Na era digital “a revolução já não é comunitária, é individual”  

Heitor Alvelos - Foto Claudia Aranda 2

Heitor Alvelos alerta para a actual compulsão pelo digital e defende uma sintonia com o analógico. Perante a “volubilidade” dos conteúdos online diz: a revolução é “individual” e passa por “criar filtros”. A palestra é hoje, na Livraria Portuguesa.

Cláudia Aranda

Heitor Alvelos, professor e investigador da Universidade do Porto, contesta a ideia de que “o futuro é todo digital”. Aconselha a que se evite uma total delegação das competências humanas na tecnologia e convida a uma mudança na tendência para o consumo de conteúdos “fluffy”, ou seja, “gastos, banais ou desinteressantes”. O anti-fluffy surge como uma crítica à cultura digital actual e dá corpo à convicção de que é preciso ir mais longe. Heitor Alvelos é também director do FuturePlaces, um media lab especializado em meios digitais e na sua relação com os cidadãos, estabelecido em 2008, em parceria com a Universidade do Texas, em Austin (UT Austin). O professor vai estar hoje, a partir das 18h30, na Livraria Portuguesa, para uma palestra intitulada: “Antifluffy: ghost of analogue, guardian of instrospection”.

– O que quer dizer “anti-fluffy”? É o equivalente a anti-fofinho?

Heitor Alvelos (H.A.) – Na língua inglesa o termo “fluff” é mais ambivalente. Tanto quer dizer fofinho como pode querer dizer algo que está gasto, que é banal, é espuma, que não interessa. Esta figura do anti-fluffy que criámos como mascote do FuturePlaces explora a ambivalência desse termo, considerando que social e culturalmente há muita coisa a acontecer ao nível dos media, considerando que muitas das propostas, inclusivamente das redes sociais – pese embora a sua grande promessa e a sua grande capacidade de transformação do indivíduo -, acabam perversamente e em grande parte por se cingir a repertórios bastante redutores, bastante “fluffy”. Portanto o anti-fluffy é uma espécie de ideia de dar corpo à convicção de que temos que ir um bocadinho mais longe. O anti-fluffy é uma metáfora, um símbolo dessa importância de harmonizar o analógico e o digital, mas também é espaço de incógnita. Ninguém sabe o que é, só sabemos que não é fluffy.

– “Ghost of analogue”, ou o fantasma do analógico, significa que temos de voltar ao analógico, ou seja, ao passado?

H.A. – Não, não, além do mais isso é uma impossibilidade. Mas temos que harmonizar esse passado com o presente. O anti-fluffy é também uma forma de declarar que esta visão determinista dos novos media pode ser um equívoco. A ideia de que o futuro é todo digital, que pressupõe a obsolescência ditada de uma experiência não mediada é passível de contestação. Portanto, não se trata de observar a história numa perspectiva linear, mas de observar a história numa perspectiva, simultaneamente, cíclica e multidimensional. As dimensões analógica e digital devem estar profundamente interligadas. Quando falamos de dimensão analógica, não falamos apenas da utilização de meios analógicos, mas da experiência não mediada da realidade. Vemos por exemplo que nos dias que correm começam a surgir sinais preocupantes de grande compulsão relativamente aos meios digitais. Onde quer que estejamos, olhamos à nossa volta e a maioria das pessoas não está a olhar à volta. Está fixada no pequeno rectângulo que tem nas mãos. O anti-fluffy é também uma forma de dizer que não nos vamos esquecer dessas dimensões, que não são passadas, são ontológicas, são humanas, são intemporais e há que cuidar delas. Isto não é uma declaração anti-digital, eu próprio sou um utilizador muito frequente de plataformas digitais, mas tento harmonizá-las com outros aspectos da comunicação e da existência, que me parecem igualmente determinantes e que não podem ser esquecidos, nem substituídos.

– Quais são essas outras dimensões humanas e intemporais?

H.A. – O sentido de orientação por exemplo e a forma como é substituído pelo GPS. Gosto de chegar a uma cidade que não conheço e de começar a estabelecer o meu repertório visual. É um processo que em termos de capacitação do indivíduo é mais interessante do que ouvir uma voz digital a dizer “turn left, turn right”. Para além do mais é um processo de manutenção da minha memória visual. Refiro-me a este tipo de situações em que há uma espécie de delegação das competências humanas na tecnologia. Não há nada de intrinsecamente errado, mas há uma necessidade de harmonização.

– Quais são os benefícios e perdas nesta adição à cultura digital? Há uma perda de produtividade?

H.A. – Penso que a grande vantagem continua a ser a promessa mais do que a concretização, ou seja, as vantagens estão ainda por se cumprir em grande parte. Os novos media como potenciadores de um reequacionamento das expectativas sociais, do tecido social, da própria geometria da relação entre as pessoas e viabilizadores de consciências pan-geográficas. Posso partilhar interesses com uma comunidade que está para além da geografia, que se estende a nível mundial, aí há um potencial muito grande de congregação de pessoas à volta de interesses e de emancipação das suas circunstâncias. Penso que há também uma grande vantagem nos media digitais em termos patrimoniais. Voltando à dualidade do analógico e digital, vejo comunidades online a dedicarem-se à digitalização de artefactos e de registos que têm em seu poder e que, desta forma, ficam registados para a posteridade. Ou seja, a ideia de museu passa também a pertencer aos cidadãos. O registo do quotidiano que as pessoas fazem em vídeo, também é interessante. Se o ponderarmos não como um conjunto avulso de pequenas derivações, mas como uma espécie de retrato colectivo de uma era ganha também um sentido patrimonial. Acho que é muito por aí que os media digitais podem cumprir o seu potencial, pela dimensão patrimonial, por um lado, e também pelo desafio a que nós nos repensemos enquanto estrutura social.

– Quais são os aspectos negativos?

H.A. – O lado menos positivo de tudo isto, curiosamente, era capaz de argumentar que é uma espécie de obsessão com a produtividade. Os media digitais têm progressivamente, nos últimos anos, vindo a consolidar uma eficiência algorítmica na tradução da realidade. Tudo é passível de estatística, de desdobramento numérico, de previsão. De repente esse meio parece tornar-se num fim em si mesmo, começamos a falar de todo o tipo de estatísticas possíveis para além daquilo que pode ser a sua real aplicabilidade ou o seu real valor para o modelo de sociedade e cultura que queremos construir. Começa a existir uma obsessão com a eficiência.

– A era digital, o imediatismo da publicação nas redes sociais, está a fazer as pessoas pensarem menos sobre as consequências das suas acções? Isso é perigoso?

H.A. – Tenho vindo a escrever e a pensar sobre a ideia de paradoxo como um conceito chave da contemporaneidade. Vivemos um tempo em que uma evidência e o seu oposto são igualmente verdade e deixaram de ser contraditórios, portanto, se pensarmos nesta ideia – que as pessoas estão a reflectir com maior profundidade ou, pelo contrário, que há uma leviandade – parece indiciar-se uma espécie de consciência que faz convergir essas duas características. Há uma nova forma de pensar. Ou pelo menos um convite a uma nova forma de pensar. Por um lado, esta grande volatilidade – não lhe chamaria imediatismo, porque é um termo que nos remete para media – esta aparente incapacidade de concentração, curiosamente, é também por causa deste acesso exponencialmente acrescido a conteúdos de todo o mundo que também se está a registar um enorme crescimento intelectual. E há pessoas que estão a aceitar esse desafio de forma maravilhosa. Vejo isso com os meus estudantes. O campo de possibilidades hoje é infinitamente mais vasto. O que nos levanta outros problemas, nomeadamente, o de estabelecimento de sistemas de navegação para esse repertório potencialmente infinito. O que é que eu individualmente decido que faz sentido perante esse campo infinito de possibilidades, o que é que me é relevante, em que é que vale a pena investir o meu tempo e a minha atenção. Esse é o desafio da contemporaneidade. Costumo dizer que, nos dias que correm, a revolução já não é comunitária, é individual. Cabe a cada um de nós manter a sua integridade e depois irradiá-la, fazer com que ela inspire e seja pedagógica para os restantes. Perante esta vastidão e esta tal volubilidade de possibilidades online o que cada um de nós tem de fazer é estabelecer os seus próprios filtros e a sua própria coerência de leitura, que não é intermutável, é sua, e é legítima.

– Esta experiência é verdadeiramente global? Ou é mais global de um lado do mundo do que do outro?

H.A. – Permanecem grandes assimetrias, como sabemos.

– A experiência é idêntica em zonas do mundo onde há menos acesso a ferramentas digitais, em lugares onde há populações com menos acesso ou a vida não está tão ligada ao mundo digital? Há pessoas que estão a ficar de fora ou o processo é tão poderoso que está a incluir toda a gente?

H.A. – Só poderei comentar numa perspectiva macroscópica. O meu repertório, a minha experiência são antes de mais ocidentais, muito marcados pela evidência de ser europeu, tenho também trabalhado nos Estados Unidos. É esse essencialmente o meu universo e no qual sinto legitimidade para comentar. Ainda assim, macroscopicamente, a uma escala global, podemos observar determinado tipo de síndromas. Acho que há um fenómeno que tem tendência a ditar as suas premissas mesmo em sectores da população que não estariam originalmente vocacionadas para elas. Mas, para além da ideia de paradoxo, penso que o que marca a contemporaneidade é esta ideia de infinita complexidade. O que é que fazemos quando vemos a evidência da tecnologia a tornar-se progressivamente mais acessível, em termos de preços, ao mesmo tempo que vemos uma espécie de obsolescência compulsiva na qual inclusivamente muito dessa tecnologia obsoleta é despejada em partes incertas. Esta cultura do consumo desenfreado, que obviamente há-de ter os seus cemitérios algures. Não estou certo de nada disto, mas seguramente o impacto desta cultura é um impacto global. Agora pode é ter este tipo de formas muito pouco utópicas. O impacto desta tecnologia em determinados contextos pode ser o pior, pode ser o despejo de materiais tóxicos em zonas que não têm leis que o proíbam. A questão fundamental é que isto pode e deve ser discutido e muitas vezes não é, porque estamos bastante seduzidos, entretidos com esta visão determinista segundo a qual este delegar de competências humanas em sensores digitais é supostamente um melhoramento – que o é às vezes – mas terá a sua medida.

– Deu uma conferência em Hong Kong e um curso a alunos universitários aqui em Macau, em que ponto está esta discussão aqui na região?

H.A. – Não vejo diferenças fundamentais à superfície entre esta breve experiência [na região] e a minha experiência na Europa no que diz respeito à utilização destes novos media. Volto a fazer uma ressalva, porque é uma experiência muito recente e muito breve, mas vejo possivelmente uma adesão acrescida a propostas de cariz mais analógico que temos vindo a propor aos estudantes. Penso que esta ideia do determinismo digital aqui não está tão presente, ironicamente, porque ao mesmo tempo dá-me a sensação de que há aqui uma adesão acrescida, pelo menos, aos repertórios e às estéticas desse universo digital. Por outras palavras e tentando formular uma hipótese: Será que uma possível adesão acrescida dos estudantes a meios de criação analógicos deriva de uma eventual saturação dos repertórios digitais que os rodeiam e que são possivelmente mais intensos aqui do que na Europa?

– Quando diz que há uma adesão a materiais de cariz analógico está a referir-se a quê?

H.A. – A colagens por exemplo. Estamos a estudar o manifesto imediatista de Hakim Bey [Imediatismo, Hakim Bey, 1992] e estamos a estudar a cultura “punk”. Ontem um dos exercícios que fizemos em 30 minutos com os alunos passou por pegar na imprensa do dia e fazer colagens. A adesão a este tipo de linguagens de repente é uma espécie de epifania, pareceu-me, a descoberta de que isto é possível. O nosso argumento é que não só é possível como seria supostamente evidente. Basta papel, tesoura, cola, por oposição a Photoshop, “copy”, “paste”. É neste tipo de simplicidade criativa que reside a nossa obrigação de manter uma certa clareza quanto aos processos criativos. Porque os processos criativos digitais tornaram-se de tal forma codificados que estão totalmente reféns daquilo que são as próprias opções dos menus em causa. O Instagram permite-nos tirar uma fotografia e escolher no menu qual é o efeito que queremos aplicar. O que estamos a exemplificar com este exercício de colagens é que o leque de opções é muitíssimo maior do que qualquer menu digital. Não tem limites. Esta ideia de pegar na imprensa do dia e reinventar, pegar nas figuras mediáticas, nos anúncios e recriar novas possibilidades de reconfiguração, é de uma extrema simplicidade, mas reabre portas semânticas e criativas que, se calhar, uma geração mais nova nunca tinha considerado, porque nunca lhes tinha sido dada essa oportunidade, não estava no seu radar, porque o iPhone 6 não perdoa. Penso que este é um exemplo da ideia de convergência de que falava há pouco. É um convite a que o digital seja harmonizado com a nossa vocação e experiência tangível da realidade.

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