Nas traseiras do centro histórico há uma velha papelaria a fechar – não faltam clientes, mas faltam sucessores para o negócio. Também há quem abra novas lojas, com expectativa de revitalizar o bairro.
Iris Lei
O dia começa às seis da manhã, hora a que Leong Chiu toma o pequeno-almoço ante de ir abrir a papelaria Cheong On na Rua dos Mercadores. O comerciante tem a mesma rotina há 58 anos, depois de ter herdado o negócio do seu pai em 1956.
Mas a 2 de Maio deste ano, o homem de 84 anos decidiu mudar de vida e afixou um aviso na porta da papelaria: “Caros clientes, a nossa loja foi criada em 1941, já passaram mais de 70 anos. Obrigada pelo vosso apoio, que nos permitiu manter o negócio. Uma vez que a maior parte dos proprietário já são idosos e os mais novos escolheram outros negócios, temos dificuldade em continuar. Por isso, decidimos encerrar no final de Maio”.
A notícia espalhou-se e o pequeno estabelecimento enche-se estes dias de estudantes à procura de artigos mais baratos, vizinhos que procuram acautelar-se com outros artigos que só ali se vendem e clientes frequentes que não querem sequer esperar pelo serviço de entregas a casa, com medo que os produtos se esgotem.
A loja nunca teve tanto movimento, diz Leong Chiu, que se mantém calmamente sentado atrás do balcão à entrada enquanto com mil tarefas e mãos: satisfazer pedidos que vêm de todos os lados, passar recibos, fazer o troco sem calculadora e atender de vez em quando o telefone.
Leong Chiu não tem razões de queixa do negócio da papelaria. “Dá lucro, mas já não há quem tome conta dele. Não teria de fechar se fosse 20 anos mais novo”, conta. Não é problema de rendas. “Sou um velho com mais de 80 anos”, olha-nos a explicar.
“Fazer negócio aqui é um problema. É um pouco melhor para nós, não temos de pensar na renda. Os outros têm as rendas, os trabalhadores, e muitas outras coisas”, descreve. O dono da papelaria resmunga contra o aumento dos custos do negócio e também contra o trabalhador que lhe faz as entregas, que ontem não foi ao serviço e deixou serviço atrasado.
Mesmo que a loja não estivesse prestes a fechar, Leong Chiu veria o futuro com pouco optimismo. “Não somos uma grande empresa”, diz, mostrando que seria difícil competir a longo prazo com as cadeias de papelaria.
No fim deste mês, acaba-se a Cheong On depois de 73 anos de actividade. “Vou sentir sobretudo a falta dos clientes – está toda a gente preocupada com o fecho, sem saber onde comprar as coisas de que precisa”, diz o comerciante, disponível para recomendar outras papelarias aos clientes habituados a alguns artigos especiais.
Lojas espaçosas a preços razoáveis só se encontram nos bairros antigos. Mas ainda assim é um risco abrir negócio nestas paragens, conta Kam, proprietário de uma loja de marisco seco, que inaugurou esta semana na Rua de Camilo Pessanha. O comerciante respirou fundo, assumiu o risco e assinou contrato há dois anos, comprando uma área de mais de 370 metros quadrados para abrir uma nova sucursal.
“Sou o primeiro a investir aqui. Nos últimos anos, ninguém o tem feito. Espero que as outras lojas nos sigam e mudem para aqui para reanimar o bairro”, afirma. Kam tem mais de 20 anos de experiência na área e negócios estáveis em Hong Kong e Cantão, que lhe permitiram abrir loja nova “numa rua parada, sem turistas ou atracções especiais”, como descreve.
Kam abriu a sua primeira loja na Rua dos Mercadores na década de 1990 e pensou o novo espaço como extensão do primeiro. “Já não há mais lojas na Rua dos Mercadores. Se houver alguma, aposto que nem por 300 milhões lha vendem”, diz-nos.
Foi necessário um ano para as obras de remodelação da loja nova da Camilo Pessanha que esta semana abriu portas. O proprietário diz que o seu sucesso está dependente das vendas por grosso para outras lojas de marisco seco e para restaurantes. “Isto não é acessível aos turistas e a população do bairro gasta pouco”.
