“A verdade chega-nos através de múltiplos caminhos”

Tolentino M (2)José Tolentino Mendonça diz não ter escolhido nenhum. Sente-se chamado na vocação poética e na vocação religiosa.

Maria Caetano

Para José Tolentino Mendonça, nada parece demasiado precário a ponto de não conter em si algo a que se deve estar aberto. Poeta e teólogo, mas também um homem das instituições – como, na igreja católica, a Universidade Católica Portuguesa e o Conselho Pontifício –, Tolentino Mendonça segue diversos chamamentos, mas fala-nos de uma mensagem comum. Hoje, na Fundação Rui Cunha, explica quais as utilidades da Cultura nos dias de hoje. No sábado, lê a sua poesia na Livraria Portuguesa. “A Papoila e o Monge” [Assírio e Alvim] é o último título publicado.

 

– Descreve a sua poesia como profana. Contudo, quando a lemos, apercebemo-nos que há nela também uma dimensão do sagrado.

José Tolentino de Mendonça – Eu não separo a experiência do mundo da experiência de deus. Acredito que é na medida em que fazemos do mundo uma experiência de hospitalidade, de acolhimento do próprio real na sua diversidade, na sua tensão, na sua esperança, que podemos sentir os traços dos invisível.

– Relativamente às suas obras publicadas este ano, “A Mística do Instante” fala-nos da experiência mística. Como é que hoje em dia se pode ver a experiência mística?

J.T.M. – A experiência mística é uma experiência fundamental, porque a experiência cristã não é antes de tudo uma experiência sociológica, não é uma experiência de pertença a um povo, a uma história, a um rito. Antes de tudo é uma experiência mística, é uma inscrição da vida pessoal num acontecimento que é o da pessoa de Jesus Cristo. Neste sentido, aquilo que o teólogo contemporâneo nos dizia – que o cristão do futuro ou será místico ou não será nada – aponta de facto para esse regresso ao essencial, à experiência fundamental cristã, que tem de ser sempre uma experiência de inscrição espiritual e, nesse sentido, mística. Para mim, místico não tem um sentido que às vezes é corrente – a referir sobretudo experiências muito singulares, como São João da Cruz ou Santa Teresa de Ávila. A mística é a linguagem de uma experiência que não é apenas uma experiência interior, é uma experiência vital, que diz respeito à vida toda, e que expressa esta ligação inseparável à pessoa, ao exemplo, à vida de Jesus Cristo.

– Fala-nos sobretudo de uma experiência cristã. Fora do universo cristão, há a experiência de uma sensibilidade religiosa.

J.T.M. – Para lá do cristianismo há tantas outras tradições espirituais carregadas de uma grande intensidade de procura de deus, de encontro de sentido, com os seus textos sagrados próprios, que são também elas caminhos de abertura de interrogação do grande mistério de deus.

– Há hoje uma grande hipersensibilidade rápida às coisas, as pessoas estão muito ligadas a tudo de uma forma geral, ou pelo menos o acesso é facilitado, não do ponto de vista da religião exclusivamente.

J.T.M. – Creio que quando se olha para o mundo, num olhar rápido, parece que andamos todos distraídos, ocupados na luta pela sobrevivência ou então buscando sentido em coisas absolutamente acessórias, provisórias, até um pouco banais. Mas eu tenho de facto um olhar de esperança para com o mundo. Acredito que, quando se vai além de um primeiro olhar e de uma visão rápida, percebe-se que existe no coração da mulher e do homem contemporâneo existe uma sede autêntica por encontrar um sentido para a própria vida e por se expor, talvez até mais do que em outras épocas, à grande interrogação de deus, do sagrado, da transcendência.

– Ao mesmo tempo parece haver uma grande variedade de experiências disponíveis em que as pessoas procuram essa religação.

J.T.M. – Também é um dado contemporâneo. De certa forma, o que a modernidade veio acentuar é a dimensão individual dos caminhos. Cada um sente que tem de fazer também uma síntese própria. Isso, às vezes, na relação com a tradição cria determinadas tensões. Mas acredito que se vai chegar a um equilíbrio muito grande em que a apropriação legítima da tradição – e absolutamente necessária, porque os nossos caminhos são caminhos comuns e bebemos muito do que os outros nos legam – e aquilo que é também a necessidade que hoje se sente de uma fé conjugada no singular, e que a biografia que cada um constrói e representa, são também tomadas em linha de conta nessa síntese.

– Publica também este ano “A Papoila e o Monge”, obra poética que se inspira nos haikus. Esteve no Japão, onde nasceu essa experiência poética.

J.T.M. – Nasce de facto dessa peregrinação pelo Japão, de uma auscultação profunda daquela realidade. Não quis que fosse uma espécie de livro turístico, mas fosse apreender a experiência vital – uma experiência muito mais do lado do silêncio até do que da própria expressão. Nesse sentido, creio de facto que a poesia é uma espécie de sismografia, porque é capaz de identificar os movimentos profundos de um tempo, de um coração.

– Terá que ver com a sua personalidade: nas entrevistas que dá mostra uma grande diversidade de referências, que vão desde as escrituras religiosas às músicas dos Belle and Sebastian. Quais são as suas principais referências?

J.T.M. – Eu valorizo muito o diverso. Sei que é na diversidade, na polifonia de vozes com que a vida chega até nós, que podemos colher a riqueza dela. A vida não é uma monodia, é uma polifonia. Nesse sentido, a diversidade de referências tem a ver com este reconhecimento profundo de que a vida é um aberto que se joga no tempo, e que a verdade chega-nos através de múltiplos caminhos. Claro que os textos sagrados cristãos tiveram e têm um papel muito importante na minha formação e também na minha formação como poeta, mas de certa forma nada do que li [deixou de me influenciar]: desde os poetas mais antigos – e o nome de Li Bai é sem dúvida um nome que coloco ao lado de Dante e de São João da Cruz na importância que tiveram na minha formação poética -, desde a cultura clássica, e, na tradição cristã, desde o austero e fascinante discurso dos padres da igreja, até à cultura pop na sua multiplicidade de referências – que muitas vezes parece um discurso demasiado precário, contudo, se estivermos atentos, há aí uma verdade sobre a pessoa humana que emerge. Um poeta tem de estar atento a toda a realidade – atento ao passado, atento ao seu presente e atento a essa corrente silenciosa que é o futuro, já tão próximo de nós.

– Dentro das obras que publica, tem registos muitos diferentes: um como poeta, outro como teólogo e ensaísta. Sente que as pessoas que o conhecem através da poesia o reconhecem também depois por esse lado, ou há aqui uma separação de obras muito grande em que não se reconhece a mesma pessoa?

J.T.M. – Há um lema de uma geração de poetas importantes em Portugal, dos Cadernos de Poesia dos anos 1940, 1950, 1960, onde estiveram o Jorge de Sena, a Shopia [de Mello Breyner], o Ruy Cinatti, que tinha como lema ‘a poesia é só uma’. E, de facto, eu sinto isso. O que eu procuro é uma coisa só. Preciso de facto de exprimir-me em linguagens diferentes e isso tem a ver também com a minha vocação, embora haja de facto leitores que só lêem a minha poesia e não lêem os meus ensaios teológicos, e vice-versa. Para mim, essa diversidade de expressões é uma necessidade. Posso dizer que não escolhi. E, se calhar, há coisas importantes na vida em que nós não sentimos que escolhemos, mas que fomos escolhidos por aquilo, para o realizar. Em relação à poesia e à teologia, sinto um bocado isso. Cheguei até lá, mas também me sinto chamado.

– Fala hoje na Fundação Rui Cunha sobre o contributo da cultura para o desenvolvimento. Que contributo é este?

J.T.M. – Na relação entre os dois povos, o povo chinês e o povo português, temos exemplos admiráveis de como é através da cultura que se desenvolvem as relações, a partilha de conhecimentos e a definição de um futuro onde a amizade joga um papel fulcral. Lembro-me da história do padre Matteo Ricci e de como ele exemplifica bem o lugar fundamental que a cultura tem para o estreitamento das relações e o desenvolvimento. Desde os séculos antigos até ao presente nós percebemos, por exemplo, nas nossas sociedades contemporâneas, cada vez mais a força das próprias indústrias culturais e a importância que elas têm no PIB de todos os povos. Quer dizer, que a cultura se torna indispensável não só para a vida do espírito, mas também para a vida económica, para a vida social, para o modo como os seres humanos habitam sobre a terra e procuram responder ao desejo de felicidade que todos têm no seu coração.

– No caso da ligação Portugal-China, e Portugal-Macau em particular, esta relação de amizade é instituída e tem uma longa história. Mas, hoje em dia, há este investimento no reconhecimento cultural?

J.T.M. – A presença de Macau em Portugal e na cultura portuguesa é muito forte: na literatura, no cinema contemporâneo português, na arquitectura. A relação com Macau é de facto um traço fundamental na reflexão que hoje Portugal. Não conhecendo ainda a realidade de Macau, acredito que também traços, memórias da presença da cultura portuguesa continuem a fazer parte da identidade do próprio território e da sua cultura, porque o encontro com os outros deixa sempre em nós uma marca, um sinal, uma memória.

– Há uma visibilidade de Macau em Portugal? Apercebe-se disso?

J.T.M. – Apercebo-me. Mesmo no cinema português, só para referir um testemunho, essa presença é muito importante. Mas em todas as áreas também – na literatura, a presença de Macau é uma marca tão forte, tão fecunda.

– No seu papel de representante da instituição que é a Universidade Católica Portuguesa, que tem também aqui a sua marca na Universidade de São José, há essa vontade de fomentar a troca cultural? Há um programa nesse sentido?

J.T.M. – As universidades são grandes laboratórios de cultura. A matéria-prima com que uma universidade trabalha, que é o conhecimento e a produção da ciência, são no fundo marcas culturais. Uma universidade vive de facto a produzir cultura e, nesse sentido, quem está numa universidade tem consciência do valor, do significado da cultura. A Universidade Católica Portuguesa olha com uma enorme esperança para a universidade mais jovem que é a Universidade de São José. Certamente, no tempo, ela será uma fonte de cultura que potenciará o desenvolvimento da própria realidade cultural de Macau e de todos os que contactarem com a universidade.

– E, nesse sentido, há entre a Católica e a São José um programa comum?

J.T.M. – Temos uma colaboração estreita que passa pela partilha entre professores, entre programas e projectos. O professor Peter Stilwell, recentemente, disse querer valorizar muito esta dimensão cultural e ligada à lusofonia. Entre as nossas universidades há uma relação muito estreita de colaboração, de respeito. São duas instituições irmãs que contam muito uma com a outra.

– Ao nível da direcção da São José, houve a colocação de uma nova vice-reitora, Maria Antónia Espadinha, antes do departamento de Português da Universidade de Macau. Eventualmente, trará um enfoque maior nesta ligação à cultura portuguesa, já que antes estava mais vocacionada, sobretudo, para o inglês?

J.T.M. – Hoje as universidades têm de ter uma atenção muito grande à internacionalização. De maneira que tem de haver uma grande abertura ao espaço internacional, às trocas, à circulação de ideias e de pessoas. Mas ao mesmo tempo é sempre necessário sublinhar o que são as raízes culturais profundas de cada projecto universitário. Nesse sentido, as mudanças que são normais na vida de uma universidade, porque todos os mandatos são renováveis, devem ser para responder aos grandes desafios que se colocam hoje. Passa muito por conjugar o que é uma identidade local com esta abertura necessária ao mundo.

– A sua tese de doutoramento foi sobre religião e espaço público. Registei algumas declarações suas em anteriores entrevistas e dizia a certo momento que é importante não eliminar o atrito no espaço público, a diferença de opiniões. Em termos de intervenção, como vê a igreja hoje? Mais actuante, mais discursiva?

J.T.M. – As religiões têm um papel muito grande na construção da vida dos povos. A religião é uma parceira muito importante nessa busca de uma convivência pacífica. Não é o actor único, mas é parceira, coopera nessa construção. Estudei o modelo dos Estados Unidos, onde a religião tem um papel reconhecido no espaço público, é uma referência da vida comum, e penso que essa experiência não é apenas americana. Cada povo, cada lugar afirma as suas próprias convicções religiosas e afirma-as de uma maneira em que a religião se torna um contributo, uma fonte de valores que ajuda a que a nossa vida colectiva seja, necessariamente, aberta, colaborativa, pacífica, ligada à verdade de cada povo, à sua história.

– A igreja, nalgumas circunstâncias, admite a necessidade de posicionar-se de uma forma mais assertiva? Falava-lhe por exemplo no caso da diocese de Hong Kong, numa altura em que se está a discutir reformas políticas, a igreja assume as suas posições publicamente mesmo na esfera política. É uma coisa que em Macau não vemos acontecer.

J.T.M. – Eu não conheço de facto essas realidades. Vou pela primeira vez a essa parte do mundo, a visitar Macau. Tenho uma grande expectativa e terei de facto muito gosto em conhecer, estar perto e em compreender essa realidade que é fundamental para compreendermos o mundo. Mas de facto não me posso pronunciar porque não tenho um conhecimento local e tudo o que eu disser não é próximo daquilo que as pessoas vivem. Gostaria de conhecer primeiro para falar depois, como mandam as pessoas sensatas.

– Fazia-lhe a questão do ponto de vista do que defende a Fundação Católica em Macau, tal como a Universidade de São José e a própria diocese, que, em princípio manifestam um respeito pelo que está instituído aqui, mas também uma necessidade também de se submeterem a certos preceitos políticos. Muito concretamente, falando da questão do afastamento da São José de um professor com intervenção no debate público, Eric Sautedé.

J.T.M. – É uma leitura que me está a colocar, mas não é de forma pacificada a leitura que nós temos dessa realidade. Penso que é importante perceber que um rio vai passando e que nós temos de olhar para o futuro que vem e não para as águas que passaram. Queria dizer que a Universidade Católica Portuguesa e toda a gente que conhece o professor Peter Stilwell sabe bem os valores que o informam, o seu amor e a sua fidelidade à igreja, à sua doutrina social. As autoridades da Universidade de São José têm todo o reconhecimento da parte da Universidade Católica e penso que agora é preciso olharmos para o futuro.

– Ponderando uma abordagem diferente?

J.T.M. – O reitor da Universidade de São José é o professor Peter Stilwell, numa grande ligação com a igreja de Macau, e ele tem tido em todo este processo a solidariedade da Universidade Católica. Há momentos difíceis, mas também há amanheceres, há dias que começam. Acho que é para aí que temos de olhar.

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