra “Como desenhar manga” e ampliamos alguns desenhos, que serão projectados na estrutura do palco. A técnica manga é diferente da banda desenha e percebi que os desenhos podiam complementar a produção e ajudar a ilustrar a ideia de que o homem se pode tornar uma máquina, uma máquina de guerra.

P.F. – O grupo Hotel Pro Forma apresentou “Teatro de Guerra” em Taiwan, no passado mês de Março. Como descreve a experiência?

K.D. – Nunca apresentamos a peça na China e Taiwan pautou a nossa primeira deslocação a essa lado do mundo. Percebi que o público acompanhou o espectáculo com muita entrega e muita concentração. Os espectadores seguiram o andamento da trama com muita atenção e senti que eles assimilaram a estética do espectáculo na perfeição.

P.F. – E o que espera de Macau?

K.D. – Estou com grandes expectativas. É importante que o público perceba que esta ópera, apesar de se apresentar, de certo modo, como alternativa não é difícil de perceber e que apesar de o tema ser a guerra, uma realidade hedionda, esta peça é tão bonita que até faz chorar. O Coro da Rádio da Letónia [já galardoado com um Grammy] tem uma qualidade incrível e a sua interpretação tem o poder de falar directamente ao coração.

P.F. – O grupo Hotel Pro Forma celebra este ano 30 anos de actividade. Qual é a receita para que um grupo de teatro experimental sobreviva e vingue durante três décadas?

K.D. – São muitos anos de investigação em artes visuais, em artes performativas, música, som, texto e ainda arquitectura. As nossas peças já foram apresentadas em grande salas de espectáculo mas também em salas mais pequenas, para um público com apenas 60 pessoas. Já chegámos a actuar em locais que não estavam especificamente preparados para receber peças de teatro. Fizemos espectáculo com um artista apenas e peças com 100 pessoas em palco. É, de facto, muito tempo [risos]. Hoje temos salas maiores e há mais gente com vontade de descobrir o trabalho feito por grupos de teatro experimental. Não era assim há 30 anos, quando começamos. Considero que de certa forma também fomos inovadores [na Dinamarca] pelo género de teatro que decidimos levar ao palco.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s