Partilhar a chave e a despesa

Com as rendas a subir há quem prefira dividir casa para ter mais dinheiro ao fim do mês.

Imagine que vivia num local onde as rendas da habitação eram muito baixas para o seu salário. O que preferia – partilhar casa ou viver sozinho?

Para José Manuel Martins, 32 anos, que divide um apartamento e usa aqui um nome fictício, a resposta a uma questão como esta é sem rodeios: “Prefiro viver sozinho. Dou-me bem com o meu colega de casa, mas por opção viveria sozinho. A renda foi onde senti mais diferença nestes sete anos que vivo aqui”, diz o arquitecto. Facto: se José voltasse hoje à primeira casa que alugou em Macau, em 2007, pagaria mais quatro ou cinco mil patacas – um aumento entre 80 e 100 por cento.  E considera que isso é demais. “Não queria estar a pagar oito ou nove mil patacas por uma casa minúscula. Se se dividir é tudo mais facilitado”.

Francisco Menezes, que vive em Macau há um ano e é responsável da tecnológica Quidgest para o Sudeste Asiático, concorda. “Pagar mais mil patacas para viver sozinho? Já gasto o suficiente com despesas da casa”, diz o gestor de 27 anos que partilha apartamento com outras três pessoas.

Desde que Francisco aterrou no território, em 2013, os preços das casas subiram 13,78 por cento, de acordo com a Direcção dos Serviços de Estatísticas e Censos. Agora, apesar de se imaginar a viver sozinho, não o faz. “Ao princípio como tinha acabado de chegar fazia sentido partilhar, mas agora já me via a viver sozinho, mas seria mais caro e a casa teria condições piores”, diz. E se mesmo assim quisesse uma casa só para si, o que perderia? “Agora há muitos fins-de-semana que passo fora e assim não poderia viajar tanto.”.

Quando Jorge Silva alugou a sua segunda casa para viver sozinho, a renda do seu T2 era de 4500 patacas. Um ano depois subia para 5600 e Jorge decidiu: tinha de partilhar despesas. “Poderia viver sozinho, mas também poderia gastar esse dinheiro em viagens. Ainda hoje é assim. Não me apetece deixar cinco mil patacas só para viver sozinho. Até porque sou flexível”, diz o arquitecto do CC- Atelier de Arquitectura. Mas admite: “Há fases em que me apetece estar sozinho e ter as minhas coisas, mas se me sinto bem com a outra pessoa e tenho confiança nela, não me incomoda nada viver junto. Até é um modo de não estar sozinho”. Hugo Esteves, 27 anos e gerente de uma empresa, é da mesma opinião: “Gosto de ter companhia e ter casa própria é caro”.

Das seis pessoas contactadas pelo PONTO FINAL, duas afirmaram que mesmo que as rendas fossem mais baixas, continuariam a partilhar casa. É o caso das também arquitectas Ana Ferreira, de 29 anos, e Inês Mateus, de 26. “Na fase da vida em que estou prefiro viver com outras pessoas”, responde Ana. Já Inês, que vive há um mês em Macau numa casa com três colegas, chegou logo avisada. “Disseram-nos que as rendas tinham subido muito e que neste momento era muito difícil encontrar casa por menos de quatro mil patacas”.

Mas apesar de preferirem viver em conjunto, isso não significa que o  custo de vida não seja uma preocupação das duas portuguesas e de todos – as seis pessoas contactadas pelo PONTO FINAL gerem o seu orçamento. “Parte-se do princípio que os estrangeiros têm um bom ordenado, mas às vezes não é bem assim. Se alguém tiver um bom ordenado não está preocupado com a renda e a relação qualidade/preço da casa”, diz José Manuel. Aliás, o arquitecto diz que se tem adaptado ao aumento da inflação.

“Deixei de fazer jantaradas dia sim, dia não. Antes viajava todos os fins de semana e agora é menos frequente e vou menos vezes a Hong Kong”. Os outros portugueses também esticam o salário.

Ana mudou-se para uma casa mais antiga e sem elevador para poupar 1400 patacas na renda e Jorge trocou de apartamento quando no ano passado o senhorio lhe aumentou a renda de sete mil para 13 mil patacas (um crescimento de quase 86 por cento). Resultado: teve de se mudar para uma casa mais pequena – e mais barata -, o que lhe criou problemas de arrumação. É que tinha comprado mobília para o outro apartamento e com a mudança não tinha onde a pôr. “Felizmente arranjei alguém que foi a Portugal e me levou coisas, senão tinha de as vender”.

P.S.A

– Em 2013 as rendas em Macau aumentaram 13,78 por cento, de acordo com os dados actualizados do índice de preços no consumidor.

– No ano passado a inflação geral aumentou 5,5 por cento. Aqui, para além das rendas, as refeições fora de casa foram aquelas que mais contribuíram para o crescimento dos preços – em conjunto contribuíram para um aumento de 3,8 pontos percentuais da taxa de inflação anual.

– No início de Janeiro de 2014 a Assembleia Legislativa chumbou o projecto de lei dos deputados José Pereira Coutinho e Leong Veng Chai para impor limites ao aumento das rendas, para congelar o seu valor por dois anos e aplicar multas a quem não respeitasse a medida. Uma das razões para o chumbo: este problema não afecta a maior parte da população devido ao facto de “a maioria das casas ser adquirida pelos residentes”, afirmou na altura o deputado Gabriel Tong, nomeado pelo líder do Governo, Chui Sai On.