Recuperação das casas da antiga leprosaria de Ka Ho sem data para terminar

photo 1-10O Instituto Cultural quer iniciar obras na segunda casa em breve. Para já, cinco habitações estão abandonadas à vegetação, mas não ao sossego.

São dois tempos num só espaço. Um deles é o passado estranhamente familiar e irreal das imagens dos sítios onde nunca se foi. Uma melancólica “África Minha” nos alpendres, uma traça europeia tão estrangeira entre a vegetação tropical e uma natureza invasiva que embrulha paredes, rompe tectos e se alonga pelo chão.

O outro é um futuro tão incaracterístico como qualquer obra em todo o mundo. Aquele que faz vergar montanhas à força de bate estacas e que transforma trilhos em eficientes auto-estradas de betume e de progresso.

Aqui, junto da Estrada de Nossa Senhora de Ka Ho, em Coloane, as seis casas da antiga leprosaria são quase engolidas pelo estaleiro onde se constrói um hospital de reabilitação e um novo lar de idosos e pela estrada quase pronta que os vão ladear.

Por isso, chegar a estas moradias que terão sido construídas em 1885 é quase como participar num de jogo de orientação. O agente da PSP destacado na vila de Ka Ho coça a cabeça e não reconhece uma fotografia da antiga leprosaria; nas ruas não há indicações para as construções com mais de um século – apenas betoneiras e camiões carregados de cimento que circulam como formigas na estrada por inaugurar. Já as únicas placas que existem no percurso apontam para institutos, direcções de serviço e companhias de construção. Sinais de que existem ali as antigas habitações onde se desterravam os leprosos de Macau? Quase nenhuns.

Há vestígios, claro, mas só visíveis a quem os procura. Por exemplo, as letras vermelhas da placa que indicavam o caminho para o antigo lar de Nossa Senhora de Ka Ho quase desapareceram. Distingui-las é hoje tão fácil como pedir a quem sofra de astigmatismo para apreciar, sem óculos, a delicadeza da filigrana.

Mas o plano do Instituto Cultural é de que esta situação se altere. Apesar de cinco habitações estarem abandonadas à vegetação e servirem de encosto a um módulo sanitário portátil, o Governo terminou a reabilitação da primeira casa em Janeiro deste ano. A fachada parece pintada de fresco e saída do Tap Seac – os tons de amarelo e de vermelho carregados são os mesmos da praça em Macau.

No entanto, quem se aproxima da casa recuperada não sabe o que pode vir a ser – o interior está fechado com tapumes vermelhos nas janelas, guardados a cadeado.

Ao todo, a intervenção nesta casa que serve de projecto-piloto para as restantes cinco, custou 1,6 milhões de patacas ao Instituto Cultural. As intervenções vão ser feitas de forma faseada – uma habitação depois da outra – e o segundo projecto deve arrancar no curto prazo, assegura a entidade, sem indicar que planos tem para o local.

A intervenção não tem data para terminar para já. Por isso, mais rápida será a obra que ladeou de tapumes o trilho que existe junto às seis casas da antiga leprosaria: deve estar pronta dentro de pouco mais de dois anos, segundo as Obras Públicas.

O som metálico dos martelos no local confirma-o e também se encarrega de lembrar que o século XXI avança já, sem demora ou delongas. Mesmo para aqueles que teimam em querer saborear um passado remoto, ali, de costas voltadas para o futuro.

KA Ho com bom ar

A chegada à fábrica de cimento instalada junto da povoação de Ka Ho, em Coloane, é anunciada por finas poeiras no ar. No entanto, estas não são insuportáveis e o ar é mais respirável do que há cinco meses. Percebe-se porquê. Na praça junto da Escola de São José de Ka Ho estava ontem à tarde um agente da PSP que saudava – e controlava – os camiões que transportam cimento da povoação e para evitar que a carga se alastrasse e dissipasse pelo ar havia uma pessoa encarregue de molhar o pavimento. Ambas as iniciativas fazem parte das medidas exigidas e implementadas pelo Executivo em Abril deste ano, depois de muitas críticas de moradores, associações e escolas contra a poluição atmosférica.

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