A obra “a quatro mãos” de Carlos Castanheira e Siza Vieira

Arquitecto Carlos Castanheira - Foto Claudia Aranda 1“É o Siza que os clientes asiáticos querem, isso é indiscutível”, garante Carlos Castanheira, a trabalhar na China com Siza Vieira há, pelo menos, cinco anos.

 

Cláudia Aranda

O arquitecto Carlos Castanheira, 57 anos, é o parceiro na Ásia de Álvaro Siza Vieira, 81. Trabalham para clientes endinheirados que querem “qualidade” e investem o que for necessário para garantir um projecto de autor.

É o caso dos irmãos Kwan que fizeram questão de ir buscar Siza Vieira a Portugal para a remodelação do seu Hotel Sun Sun. A obra vai transformar a antiga e pequena estrutura hoteleira situada na Praça de Ponte e Horta, no Porto Interior, num “hotel de charme” – o primeiro do género a ser construído em Macau, co-assinado por Castanheira e o seu antigo professor no curso de arquitectura da Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto e parceiro em vários projectos, incluindo no de reabilitação do Chiado, em Lisboa. A obra, que ainda não tem data de conclusão, poderá custar pelo menos 100 milhões de dólares de Hong Kong, adiantou há dias ao PONTO FINAL um dos proprietários, Yany Kwan, proprietário da Galeria Macpro e presidente da Treasure Island Entertainment Complex, subsidiária da Genting Hong Kong, grupo na área do jogo, hotelaria e entretenimento.

– Há alguma previsão para a conclusão da obra de remodelação do Hotel Sun Sun?

Carlos Castanheira (CC) – O mais depressa possível. Agora vamos estar na fase complicada de aprovações [de licenciamento da obra]. Tanto quanto me disseram é algo demorado aqui em Macau. Estamos completamente dependentes disso. Temos os projectos prontos, de arquitectura e engenharias.

– Faz ideia quanto tempo pode demorar?

C.C. – Já me disseram que devido à pressão que há dos projectos dos novos casinos os serviços estão um bocadinho demorados. Estamos preparados para esperar um bocado.

– E qual a previsão para a execução do projecto, depois de obtidas as aprovações?

C.C. – Acho que se consegue fazer a obra num ano. Até porque o próprio hotel tem interesse em não ficar muito tempo parado. Porque vai ter de parar. Há remodelações de hotéis que se vão fazendo com os hóspedes. Não é o caso. Esta vai ser uma remodelação geral e vai ser preciso fechar o hotel. O ideal é, no máximo, um ano.

– O projecto inclui a zona envolvente?

C.C. – É só o hotel. Havia a intenção, dos próprios clientes, de alargar o projecto de remodelação à praça. Havia um projecto de criar um parque de estacionamento para aquela praça. Há um problema geral de estacionamento em Macau e aquela zona está muito deficiente. Os próprios clientes estavam interessados em investir nisso, assim houvesse vontade do Governo de Macau. Fizemos só um pequeno estudo. Mas, [a praça] não é propriedade do cliente, é do Governo. Seria bom, não só para o hotel, como para toda a área. E é tecnicamente possível.

– Como é que acontece a vinda para a Ásia?

C.C. – Há cerca de 10 anos há um convite, um empresário que vem com um arquitecto coreano, que eu conhecia, que vai a Portugal fazer uma visita ver e falar com o Siza e lança um desafio para fazer um trabalho na Coreia. Entretanto aparece “a la minute”, uma coisa urgente para uma bienal de arte numa cidade satélite de Seul. Este acabou por ser o segundo contacto, mas o primeiro edifício a fazermos é o pavilhão de Anyang [construído em 2006]. A partir dessa altura começámos a nossa parceria. Todos os trabalhos que temos feito na Ásia têm sido feitos em parceria. Depois fomos convidados para fazer um museu privado, laboratórios para esse empresário que lá nos foi visitar, a seguir recebemos um convite para trabalhar no Japão e Taiwan. O empresário de Taiwan convidou-nos para fazer trabalho na China [um dos projectos consiste num edifício de 10 mil metros quadrados sobre a água que serve de escritório de uma fábrica de químicos inaugurado em finais de Agosto]. Foi esta gente que nos apresentou à gente de Macau [proprietários do Hotel Sun Sun], num jantar em Taiwan em que vai um dos proprietários [do hotel] me convidou para fazer isto. Vim cá ver, fui muito bem recebido, nunca tinha estado em Macau. Foi há uns dois anos.

– Em que ano é que chegam à China?

C.C. – Acho que entrámos em Taiwan há cerca de cinco anos e depois há um dia que o cliente pergunta se queremos fazer este edifício na China. E eu fui lá ver. O Siza foi lá duas vezes, antes de partir o braço. O Siza vinha à Asia duas vezes por ano. Eu estou um mês em Portugal e duas semanas a viajar.

Qual é o peso que a Ásia tem no volume de negócios da empresa, tem um peso importante?

C.C. – É muitíssimo importante por duas razões, não só pelo volume de trabalho, mas também pelo volume de pagamento e assiduidade de pagamento. Enquanto em Portugal nós não sabemos se vamos receber, quando vamos receber, sobretudo se estamos a falar de obras públicas, aqui as pessoas estão muito preocupadas em pagar, querem pagar. Às vezes até – entre aspas – são aborrecidas, telefonam: “então quando é que eu pago?”, que é um hábito que terminou em Portugal, ninguém pergunta. Pelo contrário, nós é que temos de andar atrás deles. E isso é um aspecto muito importante, é muito estimulante, e é assim que deveria ser sempre, são as regras normais de trabalho. Para além disso, somos bastante bem tratados, as condições de trabalho são muito boas, como o Siza referiu em conferência de imprensa, o cliente quer qualidade, o que é essencial. Portanto, é um mercado fundamental para nós.

– Pelo que acaba de descrever estão a lidar com clientes especiais. Estes que buscam a qualidade não são clientes comuns, ou são?

C.C. – Se vir bem nós temos feito obras grandes, mas para a nossa escala. Este edifício que acabámos de construir na China tem 10 mil metros quadrados. O cliente andou à procura de empreiteiros, com algum nome, e todos recusaram por ser um projecto pequeno demais. Há muitos arquitectos internacionais, mais ou menos conhecidos, que estão envolvidos em projectos “mega”. Nós nunca estivemos envolvidos em projectos “mega”. Foi falado um ou outro caso de projecto grande, mas estamos mais envolvidos com este tipo de cliente que quer fazer edifícios de médio porte, não de centenas ou de milhares de metros quadrados. A arquitectura que fazemos é de pormenor, de muito cuidado – não estou com isto a dizer que a outra arquitectura não é cuidada – mas é um trabalho feito à medida, muito específico para aqueles clientes. Não é uma torre de apartamentos em que não sabemos sequer quem é o cliente. São trabalhos muito específicos, são pessoas com uma capacidade económica grande, mas há quem tenha muito mais. Já tive contactos com uma empresa chinesa que é a maior empresa de imobiliário do mundo, que tem feito milhões de metros quadrados. Falámos, fui visitá-los, mas a ideia deles é entregarem-nos algo especial, como por exemplo, uma praça com restaurantes, não são prédios de apartamentos. Aperceberam-se que, da nossa parte, será melhor equipamentos especiais. Temos sido muito convidados para fazer museus – estamos a fazer dois projectos – estamos também a fazer umas vilas, grandes, numa península onde vai haver 25. Nós estamos a fazer cinco, um japonês a fazer quatro. São projectos muito específicos, de uma determinada categoria.

– Aceitariam fazer um projecto de raiz de um casino?

C.C. – Iriamos avaliar. Há sempre uma coisa que é difícil de explicar, que é a empatia com o próprio cliente. Se é um cliente que quer estar connosco, quer participar… Se for o cliente de empresa, que não sabemos quem é, que está algures no cimo de uma torre, que preside ao conselho de administração e que, sem sequer falar connosco, diz “Gosto. Não Gosto”, não. Precisamos de ver a cara do cliente, discutir com ele, perceber o que quer para podermos dar-lhe uma resposta adequada e personalizada. Se o cliente é uma empresa sem rosto é um bocadinho difícil. Mas, porque não fazer um projecto grande? Já fizemos tantos…

– Os clientes asiáticos estão à procura dos nomes sonantes, querem o “Siza”?

C.C. – No caso de Macau isso é claro. Há uma visita de um dos proprietários do hotel, que é o Wilson Kwan (irmão de Yany Kwan, presidente da Galeria Macpro), que vai a Taiwan onde os clientes estão contentes com o nosso trabalho. Eu sou convidado para um jantar e ele, educadíssimo, mete conversa e pergunta se arranjo tempo para vir a Macau ver. Gostei dele, vim cá, e gostei não só da maneira como fui recebido, mas porque o hotel é realmente um desafio interessante. Discuti com o Siza e concordámos em avançar. Mas, é o Siza que é procurado, isso é indiscutível. E grande parte destas situações é por boca-a-boca, é o professor que é assessor do cliente, que aconselha e diz “vai falar com o Siza, contacta o Siza”.

– Essa busca pelo nome, pela qualidade, é algo recente?

C.C. – Acho que há duas questões. Há muita gente que procura o gesto do famoso, que o famoso faça uma casca que seja muito marcante no território e na paisagem e depois querem fazer o resto. Alguns aceitam, estou a falar de arquitectos muito conhecidos. Outros não aceitam e tem havido problemas com isso. Depois há a mega-construção planeada e projectada por grandes institutos de projecto (…). Há uma pressão muito grande dos clientes para construir muito rápido, para ter lucro rápido e portanto o planeamento, apesar de ser feito por equipas relacionadas com universidades, está a ser desenfreado e estão a cometer-se os erros habituais, que nós [em Portugal] fizemos, mas a uma escala completamente diferente. (…) Penso que isto irá ter as suas consequências mais tarde.

– A China está a ser uma oportunidade para a arquitectura portuguesa?

C.C. – A China é uma oportunidade para a arquitectura portuguesa. É, sobretudo, uma oportunidade para os jovens arquitectos. A saída das universidades hoje é de avião. [Os jovens em Portugal] não têm hipóteses.

– Como é que se divide o trabalho entre o Siza Vieira e o Carlos Castanheira?

C.C. – Faço projecto de arquitectura em parceria com o Siza, fazemos em co-autoria, é quase como tocar piano a quatro mãos. O primeiro passo é dele. Às vezes o primeiro passo é meu, mas é um passo mais burocrático: visitar os clientes, os lugares e dar a minha opinião. Mas é um jogo a dois, depois temos a coordenação de engenharias, mas todo o trabalho é feito no meu escritório, o Siza vai ao meu escritório.

– Qual a importância dos objectos de design e mobílias nestes projectos na China?

C.C. – Não fazemos cascas, nós fazemos o pacote inteiro, com o interior, e chegamos a ir ao detalhe, às cortinas. Também não somos decoradores. O que o Siza fez ao longo dos anos foi uma série de móveis e de objectos e temos insistido em fazer esses móveis em Portugal. Os candeeiros também são feitos em Portugal. Têm aparecido hipóteses de desenvolver tapeçarias, sejam elas com desenhos já feitos ou desenhos para determinados sítios. Tapeçarias, esculturas, painéis de azulejos com desenhos do Siza. São contentores e contentores que vêm, até de avião, regularmente para estas obras. É considerável, atingem-se valores já bastante significativos. Portanto, consegue-se ir à Coreia e ver um edifício com mobiliário feito em Vila Nova de Gaia, os candeeiros do Porto, os tapetes de Espinho, os azulejos de Sintra. E até há mobiliário de escritório. A arquitectura acaba por dinamizar a produção de outro tipo de produtos. Já exportámos mármore.

– A remodelação do hotel vai incluir objectos de design portugueses?

C.C. – Sim. Em Macau não se produz nada, seria necessário ir à China. Os proprietários querem fazer um hotel de design, de charme. A ideia é trazer o máximo possível de objectos de Portugal, tapetes, desenhos, originais ou serigrafias. Não vamos fazer um hotel português, não vamos trazer galos de Barcelos nem nada disso, a ideia é trazer o que temos de bom em Portugal, com desenho bom e até, possivelmente, com desenho de outros designers.

– Houve outros contactos para projectos aqui em Macau?

C.C. – Tivemos um contacto para um outro hotel na Taipa, mas não chegámos a acordo a nível de honorários. Era para fazer um hotel num terreno vazio na Taipa. Fizemos uns esquissos, mas não teve desenvolvimento. Tanto este hotel como esse da Taipa são hotéis que contrariam a ideia de hotel-casino.

– Quem é que fez a proposta?

C.C. – É um proprietário local. Foi pena, estava entusiasmado com esse trabalho. É fazer bem, mas diferente. Porque isto é tudo muito igual.

– O que acha da arquitectura dos casinos?

C.C. – Isto é uma receita para este fim. Eu não conseguiria viver neste ambiente, consegue-se estar aqui uma semana, mas é isto que é preciso. Como os americanos dizem, “tem de ter o glamour”, se não tem glamour não interessa. Mas há pessoas que, se calhar, não querem isto, querem vir jogar mas querem um ambiente mais tranquilo, na decoração, com menos dourados. Esta arquitectura tem uma linguagem que não é a nossa. Mas acho muito mais preocupante o que está a acontecer à volta de Macau. A China está a chegar-se. Se estas construções em Macau são mega, as do outro lado da água têm uma escala enorme, brutal, que estão quase a amarfanhar esta euforia, esta coisa extraordinária que é este luzir, este brilho de todos estes edifícios. Do outro lado [da fronteira] está a fazer-se, na minha opinião, construção de muito má qualidade, e numa escala brutal. O pouco que resta de Macau está a começar a ficar muito, muito abafado.

– De que forma essa construção massiva do outro lado da fronteira afecta Macau?

CC – Em termos estéticos, ambientais, ainda há um prazer em vir a Macau, não sei se com esta pressão tão grande se isso vai continuar. Se há críticas ao trânsito, quanto mais pontes se fazem, mais gente entra, isso não vai melhorar a qualidade de vida de Macau de maneira nenhuma.

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