“O teatro serviu desde sempre para influenciar a opinião”

image_1Mel Gamboa é a protagonista do monólogo “Órfã do Rei”. A partir de hoje e até segunda-feira há teatro de Angola, Brasil, Cabo Verde e Guiné-Bissau para ver no Instituto Politécnico de Macau. A entrada é livre.

 

 

Cláudia Aranda

 

Mel Gamboa, 30 anos, é actriz da Companhia Henrique Artes, de Luanda, e exalta em “Órfã do Rei” as angústias de uma jovem sem família, encerrada num asilo real em Portugal, a quem é anunciada a partida com destino a Angola, para casar com um funcionário da coroa portuguesa a servir em África. A história situa-se no final do século XVI e tem por inspiração factos históricos, remetendo para uma época em que os casamentos de conveniência eram usados como forma de povoar as colónias. O texto foi escrito para teatro em 1992 pelo escritor e dramaturgo angolano José Mena Abrantes. A peça, de 55 minutos, é apresentada sábado, às 20h30, e domingo, às 17h30, no Instituto Politécnico de Macau.

– Representar um monólogo parece ser particularmente difícil.

Mel Gamboa (M.G.) – Esta peça foi uma decisão bastante pessoal fazê-la. Estava a acabar de estudar interpretação, numa escola de actores na Cidade do Cabo, na África do Sul, e achei que deveria fazer uma coisa que fosse mais desafiante e mais difícil do ponto de vista da profissão de actor. Como já faço teatro desde os 13 anos, achei que tinha chegado a altura – há dois anos – de fazer alguma coisa diferente, que representasse um esforço e um compromisso mais sério com o teatro e com o meu trabalho como actriz.

– Há tradição de teatro em Angola?

M.G. – O teatro em Angola tem uma tradição desde a época da luta anti-colonial; foi através do teatro e das manifestações artísticas e culturais que muitos dos grupos se foram formando. A poesia e a música têm tido maior relevância, mas o teatro serviu desde sempre para influenciar a opinião e trazer um pouco o sentido comunitário. Depois da independência o teatro comunitário, o teatro de elucidação, da sociedade civil, também foi uma forma do teatro existir no nosso país. Cada vez mais o teatro torna-se mais sofisticado mais internacional, mais artístico, no sentido de encontrar uma beleza estética particular. Tem havido uma evolução.

– Exerce a profissão de actriz a tempo inteiro?

M.G. – Não, não. Exerço a profissão de actriz mas, infelizmente no nosso país, Angola, não é ainda uma profissão que tenha um título de respeitabilidade, que permita ter um salário à altura, que as companhias tenham um apoio que lhes permita viverem de forma independente e auto-suficiente. Tenho empregos que me sustentam e tenho a minha profissão de actriz que exerço das 19h às 21h.

– O teatro tem público em Angola?

M.G. – Temos um grande público, o que não temos é salas de teatro. Nas salas de teatro alternativas podemos constatar que o público existe, aprecia e quer ver teatro, faz questão. Mas, enquanto o teatro não for visto como rentável ninguém aposta do ponto de vista empresarial. São os directores e os actores que, de forma autónoma, têm investido com o dinheiro do seu bolso, que ganham com outros trabalhos e outros empregos. Estamos à espera que haja melhores condições, que os empresários tenham mais vontade e benefícios fiscais para investir em arte que não seja só artes plásticas ou a música, que deu um grande salto e passou pelo mesmo processo que nós, actores. Então, vamos continuar a trabalhar para chegar ao momento em que vamos ter a mesma credibilidade profissional e o mesmo investimento que têm outras artes.

– Impressões sobre Macau?

M.G. – É a primeira vez que estamos no continente asiático, é a primeira vez que pisamos solo chinês e que estamos em Macau.

– Qual é a expectativa em relação aos encontros previstos com alunos de escolas e universidades de Macau?

M.G. – Do ponto de vista pessoal é conhecer um pouco mais da cultura de cá. É saber como é o modo de vida das pessoas de Macau e aprender um pouco mais sobre como se faz teatro e de que maneira as pessoas vêm a cultura que vem do exterior. Enquanto grupo é sempre uma troca de experiências ampla que nos permitirá levar referências daqui para Angola e trazermos as nossas referências para as pessoas de Macau.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s