“Quando tudo está mal inventas uma história para ti”

Karla Suarez - Foto de Claudia ArandaKarla Suárez, escritora cubana, divide o tempo entre a Literatura e a Engenharia Electrónica. E já se cansou da mesma pergunta – não sabe o que vai acontecer a Cuba quando Fidel morrer.

É uma cubana em Lisboa que se aportuguesou – fala português e usa a palavra saudade. Mas é também uma cubana que se mantém fiel a si mesma. “Os meus romances são sempre em Cuba ou têm relação com Cuba, mas não gosto da nostalgia, da saudade… Se moro em Lisboa, então moro em Lisboa. A saudade tem de ser controlada senão toma conta da tua vida”. A viver fora de Cuba há 15 anos, Karla Suaréz, 44 anos, mudou-se para Roma em 1998, passou por Paris e só depois se fixou em Portugal.

Em Macau (e na Ásia) pela primeira vez a convite do Festival Literário, a autora de “Havana, ano zero” diz que a partir de agora se vai tornar mais compreensiva com os turistas de ar perdido. Identificou-se com eles ao andar pelas ruas de Macau.

– Se tivesse de escrever um livro sobre Macau, que registo teria?

Karla Suárez – Seguramente teria um registo de alguém que está a descobrir algo completamente diferente. É a primeira vez que venho à China, à Ásia. E estes dias têm sido muito interessantes. É uma experiência muito forte até porque não gosto de chegar a um lugar com ideias [feitas]. A experiência já me ensinou que nada é como se conta nos jornais e telejornais. Por isso, gosto de chegar e ter a minha experiência. Ontem, por exemplo, estava à espera do barco [de Hong Kong] e estava um chinês ao meu lado e pouco depois apercebi-me que alguém lhe estava a tirar uma foto comigo. Então [olhei para essa pessoa] e comecei a sorrir. Vieram todos – crianças e tudo. Todos queriam tirar fotos comigo e olhavam para os meus cabelos. Aí apercebi-me que sou uma coisa estranha. Eles falavam em chinês e eu em espanhol, mas divertimo-nos. Ontem eles devem ter chegado a casa e mostrado a foto a dizer: “Olha o que encontrei”.

– O desconhecimento de uma língua afecta a percepção da realidade. Sendo escritora isso faz-lhe confusão?

K. S. – No primeiro dia foi muito engraçado. Fui a muitos restaurantes e as raparigas eram simpáticas, mas riam-se e diziam: “Sorry, sorry, I don’t speak english”. E aí pensei: “Olha, vou ficar sem comer”. Mas isso não podia ser. Até porque as pessoas quando querem, comunicam. No segundo dia já encontrei locais onde [os pratos] têm fotos. Aí percebes que quando um turista passa por ti na cidade em que vives muito tranquila, ele pode estar a ter problemas [risos]. Agora vou ser muito mais compreensiva com todos os que andam com um ar perdido e um mapa na mão [risos].

– Costuma procurar os livros de Julio Cortazar [autor argentino] sempre que viaja. Já o fez aqui?

K.S. – Não, porque já tenho os livros todos dele. Mas comecei a fazer a colecção de “O Principezinho” há dois anos. Quando fui à Argélia comprei a edição em árabe que era muito linda e depois percebi quando cheguei a casa que tinha o livro em francês, italiano e espanhol. Então decidi que iria comprá-lo quando fosse a uma cidade nova. Apesar de nunca ter ido à China comprei o livro em chinês em Janeiro, em Roma. A edição era muito bonita e decidi levá-la. Abri esta excepção porque quase todos os livros [de “O Principezinho”] têm a mesma capa, mas aquele era diferente. Dois meses depois recebi o convite para vir a Macau e trouxe o livro, mas logicamente não percebia nada ­– sabia que era “O Principezinho” porque tinha as imagens. Mas quando cheguei cá disseram-me que era em chinês simplificado e então fui tentar comprar o livro em chinês tradicional. Agora tenho “O Principezinho” em chinês tradicional.

– Na apresentação no Festival Literário disse que continua a trabalhar no campo da Engenheira Eléctrica. Por que faz questão de conciliar estas duas áreas?

K. S. – Costumo dizer sempre: “Tenho muitos cabelos e cada um deles é uma antena”. Até agora não me dediquei só à literatura. Tenho de fazer sempre alguma coisa técnica, montar coisas. Não quero deixar a informática. E mesmo quando não tenho muito trabalho como informática começo a fazer sites para amigos. Por isso é que acho que em todos os meus romances há sempre alguém que estudou na minha universidade ou é engenheiro.

– É um meio de manter essa ligação?

K. S. – Sim. No meu último livro [“Havana, ano zero”] a protagonista é uma professora de matemática. Diverti-me muito com isso. Para mim não era muito difícil pois ela tinha a mesma estrutura mental que eu. Gostei de fazer isso porque pela primeira vez esse mundo era protagonista. No outro livro, a personagem principal queria ser escritora.

– Li que tinha o hábito beber um pouco de rum todos os dias para manter a ligação com Cuba. Isso acontece?

K. S. – Todos os dias não [risos]. Bebo em festas.

– Mas estando fora do país como é que mantém a ligação afectiva com Cuba no dia-a-dia?

K. S. – Através da escrita. Os meus romances são sempre em Cuba ou têm uma relação com Cuba. Mas não gosto da nostalgia, da saudade… Se moro em Lisboa, então moro em Lisboa. Não estou em Lisboa com saudades de Roma. Ou em Roma com saudades de Havana. Assim fica-se no meio. Até porque quando voltas é como regressar a um país que não conheces muito. Fui embora há 15 anos e quando volto não sou a mesma pessoa que foi embora. E o país mudou muito. Não é o país onde eu cresci. A saudade tem de ser controlada senão toma conta da tua vida.

– Qual foi o país onde a adaptação foi mais difícil?

K.S. – Quando saí de Cuba para Itália. No início foi muito difícil porque sou muito independente e lá não conhecia nada, nem a língua, e faltavam-me referências de cultura geral, da vida prática. Por exemplo não sabia o nome daquela actriz famosa de que todos falavam. Era como uma miúda que tinha de perguntar tudo. Os primeiros meses foram duros. As pessoas a falar e eu sem perceber nada. Aí sim, dizia: “Quero um rum!” [risos].

– Aborrece-lhe que por ser cubana lhe façam perguntas como se fosse analista política?

K. S. – [Risos] Como não sou analista política respondo o que posso.

– Mas existe um interesse especial por Cuba?

K.S. – Sempre. Agora já é normal para mim, mas ao início aborrecia-me [nas promoções das obras]. Estás lá para apresentar um livro que conta uma história e às vezes o jornalista não leu o livro, mas quer saber sobre o Fidel Castro, sobre o que aconteceu a Cuba e o que vai acontecer depois de Fidel Castro. Aí tu pensas: “Porque é que depois de meia hora não me perguntaste nada sobre mim ou o meu livro? Não é interessante?”. Quando comecei a publicar e a dar entrevistas às vezes respondia: “Quero falar do livro e também sobre Cuba pois o livro tem a ver com Cuba, mas não sei o que vai acontecer a Cuba. Não conheço o Fidel Castro, não é meu amigo”. Com os cubanos é sempre assim.

– Isso não acontece tanto com outras nacionalidades?

K. S. – Um amigo meu que é escritor e é do Panamá disse-me uma vez: “Em todo o caso, vocês cubanos, têm sorte. Ninguém [jornalista] se interessa por mim porque ninguém quer saber do Panamá” [risos]. Mas a moda de Cuba vai e vem. Às vezes, ninguém se interessa e nessas alturas penso [risos]: “Ninguém quer saber o que se passa em Cuba? Como é possível?”.

– Disse que em 1992 havia muitas falhas de energia em Cuba e era difícil trabalhar [por causa da crise económica depois do colapso da União Soviética], mas que se aproveitava o tempo para outras coisas. Essa é uma forma de estar que me parece chocar com o que é ser português. Sente isso?

K.S. – O ano de 1992 foi muito, muito difícil para quem trabalhava. Em oito horas de trabalho, em seis podia não haver electricidade e o computador não funcionava. E o que fazíamos? No romance “Havana, ano zero”, que se passa em 1993, as personagens diziam que como ficavam sem nada para fazer, sorriam, faziam amor e sonhavam. [Nessa altura] ias para casa e tinhas de fazer as coisas rápido porque às seis da noite a electricidade ia embora. Uma pessoa também não podia dizer que se ia suicidar porque não podia comprar nada para se suicidar [e faz o gesto de cortar os pulsos]. Mas pensava: “Vou chorar? Não. Se choro ainda é pior”. Os cubanos dedicam 15 minutos a falar de coisas sérias e a analisar a situação, e depois fazem a festa. Não vamos passar a noite a dizer o quão mal estamos. Não sei se os portugueses dedicam 15 minutos a fazer isso. São maneiras diferentes. A salsa e o fado são diferentes.

– Também li numa entrevista sua que nessa altura, como não havia papel, havia muitos contos que só ouviu e que não foram registados.

K. S. – Sim. Era o período em que não havia papel, mas as pessoas continuavam a escrever. Faziam-no atrás das facturas da electricidade, por exemplo. É que não havia electricidade, mas as contas continuavam a chegar. A criatividade faz-te viver. A literatura é sonhar. Quando tudo está mal inventas uma história para ti e ficas lá porque te faz sentir melhor. A realidade virtual é isso – existe na cabeça das pessoas, não precisa de equipamentos. Agora muitas pessoas têm uma vida real muito fechada e sem amigos, mas vivem no Facebook e têm um sucesso enorme lá. O ser humano vai sempre procurar uma maneira de sobreviver. É um instinto.

 P. S. A.

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