Houve quem lhe chamasse “Deusa da Democracia de Macau” na Internet. Kam Sut Leng, professora, tornou-se popular há mais de um ano, ao participar nos protestos do 1º de Maio. As razões que a levaram a juntar-se ao movimento democrata não passaram, no entanto, de um acaso. Tal como a maioria dos jovens, esta docente de Chinês era apolítica e sabia praticamente nada sobre o sistema político da RAEM. Depois de ter feito parte de uma associação pro-Governo, Kam Sut Leng começou a aperceber-se da diferença entre aquilo a que chama “o sistema” e a ala liberal.
Enquanto professora, a activista admite que hoje tem de ter cuidados redobrados para não prejudicar o seu trabalho, protegendo-se de críticas, uma vez que já foi dispensada de uma escola devido ao seu envolvimento em movimentos cívicos.
Ter enorme exposição pública e conseguir um assento na Assembleia Legislativa não faz parte dos seus planos, já que Kam Sut Leng considera que a sua acção é mais flexível fora do hemiciclo.
– Porque é que decidiu começar a dar a cara?
Kam Sut Leng – Frequentei um curso ministrado por uma organização pro-Governo [cujo nome prefere não revelar] em 2012, que ensinava jovens a perceberem o sistema político. Foi um mero acaso, apenas mais um curso como os outros. Não sabia nada sobre política até essa data. Toda a minha vida enquanto estudante do secundário, de licenciatura e de mestrado… nunca soube nada sobre política.
– E ao mesmo tempo inscreveu-se na Associação Novo Macau.
K.S.L. – Só faço oficialmente parte da associação desde este ano. Participo nas actividades que organizam desde que conheci alguns dos membros numa manifestação de professores, em 2012. A partir daí comecei a prestar atenção ao que publicavam no Facebook e comecei a comparar estas duas organizações [a Novo Macau e a associação pro-Governo]. As actividades que eles [pro-Governo] organizam são mais para a classe alta, as pessoas bebem vinho tinto e encontram-se personalidades importantes.
– Foi por esse motivo que decidiu deixar a associação pro-Governo?
K.S.L. – Já sabia bastante mais durante aquele curso. Foi uma formação de um ano mas na segunda metade comecei a não ir às aulas. Eles convidavam nomes de peso: Chui Sai Peng, Susana Chou. Lembro-me que uma das aulas foi dedicada à explicação dela de como tinha chegado àquele cargo [presidente da Assembleia Legislativa] e a elogiar-se. Os professores que eles escolhem passam por uma selecção. Não aprendi muito com isso. O objectivo deles era apoiar a reforma política ‘2+2+100’, que era o tema quente naquela altura. Lembro-me que o presidente da associação chegou a dizer publicamente aos seus membros que apoiava o ‘2+2+100’. Não havia margem para discussão e nessa altura em nem sabia o que aquilo era.
– Tentou convencer outros jovens que frequentavam o curso a juntar-se a si e a abandonar essa associação?
K.S.L. – Em Macau tudo está muito assente nas ligações. Mesmo que as pessoas te apoiem, não vão fazê-lo publicamente, uma vez que não querem fechar a porta a oportunidades. Percebo as suas razões. Têm de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a sua moralidade. Se os seus empregos não saíssem afectados, julgo que mais pessoas teriam voz activa. Mesmo os professores universitários – que têm um trabalho mais estável – estão sob pressão. O que dizer dos outros?
– Foi criticada por usar mini-saia na manifestação do 1º de Maio, no ano passado. O que acha disso?
K.S.L. – Pode ver quão pedantes são as escolas. Há claramente regras subliminares para os professores, restrições. Quando estamos fora do trabalho esperam que ainda nos comportemos como se estivéssemos na sala de aula. Nada de mini-saia, especialmente para participar num protesto… A minha identidade enquanto professora não deve colocar-me quaisquer barreiras quando deixo a sala de aula. Vejo algumas mudanças desde esse incidente. Alguns professores apoiam-me, enquanto que outros, mais conservadores, mantêm uma opinião opositora.
– Publicou uma foto nas redes sociais com a frase “Tenho direito a usar calções”, no 1º de Maio deste ano, ao lado de duas apoiantes. Foi uma espécie de vingança pelo que aconteceu no ano passado?
– K.S.L. – Preparei vários cartazes com esse slogan. Duas raparigas abordaram-me e perguntaram-me se podiam pegar neles e tirar uma fotografia. Então perguntei-lhes se podíamos tirar uma fotografia juntas e publicá-la no Facebook, depois de lhes explicar o que me acontecera no ano passado. Elas concordaram. Fiquei comovida. Desta vez não estive sozinha. As pessoas têm direito de usar aquilo que querem.
– O envolvimento activo em movimentos cívicos traz-lhe alguns inconvenientes no trabalho?
K.S.L. – O meu contrato foi terminado sem qualquer justificação [na escola em que trabalhava e que prefere manter anónima]. Há uma avaliação anual para cada professor, normalmente em Junho. O director da escola fez-me uma entrevista e a primeira coisa que me disse foi ‘não renovaremos o seu contrato’. Culpava-me pela cor do meu cabelo e o modo como eu ensinava. Quando lhe perguntei se aquilo tinha que ver com o meu comportamento fora [da escola], ele admitiu que tinha ‘um pouco’ que ver. Tenho sempre dúvidas entre não assumir posições extremadas e confrontar a sociedade, e a crença de que se conseguir ir um pouco mais além as coisas podem alterar-se…
– Nunca considerou ter outra profissão, que lhe permitisse ter mais liberdade para esta participação cívica?
K.S.L. – Acho mesmo que não haverá qualquer outra escola que contrate pessoas que possam causar problemas. Comecei a procurar trabalho depois daquele episódio e tive sorte de haver uma escola que precisava de uma professora de Chinês. Eles não se importam com o que faço fora da escola, desde que cumpra com as minhas responsabilidades na sala de aula.
– Influencia, em alguma medida, o modo como os estudantes pensam sobre a sociedade?
K.S.L. – Ensinarei sempre de acordo com o programa. Se houver sessões de leitura de jornais, eu conduzirei a discussão entre os estudantes. Caso contrário não tenho tempo para ensinar o que quer que esteja fora do programa. Tenho de fazer trabalho extra para que as pessoas não me tomem como aquela que ‘faz lavagem cerebral aos estudantes com as [suas] crenças políticas, sob o pretexto do ensino’.
– Mas não usa a sua experiência para esclarecer os estudantes?
K.S.L. – O actual modelo de ensino é realmente problemático. Acho que é normal deixar os estudantes escolherem por si mesmos. Pelo menos devemos deixar que experimentem tudo, da esquerda à direita, deixando-os tomar as suas próprias decisões. Não refiro nada além do programa da disciplina, mas se os estudantes me perguntarem ficarei satisfeita em responder-lhes. Fizeram-me perguntas sobre os protestos em Taiwan e fiz com que explorassem mais o tema ao pedir-lhes que escrevessem um ensaio sobre o movimento ‘Sunflowert’ [acção estudantil contra o pacto comercial com a China Continental]. Pensamento crítico é o que não temos por cá. Os estudantes são muito obedientes e nunca desafiarão a autoridade – os professores também podem cometer esse erro. O dito ‘Platão é meu amigo, mas sou mais amigo da verdade’ é exactamente o que eu quero que as pessoas saibam.
– Porque é que não participou nas últimas eleições legislativas como candidata?
K.S.L. – Recusei essa possibilidade porque não acho que esteja pronta ou que tenha a capacidade para debater com outros candidatos na televisão. Mas trabalhei como chefe de campanha da equipa [de Jason Chao, presidente da Associação Novo Macau]. Aprendi muito, especialmente a importância do trabalho em equipa. Mesmo que seja a pessoa que controla as colunas e o som, essa pessoa também é importante. No meu caso, prefiro estar nos bastidores a ser o centro das atenções. Prefiro estar a fazer o trabalho de despertar a consciência de outras pessoas para se preocuparem mais com a cidade.
– Acha que estará pronta para concorrer às eleições passados mais quatro anos?
K.S.L. – Acho que não, verdadeiramente. Ser deputada não é uma tarefa fácil. Prefiro ser professora a ser deputada. O ensino é a minha profissão e o ambiente que eu aprecio. Às vezes sinto que há mais para atingir estando fora da Assembleia Legislativa, porque há muitas restrições para os deputados.
– Se não quer mudar a sociedade através de trabalho na Assembleia, de que modo quer contribuir?
K.S.L. – O meu ideal é que a sociedade possa estar dividida em vários movimentos cívicos, que se focam em temas específicos, tais como o movimento contra a violência doméstica ou de apoio a animais abandonados. Um grupo desses, com cinco ou dez membros, terá mais tempo para estudar cada tópico. Actualmente temos apenas duas ou três pessoas que têm de lidar com todos os temas, mesmo que não estejam muito familiarizadas com certas noções. Não há qualquer outra forma [de que essas não sejam as vozes que se ouvem], porque o sistema está mal desenhado.
– Parece que há várias caras jovens na sociedade e que todas levantam questões em diferentes associações. Os protestos massivos contra a proposta de lei de subsídios para ex-governantes tiveram algum impacto?
K.S.L. – Há poucas pessoas em Macau e por isso vemos quase as mesmas caras em várias associações. Depois disso, acontece que mais jovens ficam a par do que está a acontecer. A verdade é que muitas novas caras vieram ter connosco depois desta lei. Acho que é um bom começo. Fizemo-los saber que os protestos não têm de ser violentos, como estão estereotipados, mas que podem ser alegres, como um carnaval. Não me importa que pensem assim. O mais importante é o nosso direito e a legitimação de o fazermos. Francamente, se a atenção estivesse toda concentrada numa pessoa, ele ou ela estaria demasiado pressionada. As pessoas poderiam desconfiar se estaria a tentar obter mais poder negocial em troca. Todos nós neste círculos sabemos que a dedicação está toda posta na mudança, sem qualquer outro propósito.
– Por que razão decidiu envolver-se na causa da violência doméstica?
K.S.L. – Não apenas [nessa causa]. Também aprendi muito sobre a causa dos animais, o esquema de habitação, o salário mínimo. Diria que me preocupo com a sociedade. Tudo funciona de modo deficiente por causa deste sistema. Por que não mudar os seus fundamentos, a sua origem? Por exemplo no que toca à violência doméstica, vejo muitas associações de mulheres oferecerem assistência limitada às vítimas, com muitas regras que têm de seguir. Não têm a sua própria palavra a dizer, apenas apoiam tudo o que o Governo propõe.