“Qualquer criação é um acto de comunicação e de descoberta”

Ilustracao Andre CarrilhoAndre Carrilho - Foto de Claudia Aranda 2O designer, ilustrador, cartoonista André Carrilho resolveu “sair do trilho” para experimentar um novo caminho nas artes. “Inércia” é lançado sábado em Macau.

Cláudia Aranda

André Carrilho regressa a Macau para a exposição e o lançamento do livro “Inércia”, sábado, às 17h, na Livraria Portuguesa. Esta é a nona obra do designer, ilustrador, caricaturista, cartoonista autor do cartaz do festival literário de Macau Rota das Letras. “Inércia” reúne 80 desenhos à vista recolhidos em seis lugares localizados na Ásia, África e Europa e junta, também, textos do autor, que começaram como posts no Facebook.

“Com as redes sociais as pessoas começaram a escrever bastante. Começas a ter uma presença online, a partilhar o teu diário, a tua vida. Dizia-se que as pessoas iam deixar de escrever e que a escrita e a literatura estavam a acabar com as novas tecnologias. Acho que talvez deixemos de falar, mas estamos a ler e a escrever mais”. Foi assim que o artista começou a escrever fazendo “ensaios” de posts no Facebook.

Os desenhos surgiram a partir de um outro processo. Carrilho estava cansado “do método quase industrial da fabricação da ilustração”. “A partir do momento em que uma pessoa cria um estilo e é reconhecida e procurada por esse estilo, torna-se cada vez mais difícil sair do trilho, as pessoas querem o que estão habituadas a ver. Começas a não ter o gozo que tinhas no princípio a criar e descobrir coisas. Qualquer criação é um acto de comunicação e de descoberta. Se não estás a descobrir nada começas a questionar-te ‘então para que é que estou a fazer isto?’, porque este é um trabalho que está ancorado a uma procura pessoal”, diz.

André Carrilho começou a viajar, primeiro, porque “estava farto do frio” de Lisboa,

conta rindo-se, mas, também, para prosseguir uma procura “pessoal, estética, visual e de trabalho”.

“Tudo começou um dia no aeroporto de Joanesburgo, a caminho de Moçambique, estava sozinho e comecei a registar o que estava a ver, como num exercício de memória”, diz.

O artista tem como regras nunca usar a fotografia como referência nem fazer correcções. Por isso, recorre a materiais diferentes aos que utiliza no trabalho profissional, como as tintas e aguarelas, mais difíceis de corrigir ou de apagar. “Os ajustes que posso fazer no desenho à vista é por acrescento e nunca por eliminação do que já foi feito”, explica.

André Carrilho queria ir a Moçambique, onde tem o pai e os irmãos, e regressar a Macau, onde viveu na adolescência e onde vem esporadicamente desde 2011. Para Carrilho viajar “é visitar pessoas”, é ir a lugares onde tem “alguém à espera”. No entanto, o artista tem de estar sozinho para desenhar. Tem de ter “aquela ânsia, passar por aquele processo de reflexão, porque isto é um processo interno, é uma coisa muito pessoal, que faço para mim”.

O autor começou a aceitar encomendas para fazer desenhos à vista – como foi o caso dos desenhos publicados na revista Volta ao Mundo, em 2013, cuja capa ganhou um prémio – “não pelo dinheiro”, mas para se “obrigar a estar sozinho” e a explorar este caminho novo.

Macau é para Carrilho o lugar “mais desenhável”. Do ponto de vista da “logística”, explica o artista, “nunca está muito frio, posso estar muito tempo na rua a desenhar”, diz rindo-se. Por outro lado, “Macau é uma justaposição de diferentes realidades e texturas gráficas muito interessantes, é homogéneo na sua diversidade, ou homogeneamente diverso”.

A cidade distribui-se pelo “Cotai, que é a zona high-tech, kitsch, monumental, tem as zonas das vilas de Coloane, da Taipa, do centro histórico, mais tradicionais, as zonas residenciais, a Areia Preta, Nova City, Fai Chi Kei, com densidade em altura e as zonas intermédias, em que tudo de mistura, da Barra, Porto Interior, Horta e Costa”.

Além disso, a cidade está sempre acordada e é à noite que o artista desenha. “Como Macau está sempre iluminado e tem sempre uma vivência nocturna isso cria quadros quase em negativo, mais gráficos, mais baseados no preto, com luzes que rasgam o desenho, que são um desafio técnico mais difícil e, por isso mesmo, é que me atrai”.

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