“Parece que Macau é um poço de segredos”

fernando esteves 1Ao escrever a biografia de Jorge Coelho, Fernando Esteves revisitou Macau do final dos anos 1980. E percebeu que, quase 25 anos depois, o escândalo do fax e a teia de poder de Mário Soares ainda deixam mais perguntas que respostas.

“Jorge Coelho, o Todo-Poderoso”, de Fernando Esteves, não é um livro sobre Macau. É a biografia não autorizada de Jorge Coelho, para a qual o socialista deu o testemunho sob o compromisso de não a ler previamente ou interferir na sua construção. Mas a passagem do político português pelo território – entre 1988 e 1991 – torna obrigatório o regresso a um dos episódios que recolocou Macau nas páginas dos jornais portugueses: o escândalo do fax (1990) que levou à demissão do então Governador, Carlos Melancia, e que aqui quebra um silêncio de décadas.

Neste livro que estará à venda em Macau na Livraria Portuguesa, o editor de política da revista portuguesa Sábado, mostra ainda como Jorge Coelho, que ganhou a fama de “bombeiro” em Macau, se tornou num dos mais poderosos políticos portugueses.

–  Apesar de ser uma biografia parece ter tido o cuidado de retratar o estilo de vida de Macau no final dos anos 1980. Porquê?

Fernando Esteves – Essa é uma preocupação em todo o livro. Decidi partir do princípio que as pessoas não conheciam a realidade macaense, assim como não conheciam em detalhe a história do PS. Mas com Macau tive uma preocupação acrescida, pois realmente as pessoas não conhecem. Antes [de escrever o livro] falei com muitas pessoas, com amigos meus, pessoas cultas e informadas e a única coisa que elas sabiam sobre Macau era a história do fax. E sabiam-na mal. Não sabiam como é que o fax tinha ido parar ao [semanário]  “O Independente”, não sabiam o que estava em causa, que tinha havido um problema com uma empresa alemã, etc.

 

– E qual foi a participação de Jorge Coelho nesse episódio?

F. E. – Foi razoavelmente residual. Ele é o homem que avisa Carlos Melancia através de um telefonema que a história está na capa d’ “O Independente”. O segundo telefonema é de Stanley Ho…

– O que é sintomático…

F. E. – O que é sintomático. Ele oferece-se para o ajudar dizendo-lhe que pode falar com o Governo chinês. Mas nessa altura Carlos Melancia achava que tinha a proteção de Mário Soares [então Presidente da República]: foi ele que o nomeou para o cargo, era amigo e [ele, Melancia] conseguia financiamentos para o Partido Socialista através destas empreitadas.

– Como assim?

F. E. – Não havia um favorecimento directo, digamos assim. Neste caso a Weidlepan pagou 50 mil contos [hoje mais de 6 milhões de patacas] para ser admitida num concurso contra outras empresas que também tinham pago para entrar. Esse dinheiro – embora isso não esteja provado – destinar-se-ia a financiar a campanha eleitoral de reeleição de Mário Soares [em 1991]. Mário Soares não é inocente nesta história. Não é por acaso que Carlos Melancia o acusa de traição. É que na sequência do episódio ele vai a Belém [a sede da Presidência da República portuguesa] absolutamente convencido de que sairia de lá com um reforço de confiança por parte de Soares. E o que ele lhe diz foi: “Agora só estou a pensar na minha reeleição e você é um elemento tóxico. Portanto ou se demite ou eu demito-o. E era mais digno se fosse você a demitir-se”. E Carlos Melancia acaba por se demitir.

– Carlos Melancia, que deu o seu testemunho para o livro, falou pela primeira vez sobre este caso.

F. E – Há três revelações politicamente relevantes neste capítulo. O Carlos Melancia ter aceitado falar – nunca tinha falado sobre o assunto – e acusar Mário Soares de traição. O papel de Soares em todo este episódio tem sido continuamente alvo de limpeza em termos comunicacionais. Só há uma pessoa em Portugal que investigou este caso a sério, que foi Joaquim Vieira e pagou o preço por tê-lo feito [foi afastado do semanário Expresso]. Afrontar o Mário Soares em Portugal é crime. Mário Soares tem muito boa imprensa, muito poder e os jornalistas nunca tiveram coragem de o afrontar.  A terceira revelação é o facto de o Carlos Melancia dizer que o dinheiro – os 50 mil contos – foram devolvidos à Weidlepan pelo Rui Mateus [um dos fundadores do Partido Socialista].

– O Joaquim Vieira [também autor da biografia de Mário Soares] disse que ao investigar os episódios passados em Macau sentiu que eram ainda obscuros. Neste livro também sentiu essa relutância?

F. E. – Sim. Parece que Macau é um poço de segredos. As pessoas sabem todas muito mais do que querem dizer. Ou melhor, do que podem contar. O Jorge Coelho disse-me: “Sei tudo o que se passou [do escândalo do fax], mas não lhe vou contar”. Outras pessoas que sabem a história também não quiseram contar. E pergunto-me…

– Quem estão a proteger?

F. E. – Sim, quem estão a proteger. De quem têm medo. Por norma quando passa muito tempo as verdades históricas começam a vir ao de cima. No entanto, o que temos são ainda suposições. Não posso dizer com toda a propriedade – assim como Joaquim Vieira não o faz – que os 50 mil contos foram para Mário Soares e para a reeleição. Existem fortíssimos indícios de que isso tenha acontecido, mas também pode não ter sido. Não há ninguém que tenha a coragem de o dizer. Nem o Carlos Melancia que falou pela primeira vez sobre o caso. O que é muito sintomático sobre a forma como as pessoas se relacionam com o seu passado no território.

– Nas entrelinhas do que diz parece perceber-se que a pessoa que querem proteger é Mário Soares.

F. E. – É Mário Soares, acho que sim. Mário Soares é o ‘paterfamilias’ do PS. A partir do meio do primeiro mandato o único interesse dele é a reeleição. Ponto. Ele é uma pessoa que vinha de famílias abastadas. Não é pessoa que procure dinheiro. Mas precisava de dinheiro para se reeleger. E há outro pormenor entretanto – ele foi convencido pelas pessoas que o rodeavam que com a privatização da comunicação social [em Portugal] precisava de um grupo de media para o ajudar na reeleição. De ter boa imprensa. E acabou por patrocinar de forma discreta a criação de um grupo de media [Emaudio]. Procurou investidores como Rupert Murdoch [da News Corporation] e Robert Maxwell [do Mirror Group]. E depois aparece o investimento na TDM também… [a possibilidade de entrada de capital no canal de televisão].

– Que acaba por cair…

F. E. – Porque o Maxwell achou que havia coisas que não eram transparentes e decidiu sair. Percebeu que era um projecto político destinado a financiar uma campanha eleitoral.

– Refere as circunstâncias em que Jorge Coelho foi essencial em Portugal. Por exemplo, na escolha de José Sócrates como candidato do PS antes das eleições de 2005. Em Macau é possível saber o que poderia ter sido diferente se não fosse Jorge Coelho?

F. E. – Acho que a passagem dele pelo Governo de Macau não é decisiva. Apesar de tudo foi uma figura secundária. Teve numa pasta importante [secretário-adjunto para a Educação e Administração Pública], mas não essencial e esteve pouco tempo. Não acho que tenha deixado uma marca indelével no território como deixou em Portugal. Cimentou uma aura de competência e combatividade, importante para ganhar espaço no PS. Veio para cá como militante anónimo e voltou como membro do Governo [ministro-adjunto de António Guterres].

– Foi mais Macau que fez por ele do que o contrário?

F. E. – Sim. Macau ajudou mais Jorge Coelho, do que ele Macau.

– Como Jorge Coelho recorda Macau?

F. E. – Há aqui um vínculo inexplicável. Todas as pessoas que entrevistei sobre Macau sentem uma nostalgia enorme sobre o tempo que passaram aqui ou acompanham essa nostalgia com um desejo fortíssimo de voltar. Jorge Coelho não deseja voltar até porque a vida dele mudou muito, mas fala com um carinho brutal e saudade enorme. Acho que o território deve ter algum segredo porque marca de forma brutal as pessoas. Aliás, um dos capítulos fala sobre a subida do António Guterres ao poder em 1995 e quando se forma o que na altura se designou “Grupo de Macau”. Um conjunto de pessoas que passou pela administração de Macau e que depois “contaminou” todo o primeiro governo de Guterres.

– Foram quatro ministros…

F. E. – Foram quatro ministros, mas também secretários de Estado, chefes de gabinete, assessores… Toda a administração estava carregada de pessoas que vieram de Macau. Há ali laços de solidariedade… Nem sequer digo no sentido depreciativo. Não estou a dizer que seja um lobbyorganizado. O que acontece é que se criaram laços de solidariedade tão fortes que as pessoas quando precisavam de escolher entre duas figuras para um lugar escolhiam a que esteve no território pois havia aqui uma espécie de irmandade.

– Entrevistou as pessoas de Macau, mas nunca veio cá?

F. E. – Nunca. Aliás, tem sido muito curioso estar cá [o jornalista veio acompanhar Cavaco Silva]. Ontem passei à frente do antigo Palácio do Governador. Abro o capítulo sobre Macau com um episódio épico da passagem do Jorge Coelho por aqui, que cimentou a alcunha dele de “bombeiro”. É uma manifestação de 2500 polícias à frente do Palácio sob uma chuva tremenda. Eles manifestavam-se pelo facto de os outros funcionários públicos terem sido aumentados e eles não. O Governo entrou em pânico e ninguém teve coragem de encarar a multidão. Aquilo estava muito complicado. Os polícias ameaçavam invadir o Palácio. Entretanto as autoridades chinesas já tinham uma força de intervenção pronta a entrar no território e é Jorge Coelho que salva a situação. Ele estava a passar pelo Palácio a caminho de casa e eles falam-lhe da possibilidade de os chineses irem lá limpar aquilo [um representante dos chineses no território disse que estavam 5000 militares na fronteira à espera de avançar]. E ele diz: “No momento em que deixarmos que os chineses venham aqui, a nossa presença deixa de fazer sentido. Estamos a admitir que não somos capazes de administrar o território. Vamos ter de ser nós a resolver”. Então vai para a frente do Palácio, sobe a um carro com um megafone [e tradutor ao lado] e começa aos berros naquele estilo bélico dele e quando acabou de falar vê que a multidão dispersou.

– Tal como Jorge Coelho outras jovens promessas do PS como António Vitorino e Maria de Belém passaram por Macau. Macau é como um propulsor? Teve o efeito de fazer com que alguém que chegava como anónimo saísse como membro do Governo?

F. E. – Com algumas pessoas teve. Era uma maneira de relançar a sua carreira política. Era uma questão de aventura, por outro lado ganhavam mais dinheiro e prestígio que não teriam em Portugal.

– Há o caso de Rosado Correia, ex-ministro português, que foi interceptado no aeroporto com uma mala de dinheiro de Macau que ia levar para o PS. Um dos interesses de enviar tantas pessoas para o território era o de angariar financiamento para o partido?

F. E. – Não posso dizer de forma taxativa. Mas se quiser a minha opinião, acho que sim. Mas é uma opinião que não está alicerçada em factos. Acho que o PS sabia que passava aqui muito dinheiro. [Quem vinha para cá] estava muito longe de Portugal e eles nomeavam comissários políticos que lhes pudessem fazer chegar o dinheiro.

P. S. A.

 

One comment

  1. […] Na minha passagem por Macau encontrei a magnífica Patrícia Alves, ex-jornalista da Sábado, agora a trabalhar num jornal macaense. Posso dizer que me prestou um serviço completo: fez-me uma entrevista soberba e no fim ainda me emprestou dinheiro para sobreviver (inebriado pelos amanhãs que cantam, perdera o meu meu cartão de crédito). Fiquem com a entrevista, que também podem ler aqui. […]

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