António Barreto esteve ontem na Livraria Portuguesa para uma conversa sobre as quatro décadas de democracia portuguesa. E defendeu que o voto universal deve estar ao alcance de todos.
Inês Santinhos Gonçalves
Foi uma sala cheia que recebeu ontem António Barreto na Livraria Portuguesa. Falou de Portugal, das evoluções que o país viveu nos 40 anos de democracia e dos desafios e dificuldades que hoje enfrenta. À saída, o sociólogo teve ainda tempo para falar sobre Macau, uma cidade a que o ligam “laços familiares e recordações”, não fosse esta a casa do seu irmão Nuno Barreto durante quase duas décadas.
Sociólogo e estudioso dos impactos da transição política em Portugal, de uma ditadura para uma democracia, Barreto não hesita em defender o sufrágio universal como um sistema a adoptar globalmente, incluindo em Macau. “Por vocação e profissão de fé, acho que todos os países e todas as regiões, todas as autarquias, todas as comunidades humanas se deviam reger pelo sufrágio universal. Sim, o sufrágio universal deve ser a regra no mundo inteiro”, afirmou, quando questionado sobre as vantagens de Macau adoptar o sistema de ‘um homem, um voto’ para a eleição do Chefe do Executivo.
Desde 1999 que o sociólogo não visitava o território, e olha para diferenças como “colossais”. São mudanças que não lhe agradam: “Não gosto de casinos. É uma loucura o que se fez aqui, os arranha-céus, os casinos, o urbanismo, tudo isto. Não gosto. Mas quem sou eu para dizer que Macau não deve ser jogo, não tenho nada a dizer sobre isso”.
Chegado de uma viagem de 15 dias por Pequim e Xangai, Barreto manifestou o desejo de que a vista de Cavaco Silva ao país “venha criar, inovar ou dar origem a uma nova ligação de Portugal à China”.
O sociólogo diz-se “surpreendidíssimo com a pujança, o tamanho, a dimensão e a evolução” da China. “Portugal já devia ter estado mais atento à China, e obviamente a Macau e a Hong Kong, do que aquilo que parece ter estado nos últimos 20 anos. Portugal, infelizmente, acaba sempre por desperdiçar a história, desperdiçar as oportunidades, as possibilidades que estão dentro de nós. Espero que a vinda do Presidente da República a Macau e à China não seja uma viagem de pura cerimónia, de puro protocolo”, defendeu.
Emigração construtiva e enérgica
Barreto olha para o fenómeno da emigração como um sintoma de que há em Portugal “problemas sociais que é preciso atacar” e de que o país “está mal, com poucas oportunidades”. No entanto, o que é mau para o país não é necessariamente mau para as pessoas que emigram. “É frequente que uma pessoa no estrangeiro tenha melhores oportunidades e muitas vezes aprende, desenvolve-se e volta. Há uma dimensão positiva, enérgica, que só me pode agradar”, defende. “A emigração ajuda as pessoas a viver, a resolver os seus problemas, a conhecer outros sítios. É sinal que têm energia e estão a lutar”, acrescentou.
Sem revoluções à vista
Na sua intervenção “Portugal, 40 anos depois de Abril”, Barreto defendeu que “o que mudou nos últimos 40 anos em Portugal foi profundo, foi ao osso das coisas” e essas mudanças foram, em termos gerais, positivas, passando por uma maior representatividade das mulheres na vida pública, maior escolarização, mais apoio social, maior esperança de vida e, claro, o estabelecimento de liberdades individuais e políticas.
No entanto, há cerca de dez anos, e após as fases de construção e desenvolvimento, Portugal entrou naquela que chama a fase de exaustão. Hoje enfrenta três grandes problemas: endividamento, falta de investimento e uma elite política que “não tem conseguido fazer o compromisso necessário”.
Ainda assim, e mesmo reconhecendo o clima de insatisfação da população, o sociólogo rejeita a possibilidade de se assistir a uma revolução em Portugal. “Acho que não. E se houvesse uma revolução em Portugal nos próximos anos receava o pior”, concluiu.

[…] Para quem esteve ontem na Livraria Portuguesa, Antonio Barreto deu das melhores conferências em Macau que me foi dado ver em quase 20 anos de Macau. Foi claro, preciso, com uma visão panorâmica sobre o país, a Europa e o mundo. Aqui (Ponto Final) fala na China mas não falou ali (Livraria Portuguesa) nela. Por humildade intelectual, que deve ser a qualidade do intelectual honesto, que fala do que sabe, não do que não sabe. In https://pontofinalmacau.wordpress.com/2014/05/12/o-sufragio-universal-deve-ser-a-regra-no-mundo-intei… […]